IFF/Fiocruz promove 30º Encontro de Nutrição

 

Na última sexta-feira (25), o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) promoveu a 30ª edição do Encontro de Nutrição, reunindo profissionais e especialistas para discutir temas contemporâneos e relevantes relacionados à nutrição pediátrica, materna e à saúde da mulher.

A mesa de abertura foi iniciada pela coordenadora de nutrição do IFF/Fiocruz, Mirian Gomes, que destacou a trajetória construída ao longo dos anos, especialmente durante a pandemia, período que trouxe desafios e exigiu adaptações para a continuidade das atividades, como a realização de reuniões on-line. Em sua fala, ressaltou a importância de celebrar três décadas de um evento científico voltado à atualização profissional e à troca de conhecimentos.

“Celebrar é reconhecer uma trajetória construída com dedicação, compromisso e entusiasmo por muitas equipes ao longo dos anos. Tivemos a capacidade de nos reinventar, adaptamos o evento para o formato on-line e, posteriormente, incorporamos o modelo híbrido, ampliando o acesso e possibilitando a participação de profissionais de diversas regiões do país”, disse Mirian.

Em seguida, o pediatra e diretor do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO) do IFF/Fiocruz, José Augusto Alves de Britto, resgatou sua proximidade com a Nutrição desde sua formação e, assim como Mirian, frisou a importância dos 30 anos do evento na instituição. O pediatra também ressaltou a contribuição dos profissionais que passaram pelo setor ao longo desse período e os desafios enfrentados durante a pandemia. “Estar presente durante 30 anos não é pouca coisa. Os tempos de pandemia, por exemplo, exigiram criatividade para superar as adversidades da época, o que mostra a força e o prestígio, principalmente pelas pessoas que passaram pelo setor”, afirmou.

O encerramento da mesa contou com a presença do diretor do IFF/Fiocruz, Antônio Flavio Meirelles, que enfatizou a importância dos estudos científicos desenvolvidos pelo Instituto para a sociedade brasileira, assim como destacou a contribuição dos responsáveis por manter esse legado durante três décadas e transmiti-lo de geração em geração. “É sempre um prazer estar presente e não tenho como deixar de enaltecer tantos anos do Encontro, que tem uma profundidade. Muitos profissionais construíram a tradição desse evento, principalmente com as dificuldades que tivemos na pandemia, com toda a precaução sanitária que a ciência nos recomendou”, pontuou.

Mirian Gomes discursa na mesa de abertura (Foto: Bruno Guimarâes)

Após a mesa de abertura, o evento prosseguiu com a participação da nutricionista Juliana Braga, mestranda do programa em pós-graduação do Instituto de Nutrição Josué de Castro/UFRJ, que apresentou a palestra “Associação entre estilos parentais, estado nutricional e controle glicêmico em crianças com Diabetes Mellitus Tipo 1 (DM1)”. Segundo Juliana, ainda é comum que a sociedade associe o diabetes mellitus principalmente à população adulta. No entanto, a doença também apresenta importante ocorrência durante a infância e a adolescência. “A DM1 é uma das doenças crônicas mais comuns da infância e adolescência, realmente é uma patologia que as crianças abrem quadro muito cedo, a partir dos 10 meses”, explicou.

Ainda de acordo com Juliana, esse cenário não é exclusivo do Brasil, mas representa uma realidade mundial, no qual o país ocupa a quarta posição entre aqueles com maior prevalência de DM1. “No momento, há cerca de 100 mil menores de 20 anos com DM1 no Brasil, enquanto no mundo temos quase 2 milhões de indivíduos na mesma faixa etária convivendo com a doença”, acrescentou.

Ao encerrar sua participação, Braga chamou a atenção para a importância do acompanhamento dos pais no tratamento de DM1, desde o diagnóstico e as fases iniciais da infância até o período de transição para a adolescência. “Quem rege todo esse pilar de tratamento são os pais, não apenas na fase inicial de vida, eles são os principais responsáveis por fazer a transição do cuidado. São esses responsáveis que vão ensinar para os filhos como, lá na frente, fazer a autogestão do diabetes, porque eles vão deixar de ser crianças, mas não vão deixar de ter diabetes”, finalizou.

Juliana explicou sobre os diferentes tipos de diabetes (Foto: Luiz Eduardo)

A palestra seguinte foi ministrada pela nutricionista e especialista em Saúde Materno-Infantil Thaísa Bissoli, doutoranda em Saúde Coletiva pelo Programa de Pós-graduação do Instituto Fernandes Figueira/Fiocruz, que abordou o tema “Ganho de peso gestacional em gestações gemelares no Brasil”. Em sua apresentação, a especialista ressaltou o crescimento da ocorrência de gestações gemelares nas últimas décadas, reforçando que, nos últimos 46 anos, houve um aumento de aproximadamente 30% no número de gestações gemelares no mundo.

