O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) promoveu, nos dias 13 e 14 de novembro, a IX Jornada de Estomaterapia Neonatal e Pediátrica, no Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO). O evento contou com ensinamentos da equipe multidisciplinar do Instituto e recebeu os profissionais de saúde ligados às diversas esferas do cuidado às crianças com estomias.
A mesa de abertura contou com o diretor do IFF/Fiocruz, Antônio Flávio Meirelles, a enfermeira estomaterapeuta Andréa Rodrigues, a gestora da Área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente, Márcia Paiva, a enfermeira neonatologista Marcelle Campos, a gestora do Ambulatório da Área de Atenção Cirúrgica à Criança e Adolescente, Paloma Acioly, e o diretor do Centro de Estudos, José Augusto Alves de Britto.
Integrantes da mesa de abertura frisaram a importância da realização da Jornada (Foto: Everton Lima)
Antônio Flávio Meirelles recordou sobre sua vivência na rotina da enfermaria pediátrica do Instituto e destacou o trabalho de referência dos profissionais do IFF/Fiocruz para o Sistema Único de Saúde (SUS). “Ressalto a atuação multiprofissional de qualidade realizada para que esses pacientes estomizadas tenham os seus cuidados orientados e feitos da melhor maneira possível. Nós, trabalhadores do SUS, temos por dever defender os nossos usuários e suas famílias. Não podemos aceitar a discriminação e a IX Jornada pelos nossos pacientes estomizadas serve para fortalecer essas convicções”.
Equipe de Estomaterapia do IFF/Fiocruz comemorou o sucesso da IX Jornada (Foto: Everton Lima)
A título de conhecimento, a estomaterapia é uma especialidade da enfermagem voltada à assistência de pessoas com estomias, fístulas, tubos, cateteres, drenos, feridas agudas e crônicas. Profissionais atuam tanto na prevenção quanto no tratamento e na reabilitação, visando melhoria da qualidade de vida do paciente. Diante disso, a gestora da Área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente do IFF/Fiocruz, Márcia Paiva, enalteceu a manutenção e a continuidade do trabalho executado.
“Esse serviço existe no Instituto há mais de duas décadas e nasceu de uma demanda de crianças que necessitavam de cuidados específicos que a enfermeira Noélia Leite identificou e que a Andréa Rodrigues e equipe souberam conduzir com maestria. O papel da estomaterapia vai muito além da cicatrização das feridas, do manejo dos estomas, dos drenos e das fístulas e das incontinências. Ela é fundamental na qualidade de vida dessas crianças, que muitas vezes já tem dificuldade em relação à autoestima e de reinserção social. Sendo assim, o ambulatório de estomaterapia promove o cuidado integral, alcançando a orientação aos pais, na capacitação dos profissionais e na parceria que tem nos proporcionado”, declarou Márcia.
Na primeira palestra do evento, "Conhecendo a Estomaterapia”, a enfermeira Andréa Rodrigues, a cirurgiã pediátrica Maria Lúcia e a assistente social Aline Almeida deram um panorama geral dos principais temas que seriam elencados, cada uma com uma abordagem particular sobre sua área de atuação no Instituto. Além disso, apresentaram a estrutura e o fluxo de trabalho no IFF/Fiocruz e foram didáticas com o objetivo de apresentar o ambulatório de estomaterapia para profissionais de saúde que lotou o Centro de Estudos.
“A unidade ambulatorial se formou em 2005 e presta assistência à criança e ao adolescente com até 18 anos de idade. A assistência é prestada por profissionais com formação em estomaterapia, atualmente temos uma estomaterapeuta, uma enfermeira generalista e duas técnicas em enfermagem”, explicou Andréa, acrescentando: “O perfil dos pacientes que atendemos envolve doenças crônicas degenerativas, doenças infecciosas de duração prolongada e as mais variadas formas de deficiência. As crianças apresentam períodos de remissão e exacerbação dos sintomas, o que requer maior temporalidade e continuidade do cuidado”.
Em seguida, no campo da Estomia Respiratória, o endoscopista pediátrico Paulo Pires de Mello abordou o tema estoma respiratório, detalhando a técnica cirúrgica e suas principais complicações e a endoscopista pediátrica Mariana Pires de Mello aprofundou-se no fluxo de atendimento da criança traqueostomizada.
No bloco sobre Estomia Digestiva, a cirurgiã pediátrica Darli Fernandes discursou sobre gastrostomia por laporatomia, a técnica e complicações. Enfatizou que a gastrostomia é um procedimento simples e comum, mas tem riscos de complicações que não devem ser menosprezados. O cirurgião pediátrico Luciano Guimarães falou sobre gastrostomia videolaparascópica e destacou a importância da assistência prestada pela estomaterapia. Na sequência, a endoscopista Valéria Araújo trouxe ensinamentos sobre a gastrostomia endoscópica e o residente em cirurgia pediátrica Gabriel Lamy Basílio finalizou sobre o fluxo pré-operatório para gastrostomia.
