O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, nos dias 4 e 5 de setembro, uma jornada para debater “A família e o impacto da violência sobre a vida de crianças e adolescentes: uma visão sistêmica”. Organizado pelo Núcleo de Apoio aos Profissionais que atendem crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos (NAP-IFF), o evento reuniu profissionais que lidam com a faixa etária infantojuvenil, em 16 horas de atividades.
A pediatra e coordenadora do NAP-IFF, Rachel Niskier, reforçou que, há 20 anos o Instituto se dedica fortemente ao tema, com o objetivo de transformar o conhecimento e a informação em prática, e os participantes em grandes multiplicadores. “Me dedico há algumas décadas à prevenção da violência contra criança e adolescente, é um tema pesado, triste, mas absolutamente necessário, pois a violência é uma das mais graves formas de sofrimento físico e psíquico da criança e adolescente e, certamente, do adulto”, informou ela.
Na mesa de abertura, o diretor do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO), Antônio Meirelles, comentou que, a responsabilidade de participar desse tipo de evento cresce, pois temos a oportunidade de aprender e multiplicar. “Falar de violência em uma semana como essa, que aconteceu uma tragédia no Museu Nacional, compromete as próximas gerações que não terão acesso àquele acervo maravilhoso para aprender. Essa é uma grande violência contra a criança e adolescente e o futuro do Brasil”, lamentou ele.
Na sequência, a assistente social e membro da Coordenação de Atenção à Saúde do IFF/Fiocruz Dolores Vidal frisou que, a realização da jornada foi muito significativa, pois o Instituto tem trazido de maneira sistemática o tema da violência, com o intuito de oferecer reflexão e debate. Dolores também aproveitou para questionar que, em casos de violência, os participantes devem estar atentos em como podem contribuir para que para que o ciclo seja interrompido. “É uma questão de saúde pública e que precisa ser discutida. Infelizmente, faz parte do nosso cotidiano e é extremamente importante para que os profissionais possam saber lidar”, ponderou ela.
Encerrando a mesa de abertura, o diretor do IFF/Fiocruz, Fábio Russomano, agradeceu a confiança dos presentes e disponibilidade de compartilharem conhecimentos. “Essa jornada vem muito ao encontro da nossa missão institucional como Instituto nacional, que é de promover a saúde da mulher, crianças e adolescentes e fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS). E fortalecer o SUS, dentre outras coisas, significa disseminar conhecimento e apoiar a atuação dos profissionais”, finalizou ele.
O evento contou com várias discussões, apresentadas por renomados profissionais. Uma delas foi “A família em suas atuais configurações”, em que a assistente social do IFF/Fiocruz Mariana Setúbal abordou como dialogar sobre o papel das famílias, as atuais configurações e os rebatimentos na atuação dos profissionais de saúde. Logo no início, Mariana explicou que, a origem da palavra família vem dos romanos e significava a propriedade dos homens sobre coisas, como filhos, mulheres, escravos e propriedades. Para ela, apesar de ser uma demanda reprimida, falar em família nos dias atuais é pensar uma série de configurações que são bem diferentes de onde vem a origem do termo. “É um tema multifacetado, atravessado por valores e dinâmica própria, e de desenvolvimento individual e grupal dos seus membros, independente dos arranjos apresentados. Família é um espaço de socialização e busca coletiva de estratégias de sobrevivência, é também o local para o exercício da cidadania”, analisou ela.
A assistente social esclareceu que, o conceito de família se modifica conforme o tipo de sociedade, o tempo e a sua estrutura social, na medida em que sofre as influências dos acontecimentos sociais. “Conhecimento é responsabilidade e trazer para pauta a discussão sobre família é trazer na gente um compromisso de lidar com essas famílias de maneira diferente, do ponto de vista cultural do patriarcado, nessa dimensão da família enquanto propriedade do homem. A gente sabe que isso mudou muito, mas ainda permanece muito forte nas relações sociais que são reproduzidas”, refletiu ela.
Mariana avaliou que, em geral, quando se pensa em família, naturalmente as pessoas buscam a imagem da família tradicional, heteronormativa, com pessoas brancas e felizes, e que trazer outros modelos de família é afirmar que, esses outros modelos também são possíveis e estão permeados pelas mesmas relações humanas. “Precisamos entender que, quando a gente pensa em família, a gente pensa em muitos arranjos. É um assunto muito diverso e complexo, mas é preciso compreender que, não ter uma família tradicional, não implica não ter uma família. Fora que é também uma opção política reafirmar que essas outras famílias, que não são as que originaram o termo, existem e precisam ser contempladas”, declarou ela.
Para a assistente social, família pode ser considerada como um grupo que apresenta organização estruturada, visto que, sem família o indivíduo tem dificuldade de conseguir se estabelecer na vida social, pois precisa de contorno. “Para a sociologia e psicologia, a família é uma proposta de ligação afetiva duradoura com alguma relação de hierarquia e cuidado entre seus membros. Falar de família é também falar sobre afetos e conflitos e como a gente vai se desenvolver enquanto indivíduo e ser social, a partir do suporte que essa família oferece”, constatou ela.
Durante sua apresentação, Mariana considerou, no século passado, o movimento feminista como um grande acontecimento que incidiu na maneira como as famílias são percebidas. Ela observou o ganho conquistado para o reconhecimento dos novos arranjos familiares, inclusive, para a legislação que veio mudando ao longo dos anos. Nesse contexto, expôs que, assim como a vida é movimento, o sistema familiar também foi se modificando com o tempo. “No Código Civil de 1916, a “família legítima” era definida apenas pelo casamento oficial; Em 1977, a Lei do Divórcio decidia que, a guarda dos filhos ficava com o cônjuge que não tivesse provocado à separação; Já em janeiro de 2003, o novo Código Civil já tratava temas como união estável, guarda compartilhada e igualdade de direitos e deveres dos cônjuges. O censo de 2010 foi a primeira vez que o Ibge aferiu a categoria “famílias reconstituídas”, que incluem casos de filhos adotivos ou concebidos fora do casamento e novos arranjos familiares”, pontuou ela.
Sobre o papel da mulher na sociedade moderna, a assistente social informou que, as formas diferentes de organizar a casa e a família também estão ligadas à maior participação da mulher no mercado de trabalho. Prova disso, é que o número de lares brasileiros chefiados por mulheres saltou de 23% para 40% entre 1995 e 2015, segundo informações da pesquisa Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgada em março de 2017.
Outro dado importante que Mariana trouxe para discussão foi que, o segundo e terceiro casamentos aumentaram na medida em que cresceram os divórcios e, igualmente, a expectativa de vida. De acordo com a pesquisa Estatísticas do Registro Civil 2014, divulgada em novembro de 2015 pelo Ibge, em 10 anos, de 2004 a 2014, a taxa de divórcios cresceu mais de 160% no Brasil. “As pessoas vivem mais, conseguem fazer mais escolhas e as alterações na legislação, como divórcio simplificado e regulamentação da união estável, facilitaram as decisões e, assim, a reconfiguração das famílias”, avaliou ela.
Após falar a respeito das políticas sociais no Brasil, a assistente social finalizou a palestra dizendo que o foco do Instituto é na perspectiva da integralidade do cuidado. “Se a gente não cuida e não considera o cuidador, teremos um impacto, inclusive, nas crianças que vão voltar mais vezes para atendimentos, pois serão menos cuidadas”, concluiu ela.



