Outubro Rosa: especialistas do IFF/Fiocruz esclarecem dúvidas sobre o câncer de mama

 

O câncer de mama é uma doença caracterizada pelo crescimento descontrolado de células anormais na mama, que podem formar tumores. Quando não diagnosticado e tratado precocemente, o câncer pode se espalhar para outras partes do corpo e comprometer a saúde da paciente. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2024, cerca de 2,4 milhões de mulheres foram diagnosticadas com a doença em todo o mundo, e aproximadamente 694 mil morreram em decorrência dela. O sexo feminino é o principal fator de risco para o câncer de mama: cerca de 99% dos casos ocorrem em mulheres, enquanto entre 0,5% e 1% são registrados em homens.

No contexto do Outubro Rosa, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama e à importância da prevenção e do diagnóstico precoce, e do Dia Mundial de Combate ao Câncer de Mama (19 de outubro), o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) convida a responsável pelo Serviço de Mastologia, Viviane Esteves, e o mastologista e mestrando Davi Motta para falar sobre o tema, esclarecer dúvidas frequentes e orientar a população sobre fatores de risco, sinais de alerta, exames preventivos e acesso ao diagnóstico.

Paciente durante exame de mamografia no Serviço de Radiologia do IFF/Fiocruz (Foto: Bruno Guimarães)

Entrevista

  1. Quais são os principais sinais e sintomas do câncer de mama? Todo nódulo na mama pode ser câncer?

Viviane: Um nódulo fixo e geralmente indolor é a principal manifestação da doença, estando presente em cerca de 90% dos casos em que o câncer é percebido pela própria mulher. Além dos nódulos, alterações como pele da mama avermelhada, retraída ou com aspecto de casca de laranja, inversão do mamilo, pequenos nódulos nas axilas ou no pescoço e saída espontânea de secreção anormal pelo mamilo também devem ser investigadas. Nem todo nódulo é câncer. A maioria é benigno, mas um nódulo novo precisa ser avaliado.

  1. É possível prevenir o câncer de mama? Quando a pessoa deve procurar avaliação médica?

Viviane: Hábitos saudáveis podem reduzir em até 30% o risco de desenvolver câncer de mama. A pessoa deve procurar avaliação ao perceber qualquer alteração nova na mama ou na axila, sem esperar pela próxima mamografia. Também é importante conversar com um profissional de saúde para definir quando iniciar os exames de rotina, sobretudo se houver histórico familiar relevante.

  1. Quais hábitos de vida podem ajudar a reduzir o risco? O histórico familiar aumenta as chances de desenvolver a doença?

Viviane: Praticar atividade física, manter um peso adequado, ter uma alimentação saudável e evitar ou reduzir o consumo de bebidas alcoólicas ajudam a diminuir o risco. A amamentação também tem efeito protetor.

O histórico familiar pode aumentar o risco, principalmente quando há casos de câncer de mama antes dos 40 anos, múltiplos casos de câncer de mama ou de ovário, câncer de mama em homem, tumor nas duas mamas, câncer de mama e de ovário na mesma pessoa ou câncer de mama triplo-negativo antes dos 60 anos. Ainda assim, muitas pessoas que desenvolvem a doença não têm histórico familiar.

  1. Homens podem desenvolver câncer de mama, como identificar os sinais?

Viviane: Homens também podem ter câncer de mama, embora isso seja raro: eles representam cerca de 1% dos casos. Por isso, um caroço ou outra alteração na região da mama masculina também precisa ser avaliada.

Como a doença é pouco conhecida entre os homens, é comum que essas alterações sejam ignoradas ou atribuídas a outras causas. Não existe recomendação de mamografia de rotina para homens de risco habitual, mas qualquer alteração nova na mama deve ser avaliada por um profissional de saúde.

  1. Qual a diferença entre mamografia, ultrassonografia e ressonância magnética das mamas?

Viviane: São exames com funções diferentes. A mamografia utiliza raios X e é o principal exame de rastreamento do câncer de mama, porque consegue identificar alterações muito pequenas, inclusive algumas que ainda não podem ser percebidas pelo toque.

A ultrassonografia utiliza ondas sonoras e é muito útil para avaliar um nódulo ou uma alteração encontrada na mamografia ou no exame físico. Ela também ajuda a diferenciar, por exemplo, uma lesão com líquido de uma lesão sólida. Por isso, em geral, não substitui a mamografia no rastreamento de mulheres de risco habitual.