Luciano Guimarães destacou a importância da assistência prestada pela estomaterapia (Foto: Rafael Paiva)
No início da tarde do primeiro dia, tivemos o privilégio de ouvir o emocionante depoimento de Tatiane, mãe de um paciente acompanhado no ambulatório de estomaterapia. Ela compartilhou a trajetória de seu filho, desde o período de internação hospitalar até o processo de desospitalização e os desafios dos cuidados diários em casa. Durante seu relato, destacou a importância crucial da integração entre a família e os profissionais de saúde, enfatizando como essa parceria é fundamental para a oferta de um cuidado integral e humanizado.
O evento ainda contou com estudo de caso, por André Wurzer Barreto, indicação de fundoplicatura, com Juliana Werneck, atresia de esôfago, por Rachel Fernandes, e ingestão de corpos estranhos e agentes corrosivos, com Paula Peruzzi.
Paula Peruzzi fala da prevenção da ingestão de corpos estranhos e agentes corrosivos
As médicas Rachel Fernandes e Paula Peruzzi apresentaram o Ambulatório de Patologias do Esôfago, que dispõe de uma equipe multiprofissional e é um exemplo significativo de cuidado integral e especializado para crianças que sofreram graves complicações devido à ingestão de agentes corrosivos. Essas crianças frequentemente enfrentam um longo e complexo caminho de reabilitação, que inclui múltiplas cirurgias, confecção de estomias e acompanhamento contínuo em várias especialidades.
Palestrantes do primeiro dia: Paulo Pires, Gabriel Lamy, Rachel Fernandes, Paula Peruzzi, Darli Fernandes, Maria Lúcia, Mariana Pires, Aline Rodrigues, Andréa Rodrigues, André Wurzer e Valéria Araújo
A estomaterapia nas unidades de saúde, a transição e o plano de cuidados
No primeiro bloco do segundo dia, as estomaterapeutas Débora Machado, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Patricia Alves, presidente da Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST) Seção RJ, palestraram sobre a importância da estomaterapia nos serviços de atendimento hospitalar e ambulatorial na atenção a pessoas com estomias. Destacaram o papel fundamental da estomaterapia dentro dos serviços de saúde, desenvolvendo além do papel assistencial, gestão, pesquisa e ensino.
Em segundo momento, a estomaterapeuta Andrea Rodrigues apresentou o plano de cuidados de traqueostomia de forma didática, enfatizando quais os cuidados em relação as complicações precoces, tardias, assim como a prevenção.
Debora Machado, Andréa Rodrigues e Patrícia Alves ressaltam as diversas ações desempenhadas pela estomaterpia
Na palestra sobre Transição de cuidados – da infância à vida adulta: desafios e possibilidades, a assistente social do IFF/Fiocruz Dolores Vidal enfatizou o diferente cuidado que cada faixa etária exige, bem como apontou que existe mudança até na utilização dos materiais e nos dispositivos adequados para cada tratamento. Destaca os inúmeros desafios enfrentados por esse grupo, principalmente pela incerteza em relação a continuidade do cuidado.
Dolores Vidal trouxe a atenção para a transição do cuidado nas diversas faixas etárias (Foto: Everton Lima)
Última palestra do evento, Andréa Rodrigues aprofundou o plano de cuidados para gastrostomia, utilizando exemplos práticos e didáticos. Por diversas vezes, ela se valeu de objetos técnicos e de uso diário que pudesse passar aos presentes detalhes de procedimentos ligados ao cuidado da estomia digestiva, como a realização da assepsia do óstio da gastrostomia, a importância das fixações de segurança para evitar saída precoce, administração da dieta e medicações, bem como todo o processo de abordagem educativa com as famílias.
Andréa utilizou um boneco para explicar procedimentos ligados ao cuidado da estomia digestiva (Foto: Rafael Paiva)
Convidada a acompanhar a Jornada, Fernanda Cruz, da Gerência da Área Técnica da Saúde da Criança e do Adolescente, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, atestou os muitos ensinamentos propostos.
“Achei o evento maravilhoso, de muito aprendizado para os nossos profissionais da atenção primária que estão no território, junto com essas crianças que têm condições crônicas complexas, que precisam usar essas estomias e a gente precisa aprender a manejar para apoiar essas famílias. Precisamos compartilhar esse cuidado, a atenção primária é a porta de entrada no SUS e é quem precisa compartilhar com os serviços especializados esse cuidado dessas crianças e suas famílias”, afirmou Fernanda.
Fernanda Cruz (direita) representou a Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (Foto: Rafael Paiva)



