O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), celebrou na quarta-feira (29/8), o Dia do Psicólogo, comemorado em 27 de agosto. O encontro reuniu os profissionais da área com o objetivo de debater o tema “Doenças Crônicas e Raras na Infância e Adolescência: Impactos na Subjetividade”. Responsável por conduzir o evento, a psicóloga do IFF/Fiocruz Lalia Dayse Farias de Oliveira afirmou que, o assunto estava intimamente relacionado às práticas diárias dos psicólogos. “Testemunhamos a angústia vivida pelas mães e familiares que se deparam com a realidade do adoecimento dos seus filhos, até mesmo antes do nascimento. Nosso objetivo como psicólogos, é poder escutá-los de maneira singular, pois acreditamos que ao expressarem seus sofrimentos apropriam-se de suas experiências. Com isto, novos sentidos podem se desvelar e a criação de uma nova possibilidade de existência surgir”, avaliou ela.
Em seguida, a mesa de abertura foi formada, e o diretor do Centro de Estudos Olinto de Oliveira, Antônio Meirelles destacou o envolvimento dos cuidadores e dos profissionais com as crianças. “O sofrimento do cuidador é uma situação presente no nosso cotidiano e cada um tem uma história, abdicando da própria vida para estar com essas crianças com condições crônicas complexas, praticamente morando dentro do hospital, com poucas idas para casa, abrindo mão de muita coisa para cuidar dos pacientes, que recebem todo o suporte da nossa equipe multiprofissional”, comentou ele.
Com a palavra, o diretor do IFF/Fiocruz, Fábio Russomano ressaltou o trabalho de enorme valor desempenhado pelos psicólogos, dizendo que transcende a questão técnica. “Aqui no Instituto, as crianças com condições crônicas complexas são muito bem acolhidas: contribuímos para o seu crescimento e desenvolvimento, o que lhes permite estudar e interagir com a sociedade e, assim, se tornarem cidadãos plenos. Da mesma forma, vemos que vale a pena todo o nosso esforço para apoiar as famílias a superarem o impacto trazido pela necessidade de cuidar dessas crianças”, analisou ele.
Convidada a saudar os participantes, a assistente social e membro da Coordenação de Atenção à Saúde do IFF/Fiocruz Dolores Vidal, agradeceu a parceria e a importância dos psicólogos serem propositivos. “São profissionais que possuem capacidades técnicas e teóricas fundamentais, extremamente capacitados e contribuem para que o Instituto fique cada vez melhor para o público”, elogiou ela.
Iniciando a primeira mesa de debate, a psicóloga e membro da Coordenação de Ensino do IFF/Fiocruz Martha Nunes Moreira abordou o tema “Doenças Crônicas Complexas”, enfatizando que, é preciso estar o tempo todo atento ao que as práticas da psicologia podem provocar na vida das pessoas. “Precisamos entender como a deficiência é encarada socialmente e como ela é normatizada e normalizada. Os psicólogos gostam de narrativas, o nosso material de trabalho é o relato das pessoas”, observou ela.
Martha contou que, a discussão sobre a condição crônica de saúde foi ampliada no início dos anos 2000. Antes, era atrelada, em sua grande maioria, ao adulto, pois só eram citados casos de crianças, quando eram mais prevalentes, como asma e obesidade. A psicóloga afirmou que, a frase “ele(a) não tem uma doença, mas uma condição”, é reflexo de que os pacientes, e seus respectivos cuidadores, não são mais passivos e totalmente submetidos aos conhecimentos dos profissionais, eles estão tentando transformar problemas em questão para produzir conhecimento. “A compreensão e o acesso ao diagnóstico significam também adquirir um nome para aquilo que os filhos têm e conseguir o direito de ser sujeito visível e reconhecido perante à sociedade”, alegou ela.
