IFF/Fiocruz realiza 2° Seminário de Combate à Sepse


O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, em 16/9, o 2° Seminário de Combate à Sepse, no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE-UFRJ). O evento visou conscientizar e orientar profissionais de saúde sobre os riscos da sepse, além de destacar sobre a importância da prevenção.

O Seminário teve início com a palestra de “Sepse Neonatal”, ministrada pela neonatologista do IFF/Fiocruz, Silvia Cwajg, a gestora da Área de Atenção Clínica ao Recém-Nascido do Instituto, Suyen Heizer Villela, e a neonatologista e infectologista da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) do IFF/Fiocruz, Natalie Del Vecchio.

Natalie explicou que o método tradicional de diagnóstico da sepse é a hemocultura, que deve ser coletada idealmente dentro da primeira hora. No entanto, a sensibilidade da hemocultura em recém-nascidos é de apenas 50% a 60%, o que significa que o bebê pode ter sepse, mas o resultado ser negativo. “A hemocultura auxilia no acompanhamento, mas é a avaliação clínica que deve orientar as decisões. Exames como a Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), um teste de biologia molecular, são considerados promissores, pois podem fornecer resultados em poucas horas, enquanto a hemocultura demora de 24 a 48 horas para apresentar conclusões. Apesar do potencial da PCR, esse exame ainda não está amplamente disponível em muitos hospitais”, comentou ela.

Sobre o uso racional de antibióticos, Natalie alertou que, ainda que os antibióticos salvem vidas, seu uso prolongado, sem necessidade, pode levar a complicações, como enterocolite necrosante e alterações no desenvolvimento neurológico. Por isso, informou que o protocolo correto é iniciar o antibiótico precocemente em casos de suspeita de sepse, mas suspender o tratamento assim que houver certeza de que não há infecção. “Se após 24 a 48 horas o bebê estiver clinicamente estável e os exames forem negativos, a suspensão do antibiótico pode ser feita com segurança”, afirmou ela.

Silvia esclareceu que o formulário de coleta de dados é estruturado em quatro partes: identificação, história gestacional e do parto, reanimação neonatal e uma seção dedicada aos sistemas orgânicos. “Em relação aos problemas de proteção contra infecções, é registrado se o recém-nascido utilizou ventilação mecânica e por quantos dias. A comparação entre recém-nascidos submetidos à ventilação mecânica por diferentes períodos permite correlacionar o tempo de ventilação com o aumento de infecções. Todos os dados coletados são enviados para a nuvem da Rede de Cuidado de Alta Performance (CAP) e exportados semestralmente para a Rede Vermont, onde diversas linhas de pesquisa são desenvolvidas”, explicou ela.

Anualmente, a Rede Vermont disponibiliza relatórios com análises comparativas entre os dados do Brasil e de outros países. No Brasil, algumas unidades apresentam taxas de sepse confirmadas de até 20%, enquanto a média global da rede é inferior a 10%. “O país se posiciona entre os 25% com os piores resultados no combate à sepse tardia, indicando desafios a serem enfrentados. Em virtude disso, são realizadas reuniões mensais para discutir melhorias, como a redução da hipotermia na admissão e a diminuição dos casos de sepse tardia nas UTIs neonatais”, contou Silvia.

Suyen relatou que, em agosto, o IFF/Fiocruz promoveu um treinamento online para a equipe, seguido por um evento presencial, que incluiu a participação da equipe de enfermagem e do Centro de Controle de Infecções Associadas à Assistência à Saúde (CCIA). “A equipe está trabalhando na prevenção da insuficiência neonatal, promovendo alimentação precoce e um ambiente favorável ao desenvolvimento. Também estamos implementando um teste neurológico, que ajudará a identificar bebês que podem necessitar de suporte adicional”.

Para encerrar, Suyen destacou a importância da lavagem das mãos e da manutenção adequada dos catéteres, aspectos críticos para a prevenção de infecções. “A equipe tem promovido treinamentos regulares a fim de melhorar a qualidade dos materiais utilizados. A monitorização e a sistematização das práticas são fundamentais para garantir a segurança dos pacientes”.

Da esquerda para a direita: Silvia Cwajg, Suyen Heizer Villela e Natalie Del Vecchio (Foto: Rayssa Quites)

Na sequência, o pediatra do IFF/Fiocruz, Filipe Lima, e a gestora da Unidade de Pacientes Graves (UPG) do Instituto, Fernanda Neves, abordaram o tema “Sepse Pediátrica”. Filipe comentou que durante um período recente, 50 milhões de pessoas foram afetadas pela sepse, com metade desse número representando menores de 19 anos, especialmente crianças com menos de 5 anos. “A sepse impacta diretamente a saúde infantil, resultando em sequelas, para aquelas que sobrevivem, e podem levar até mesmo a morte. Além disso, essa condição afeta significativamente não apenas as crianças, mas também suas famílias e a sociedade como um todo”.

Um dos pontos ressaltados foi que o estudo sobre sepse em crianças é comparativamente menor. “Embora tenham ocorrido progressos ao longo do tempo, ainda existem lacunas importantes e muitas perguntas sem resposta que exigem dados baseados em evidências para desenvolver protocolos significativos. A sepse apresenta um impacto socioeconômico severo, refletindo desigualdades globais no acesso aos serviços de saúde, colocando as crianças em desvantagem devido à sua maior suscetibilidade a infecções graves”, analisou ele.

Segundo Filipe, a população infantil deve ser considerada um grupo vulnerável. “As medidas de prevenção incluem vacinação, educação médica e conscientização das famílias sobre os sinais de gravidade. Existem desafios significativos, como a limitação do acesso a serviços de saúde e a falta de leitos adequados para atendimento. É essencial considerar a influência de fatores ambientais e culturais, como condições climáticas extremas e segurança em situações de conflito, que podem impactar gravemente a saúde infantil”.

Em sua fala, Fernanda informou que o manejo da sepse pediátrica envolve a criação de um protocolo que possibilite intervenções precoces, visando a redução da mortalidade associada à condição. “É fundamental que todos os profissionais envolvidos na assistência a crianças estejam capacitados para reconhecer os sinais e sintomas de sepse, tendo como premissa central a indagação: “Pode ser sepse?”. Diante de qualquer suspeita, o protocolo deve ser imediatamente acionado, independentemente da confirmação da sepse. Quando há suspeita, o protocolo é ativado, permitindo a documentação da hora da suspeita e da administração do antibiótico, enfatizando a importância da terapia antibiótica na primeira hora após a identificação da sepse”, concluiu ela.

Da esquerda para a direita: Filipe Lima e Fernanda Neves (Foto: Rayssa Quites)

O evento também abordou o tema “Estratégias para o controle de microrganismos multirresistentes (MDR)”, ministrado pela infectologista do Hospital Pedro Ernesto e do Hospital Universitário Gaffrée e Guinle, e Presidente da Associação de Controle de Infecções do Estado do Rio de Janeiro (ACIHERJ), Débora Otero.