Já a ressonância magnética produz imagens mais detalhadas e é utilizada em situações específicas, como no acompanhamento de pessoas com risco elevado de câncer de mama ou para esclarecer determinadas alterações encontradas em outros exames. Ela não é indicada como exame de rotina para todas as mulheres.

  1. Mulheres sem sintomas devem realizar exames preventivos? A partir de que idade a mamografia é recomendada e com que frequência?

Davi: Sim, é justamente esse o objetivo do rastreamento: encontrar uma alteração antes que ela provoque sintomas. A mamografia é o principal exame para a detecção precoce do câncer de mama. Quando a doença é diagnosticada em fase inicial, as chances de cura podem ser muito altas. Por isso, as mulheres na faixa etária indicada para rastreamento devem realizar o exame conforme a recomendação adequada ao seu caso.

Em setembro de 2025, foram divulgadas novas orientações para a realização da mamografia no SUS. Entre as mudanças, está a possibilidade de acesso ao exame, por demanda, para mulheres de 40 a 49 anos sem sintomas, após orientação sobre seus benefícios e possíveis riscos. O rastreamento de rotina no SUS, realizado a cada dois anos, passou a contemplar mulheres dos 50 aos 74 anos; anteriormente, o limite superior era de 69 anos.

Essa atualização amplia o acesso ao exame e reconhece que a decisão sobre o rastreamento também deve considerar as características e as preferências de cada pessoa.

  1. O autoexame das mamas ainda é recomendado?

Davi: Conhecer as próprias mamas e perceber mudanças continua sendo importante. O que deixou de ser recomendado como método de rastreamento é o autoexame mensal feito com uma técnica rígida, pois ele não demonstrou reduzir a mortalidade. Ele também não substitui a mamografia quando ela é indicada.

É importante saber o que é habitual para o próprio corpo e prestar atenção a mudanças. Ao perceber algo diferente, deve-se procurar avaliação médica.

  1. Quais são os avanços mais recentes no tratamento do câncer de mama?

Davi: Um dos principais avanços é a individualização do tratamento. Hoje conseguimos conhecer melhor as características de cada tumor e escolher as opções mais adequadas para cada situação. Além dos avanços nas cirurgias e na radioterapia, houve progressos importantes na hormonioterapia, nas terapias direcionadas e na imunoterapia.

  1. Por que o diagnóstico precoce é tão importante e quais são as chances de cura quando a doença é descoberta na fase inicial?

Davi: O diagnóstico precoce aumenta a possibilidade de encontrar o câncer antes que ele se espalhe para outros órgãos. Isso pode permitir tratamentos mais eficazes, cirurgias menores em alguns casos e uma maior possibilidade de cura.

Não existe uma única porcentagem de cura que se aplique a todas as pessoas com câncer de mama. O prognóstico depende do estágio da doença, do tipo de tumor, dos marcadores biológicos e da resposta ao tratamento. De maneira geral, quanto mais localizada estiver a doença no momento do diagnóstico, maiores serão as chances de controle e cura.

Por isso, não basta pensar apenas em “fazer o exame”. É preciso haver uma linha de cuidado que permita identificar uma alteração, confirmar rapidamente o diagnóstico e iniciar o tratamento adequado.

  1. Qual a importância da campanha Outubro Rosa para a conscientização da população?

Davi: O Outubro Rosa é uma oportunidade para ampliar o conhecimento sobre o câncer de mama, estimular a atenção aos sinais e sintomas e reforçar a importância do diagnóstico precoce. Também pode ser um momento para ampliar o olhar sobre quem pode desenvolver a doença.

O câncer de mama não é uma doença exclusiva de mulheres cisgênero. Mulheres trans, travestis e homens trans também podem desenvolvê-lo. Os cuidados precisam considerar as características individuais de cada pessoa, incluindo o uso de hormônios, a presença de tecido mamário, cirurgias anteriores e outros fatores de risco.

Por isso, é importante construir um Outubro Rosa cada vez mais inclusivo, que reconheça diferentes corpos e diferentes experiências com as mamas. A mensagem principal continua sendo conhecer o próprio corpo, perceber alterações e procurar avaliação quando necessário. Falar sobre câncer de mama também é lembrar que informação e cuidado devem chegar a todas as pessoas que podem desenvolver a doença.

Um dos diferenciais do IFF/Fiocruz é a análise integrada dos casos pelas equipes de Mastologia e Radiologia, favorecendo uma avaliação multidisciplinar (Foto: Bruno Guimarães)