Martha frisou que, a carga moral, econômica e emocional relacionada ao cuidado do paciente recai principalmente sobre as mulheres, que são mães, esposas, irmãs ou filhas, e que não há como não falar a respeito dessa posição de desigualdade. Outro ponto realçado, foi em relação a existência das muitas dimensões de violência, como não cuidar de si e de outros membros da família, exemplos simbólicos e importantes. Nesse contexto, a psicóloga alertou que, não devemos naturalizar os irmãos, menores de idade, que exercem a função de cuidador, pois acabam sendo forçados a se tornarem adultos, e absorvem por tabela o fato de terem a vida mediada por uma cronicidade. “Precisamos voltar a conversar sobre deficiência, mas como modelo social de deficiência, com cuidado, deficiência e feminismo”, finalizou ela.
Na sequência, a médica de saúde mental do IFF/Fiocruz, Selene Beviláqua Chaves Afonso pontuou que, quando um paciente e seu cuidador recebem uma notícia de doença crônica complexa, ocorrem automaticamente alterações de aspectos do senso comum do mundo da vida diária. “A pessoa muda a sua visão do mundo, porque perde o controle dos acontecimentos, a vida fica diferente e a importância do tempo é alterada. O foco da atenção muda e a saúde se torna central, pois é perdida a confiança no próprio corpo”, esclareceu ela.
Selene apresentou “os cinco estágios”, estudo da psiquiatra suíça Elisabeth Kübler-Ross, que são negação e isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação, e explicou que, muitas vezes, a aceitação não ocorre, e que esses estágios, são algumas situações que os profissionais de saúde mental precisam lidar. “É preciso prestar atenção no ambiente que você vai tratar o assunto, para que tenha privacidade, conforto físico, tem que planejar o que será dito, assegurando possuir todas as informações necessárias sobre o caso, para não deixar as pessoas inseguras”, avaliou ela.
A médica realçou que, como os psicólogos têm o papel de intermediar, de quebrar barreiras entre as pessoas, devem se atentar a várias questões para saber lidar e contornar situações que ocorrem entre profissionais, pacientes e familiares, como se certificar do interesse de que alguém de confiança do paciente ou do familiar esteja presente, porque uma informação delicada não é simples de uma pessoa digerir e, em muitos casos, essas pessoas precisarão ser amparadas fisicamente. Diante desse cenário, as pessoas se desligam e, posteriormente, surgirão várias dúvidas, por isso, é preciso se colocar à disposição sempre que solicitado. “As pessoas chegam buscando compreensão sobre a doença, não só informações técnicas, isso vai favorecer ou atrapalhar a adesão ao tratamento. Então, os psicólogos devem ter tempo suficiente para se dedicar àquele atendimento, sinalizar que é algo desfavorável, evitar termos técnicos, falar pausadamente, levando em conta o impacto emocional”, analisou ela.
Alguns dos desafios dos psicólogos enumerados por Selene durante a apresentação são tensão constante, incerteza da resposta individual ao tratamento, postura destemida, persistência, manter a esperança e o bom humor. Sob a ótica da família, é esperado que o profissional seja tecnicamente competente e, do ponto de vista relacional, que ele seja um ser humano, que esteja ao lado das famílias, mantendo essa clareza. A médica garantiu que, o tom, a forma, o momento, o lugar e o tipo de envolvimento que o profissional tem com as famílias fazem toda a diferença, pois profissionais e pacientes, falam, escutam e transformam uns aos outros.
Selene recomendou levar em conta o fortalecimento da cidadania, visto que, a troca de informações com outras famílias e com os grupos de apoio traz um alívio. “Escolhe essa atividade quem consegue, é preciso ter muita afinidade com os assuntos. O lado bom, e que precisamos cultivar, é olhar para o lado positivo das situações e para a capacidade e criatividade das pessoas. Aqui no Instituto eu aprendo diariamente com mães e crianças, pois debaixo de um imenso sofrimento, a gente vê as pessoas encontrando um rumo, soluções, conseguindo se adequar. É uma aula de vida”, concluiu ela.



