A evolução da nutrição hospitalar faz parte da história do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). No ano de seu centenário, o Instituto promoveu, no dia 4 de outubro, o XXVIII Encontro de Nutrição. O tradicional evento completou 30 anos de existência e reuniu nutricionistas, estudantes e residentes com a missão de abordar, entre outros assuntos, a atenção nutricional domiciliar em pediatria, a nutrição de precisão na saúde da mulher e a avaliação nutricional inclusiva de crianças com deficiência.
Durante a mesa de abertura, o diretor do IFF/Fiocruz, Antônio Flávio Meirelles, destacou seu contentamento com o trabalho realizado pela equipe de Nutrição do Instituto e citou os muitos desafios enfrentados quanto à complexidade no atendimento multiprofissional.
“Como diretor de uma instituição centenária, eu digo que nada que dura 30 anos é trivial. Nosso país tem uma cultura hoje em dia do rápido, do breve e do que a gente faz em poucos segundos. Qualquer coisa que dura mais de um minuto parece muito longo”, ponderou Antônio Flávio Meirelles, acrescentando: “Eu tenho o orgulho enorme de ter essa equipe de Nutrição que faz um trabalho brilhante para pacientes complexos, como as crianças com fibrose cística, as gestantes com suas complexidades, as crianças com intestino curto, as que precisam desospitalizar, entre outros. É uma tarefa multiprofissional que exige um Plano Terapêutico Singular bem elaborado com muitos profissionais”.
Responsável pela organização do evento, a responsável técnica de Nutrição do IFF/Fiocruz, Fernanda Simões, compartilhou as evoluções da profissão, dentro e fora do Instituto, além de frisar que a Nutrição vive um momento de valorização e de ampliação das funções em todas as áreas.
“Há 30 anos, aconteceu o primeiro encontro, então, trago para vocês um apanhado sobre a história da Nutrição e a história vinculada ao nosso Instituto. A origem do sistema hospitalar se deu por instituições de caridade, religiosas. Assim, a alimentação era uma imitação da alimentação familiar: feita pelas cozinheiras, fazia parte da hotelaria hospitalar. Havia a alimentação para pacientes internados, mas não com a visão da Nutrição participando do tratamento, sendo bem especializada, individualizada e humanizada. Hoje, a Nutrição atua em todas as áreas do hospital”, afirmou Fernanda.
Fernanda Simões e Antônio Flávio Meirelles abriram o evento (Foto: Rayssa Quites)
Nutricionista, coordenadora do Observatório Brasileiro de Conflitos de Interesse em Alimentação e Nutrição (ObservaCoi), Camila Maranha ministrou o tema “Conflitos de Interesse em Nutrição Materno-Infantil”. Em sua fala, ela exemplificou os embates existentes nas diversas esferas sociais, especialmente expondo a questão da proximidade entre a pediatria, a nutrição e a empresas de alimentação infantil, uma vez que existe um assédio da indústria a profissionais de saúde.
“Há muito tempo existe uma relação próxima. Muito antes do termo influenciadores nas redes sociais, nós, enquanto profissionais de saúde, somos influenciadores natos. A gente influencia consumo, padrões, mas também somos alvos de várias ações”, afirmou Camila.
Em um momento posterior, as nutricionistas do IFF/Fiocruz Fernanda Simões e Paulla Mota falaram sobre a “Atenção nutricional domiciliar em pediatria”. Fernanda citou o marco legal que respalda a atuação do nutricionista e explicou que é crescente o número de crianças que recebem tratamento domiciliar.
“Não temos muitos estudos que falam sobre esse cuidado da criança em casa, mas a gente percebe que está em torno de 5% a 15% dessa população que está no domicílio, com grande maioria ainda de adultos e idosos. Só que essa população pediátrica está cada vez maior. E onde o nutricionista entra no cuidado desse público? A Resolução 600/2018 do Conselho Federal de Nutrição (CFN) já regulamenta as atribuições do nutricionista na atenção domiciliar”, frisou Fernanda, ressaltando como deve ser a atuação do profissional.
“O nutricionista na atenção domiciliar precisa definir protocolos de procedimentos relativos à dietoterapia, elaborar diagnóstico de nutrição, prescrição dietética, enfim, o universo que a gente vive no hospital pode ser feito no domicílio com algumas adaptações. Lógico, com a necessidade de orientar a manipulação e administração da dieta em casa, com auxílio da enfermagem”.
Nesse sentido, Paulla Mota abordou a construção e validação de protocolo técnico-científico para assistência nutricional domiciliar em pediatria, tema da sua dissertação de mestrado na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), no Programa de Pós-graduação em Segurança Alimentar.
“O que motivou a realização desse protocolo voltado à pediatria foi a publicação de um edital, em 2021, da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) junto com o Conselho Regional de Nutricionistas (CRN4), visando fortalecer os programas de pós-graduação com demanda para produção de material técnico-científico para nutrição clínica”, declarou Paulla Mota.
Paulla Mota falou da atenção nutricional domiciliar em pediatria (Foto: Rayssa Quites)
A saúde da mulher também foi tema de destaque no Encontro, mas associado à nutrição de precisão. Professora do Departamento de Nutrição e Saúde Pública da UNIRIO e líder do Grupo de Estudos de Nutrição de Precisão e Tecnologia, Karina dos Santos trouxe seu conhecimento acerca do tema e explicou que determinados grupos possuem características próprias, diferenciadas e que precisam receber recomendações nutricionais personalizadas.
“Compartilho com vocês o tema de uma forma geral, que é um assunto novo, mas trago também o que a gente tem aplicado na área da saúde da mulher, na área materno-infantil. Quanto mais características eu conheço de um indivíduo, mais eu vou ter capacidade preditora de esperar resultados específicos. No caso da obesidade, por exemplo, onde a nutrição de precisão tem mais se desenvolvido, eu tenho a potencialidade de identificar características que vão fazer com que indivíduos respondam melhor ou pior a uma intervenção dietética para perda de peso. Com isso, vou escolher a melhor estratégia para esse fim”, salientou Karina.
Sendo assim, é preciso analisar fatores como genética, epigenética, microbioma, metaboloma, exposição ambiental, fatores psicossociais e atividade física para melhor compreender as necessidades de cada pessoa, conforme aponta Karina dos Santos: “Ao fazer uma proposta de plano alimentar para um grupo de mulheres, diferentes entre si por vários motivos, vou ter respostas diferentes. Se for um plano para perda de peso, algumas vão ter sucesso com perda rápida, enquanto outras vão ter perda menor e algumas não vão ter os resultados que a gente espera. Por esses motivos, temos que evoluir e avançar no conhecimento dessas ciências ômicas para que possamos identificar o que acontece com cada uma delas e, assim, tornar nosso plano alimentar personalizado”.
O evento ainda contou com as seguintes palestras: “Como algoritmos de inteligência artificial interferem em nossas escolhas alimentares: o caso do aleitamento materno”, ministrada pelo nutricionista, pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) e coordenador do Observa Infância Fiocruz, Cristiano Boccolini; “Efeito dos padrões alimentares na gestação de mulheres com diabetes gestacional”, com a professora da UNIRIO, Gabriella Belfort; e “Avaliação nutricional inclusiva de crianças com deficiência: desafios e perspectivas”, com a professora da Universidade Federal Fluminense (UFF), Úrsula Viana Bagni.
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