IFF/Fiocruz recebe abertura do seminário que celebrou os 100 anos de Michel Foucault

 

O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) recebeu, em 19 de outubro, a abertura do seminário 100 Foucault, iniciativa promovida em parceria pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz), pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher do IFF/Fiocruz e pelo Instituto de Medicina Social (IMS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O evento celebrou o centenário de nascimento do filósofo francês Michel Foucault e reuniu pesquisadores para discutir a atualidade de sua obra e suas contribuições para a saúde, as ciências sociais e outros campos do conhecimento.

Da esquerda para direita, Elyne Engstrom, Mario Roberto Dal Poz e Kátia Moss (Foto: Bruno Guimarães)

A mesa de abertura contou com a participação da assistente social e chefe de gabinete do IFF/Fiocruz, Kátia Moss, do pediatra, professor titular e diretor do Instituto de Medicina Social da UERJ, Mario Roberto Dal Poz, e da pediatra, pesquisadora e chefe do Departamento de Ciências Sociais da ENSP/Fiocruz, Elyne Engstrom. Em suas intervenções, os integrantes destacaram a relevância do pensamento foucaultiano para a compreensão crítica das instituições, das práticas de cuidado e das relações entre saber, poder e sociedade.

O Dr. Mario Dal Poz destacou, remetendo ao convite do evento, a importância de construir um espaço-tempo que aposta em reescrever memórias e refletir sobre os desafios atuais, especialmente, em nosso território brasileiro e latino-americano, ratificando o papel da Saúde Coletiva quanto ao seu compromisso ético-político. Nesse sentido, trouxe à cena que é impossível pensar na matriz da Saúde Coletiva brasileira e da própria constituição do Instituto de Medicina Social Hésio Cordeiro sem remeter à presença de Foucault na UERJ em 1974.

Representando o IFF/Fiocruz, Kátia Moss ressaltou que a obra de Michel Foucault exerceu influência significativa na constituição da Saúde Coletiva brasileira, na reforma psiquiátrica e nos debates que acompanharam a reforma sanitária. Segundo ela, o legado do filósofo continua atual ao incentivar questionamentos sobre os sujeitos produzidos pelas instituições, as vozes que ganham reconhecimento e aquelas que permanecem invisibilizadas. “Esse legado permanece muito atual. Ele nos convida a perguntar que sujeitos nossas instituições produzem, quais vozes são reconhecidas, quais experiências permanecem invisíveis e como podemos construir práticas mais democráticas, acolhedoras e comprometidas com os direitos humanos”, afirmou Kátia.

Histeria, poder psiquiátrico e gênero

Na sequência, a professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sandra Caponi, ministrou a conferência de abertura Scientia Sexualis e a histerização do corpo das mulheres. Partindo da obra de Michel Foucault e de estudos do historiador da arte francês Georges Didi-Huberman, a pesquisadora analisou a forma como a psiquiatria do século XIX construiu saberes sobre o corpo feminino e transformou mulheres diagnosticadas como histéricas em objetos de observação, classificação e controle.

A pesquisadora Sandra Caponi analisou a forma como a psiquiatria do século XIX construiu saberes sobre o corpo feminino (Foto: Bruno Guimarães)

Ao discutir a constituição histórica da histeria, Caponi destacou que esse processo ultrapassou os limites de uma categoria médica e passou a integrar um conjunto de estratégias de produção de saberes sobre a sexualidade feminina. “A histeria não foi simplesmente uma doença feminina do século XIX. Foi uma das formas privilegiadas pelas quais a modernidade produziu um saber sobre o corpo das mulheres e, ao mesmo tempo, construiu dispositivos específicos de visibilidade, interpretação e controle”, frisou.

Durante a apresentação, a pesquisadora apontou o papel desempenhado pelo neurologista francês Jean-Martin Charcot no hospital Salpêtrière, em Paris, onde mulheres diagnosticadas como histéricas eram submetidas a demonstrações públicas, registros fotográficos e procedimentos experimentais. Segundo Caponi, os estudos de Foucault mostram que a modernidade não se caracterizou pelo silêncio em torno da sexualidade, mas pela proliferação de discursos voltados à interpretação, classificação e produção de verdades sobre os corpos.

Ao problematizar essa história a partir de uma perspectiva de gênero, Sandra Caponi argumentou que muitas das interpretações produzidas pela psiquiatria estavam atravessadas por preconceitos relacionados às mulheres e à sexualidade. Para a pesquisadora, embora a histeria tenha desaparecido dos manuais diagnósticos contemporâneos, os mecanismos de patologização do sofrimento feminino permanecem presentes e devem seguir sendo objeto de reflexão crítica.

Sandra Caponi com a equipe organizadora do seminário (Foto: Rafael Paiva)

 Debates sobre instituições e governamentalidade

As atividades do seminário continuaram durante a tarde com a mesa-redonda “Foucault, Canguilhem e Bentham: fundamentos e instituições”, coordenada por Jane Russo (IMS/UERJ). O debate reuniu os pesquisadores Murilo Galvão Amancio Cruz (UFRJ), que abordou as articulações entre Canguilhem e Foucault na circulação da epistemologia histórica no Brasil, e Ricardo Urquizas Campello (IMS/UERJ), que apresentou reflexões sobre novos diagramas de controle carcerário a partir da noção do panóptico.

A programação foi retomada em 20 de outubro, no Instituto de Medicina Social da UERJ, com a mesa-redonda “Desdobramentos e subjetivações em XXI: governamentalidade, decolonialidade e digitalização”, coordenada por Leonardo Castro (ENSP/Fiocruz). Participaram do debate Arthur Leal (UFRJ), com a apresentação “Governando formas de liberdade e gêneros: a reforma psiquiátrica na perspectiva do cotidiano dos CAPS”, e Jimena de Garay (UERJ), que discutiu “Corpos em disputa: governamentalidade, discursos de ódio e resistências feministas no Sul Global”.

Professor Benilton Bezerra, conferência de encerramento, IMS/UERJ (Foto: Martinho Braga)

O seminário foi encerrado pela conferência “Foucault diante do presente: saúde, liberdade e formas contemporâneas de governar a vida”, ministrada por Benilton Bezerra Jr. (IMS/UERJ). A palestra retomou conceitos centrais do filósofo francês para refletir sobre desafios contemporâneos relacionados à saúde, à produção de subjetividades e às formas de exercício do poder. Dr. Benilton articulou três cenas cotidianas da sociedade brasileira para colocar em análise os diagramas de poder e seus modus operandi num mundo inimaginado para Foucault, falecido em 1984, com as redes sociais, plataformas digitais e inteligência artificial.

Ao longo dos dois dias de programação, pesquisadores de diferentes instituições ressaltaram a permanência e a relevância da obra de Michel Foucault para a análise crítica das instituições contemporâneas, reafirmando sua influência nas discussões sobre saúde coletiva, direitos humanos, democracia e produção do conhecimento.

Veja o evento na íntegra:

Dia 1 - https://www.youtube.com/live/CwtJAfMYoAM

Dia 2 - https://www.youtube.com/watch?v=1mLw4pE0eFc&t=20s