Ao introduzir o tema, Thaísa frisou que esse fenômeno está relacionado principalmente a três fatores contemporâneos: a reprodução assistida, o adiamento da maternidade e a indução da ovulação. A partir dessa abordagem, a palestrante informou como cada um desses fatores pode contribuir para o aumento da ocorrência de gestações gemelares. “O aumento do FSH pode estimular o desenvolvimento de mais de um folículo, possibilitando a liberação de dois ou mais oócitos (gameta feminino em fase de desenvolvimento antes de estar apto para a fertilização) durante um mesmo ciclo. Dessa forma, aumenta-se a possibilidade de ocorrer uma gestação gemelar dizigótica (fraterna). Além disso, tratamentos de reprodução assistida e a indução da ovulação também podem favorecer gestações gemelares ao estimular a liberação ou a implantação de mais de um embrião. Atualmente, porém, a transferência de um único embrião é uma estratégia frequentemente utilizada para reduzir o risco de gestações múltiplas”, esclareceu.

Thaísa comentou os fatores relacionados a gestação gemelar (Foto: Luiz Eduardo)

No encerramento da primeira parte do evento, a nutricionista Julia Holandino, egressa do Programa de Residência Multiprofissional do IFF/Fiocruz e pós-graduanda em Nutrição Clínica Funcional/UFRJ apresentou a palestra “Dieta enteral artesanal em pediatria”, abordando a utilização de alimentos in natura na alimentação de crianças que necessitam de terapia nutricional enteral (alimentação por sonda).

Durante a apresentação, Julia contextualizou a evolução histórica da terapia nutricional enteral com o avanço da tecnologia, a modernização dos processos de produção de alimentos e a expansão da indústria alimentícia, especialmente a partir da segunda metade do século XX, onde houve um crescimento progressivo da produção e da utilização de fórmulas enterais industrializadas. “Essas fórmulas passaram a ser utilizadas como uma alternativa para a alimentação de indivíduos enfermos ou hospitalizados que necessitavam de terapia nutricional enteral, especialmente por apresentarem características como maior padronização nutricional, facilidade de preparo e maior controle das condições de produção, evidenciou.

A nutricionista também destacou os possíveis efeitos da alimentação artesanal sobre a microbiota (flora) intestinal. Segundo estudos apresentados, o uso exclusivo de fórmulas enterais industrializadas pode estar associado a uma menor diversidade bacteriana intestinal. “Em crianças com condições crônicas complexas, a utilização dessas fórmulas como única fonte de alimentação também pode estar relacionada ao aumento da disbiose intestinal (desequilíbrio na flora do intestino), caracterizada por alterações no equilíbrio da microbiota, salientou.

Por fim, Julia comentou que, ao comparar as fórmulas industrializadas com as dietas artesanais à base de alimentos, alguns estudos apresentados indicam que as crianças que recebem a dieta artesanal podem apresentar uma microbiota intestinal mais diversificada, o que pode representar um possível benefício para a saúde intestinal.

Julia abordou sobre a importância dos alimentos in natura (Foto: Luiz Eduardo)

No período da tarde, o evento contou com a participação de nutricionista e residente Programa de Residência Multiprofissional do IFF/Fiocruz Maísa Amorim, que abordou o tema “Atualizações nas recomendações de micronutrientes em pediatria”. Após, nutricionista Oncológica e doutoranda em Ciências Nutricionais/UFRJ, Aline Pereira apresentou a temática relacionada aos cuidados nutricionais em oncologia. Encerrando a programação, a nutricionista e coordenadora de Pós-graduação em Saúde da Mulher, Emagrecimento e Estética (Nutmed) Bianca Innocêncio abordou o tema “SOMP: o que muda no diagnóstico e na prática clínica nutricional”, trazendo atualizações relacionadas à atuação do nutricionista na prática clínica.

Ao completar sua 30ª edição, o Encontro de Nutrição do IFF/Fiocruz reafirmou seu papel como espaço de atualização científica, troca de experiências e fortalecimento das práticas assistenciais. Ao reunir especialistas e profissionais de diferentes áreas, a iniciativa contribuiu para a qualificação do cuidado e para a disseminação de conhecimentos que impactam diretamente a saúde e a qualidade de vida da população.