Apesar de ser um dos tipos de câncer mais preveníveis, o câncer do colo do útero ainda representa um importante desafio de saúde pública no Brasil. A combinação entre vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) e exames de rastreamento eficazes tem potencial para reduzir drasticamente a incidência da doença nas próximas décadas.
O ginecologista do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Fábio Russomano, destaca que o país já dispõe das ferramentas necessárias para mudar esse cenário, o desafio agora é ampliar o acesso e a informação. Em entrevista, o especialista explica como a prevenção pode salvar vidas e quais são os principais obstáculos a serem superados.
O câncer do colo do útero pode realmente ser eliminado? O que falta para o Brasil atingir essa meta?
F.R.: Sim, temos condições para eliminação do câncer do colo do útero no Brasil no futuro. Para isso, precisamos atingir três metas estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2020: vacinar 90% das meninas até os 15 anos, rastrear 70% das mulheres com testes de alta performance (como o teste de DNA-HPV oncogênico, incorporado ao SUS em 2025) e tratar 90% das mulheres identificadas com possíveis lesões. Temos todas essas ferramentas, o desafio é implementá-las de forma organizada.
Por que ainda morrem mulheres por uma doença que pode ser prevenida com vacina e exame simples? Onde estamos falhando?
F.R.: Porque a maioria das mulheres em risco não realiza o rastreamento adequado. O modelo atual é oportunístico: muitas fazem o exame sem necessidade, enquanto outras nunca são examinadas. O novo modelo, com teste de DNA-HPV oncogênico, prevê convocação organizada de mulheres entre 25 e 60 anos, com repetição a cada cinco anos quando o resultado é negativo. Isso permite identificar quem não fez o exame e buscar ativamente essas mulheres. Além disso, a possibilidade de autocoleta amplia o acesso, especialmente para mulheres em situação de vulnerabilidade. O desafio é implementar esse modelo e educar tanto a população quanto os profissionais de saúde.
A vacina contra o HPV é segura? Quem deve se vacinar e por que a meta de 90% de cobertura é tão importante?
F.R.: A vacina é extremamente segura. Entre 500 e 700 milhões de mulheres já foram vacinadas no mundo desde 2006, sem evidência de eventos adversos graves relacionados ao imunizante. Ela é altamente eficaz contra os tipos de HPV responsáveis por cerca de 70% dos cânceres. Quanto maior a cobertura, maior o efeito coletivo, reduzindo a circulação do vírus. No Brasil, é recomendada para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de grupos especiais, como pessoas imunossuprimidas, vítimas de violência sexual e usuários de Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP).
Muitas mulheres têm medo ou vergonha do Papanicolau. O que você diria para quem adia esse exame?
F.R.: É um exame simples, indolor e que salva vidas. Se preferirem, pode ser realizado por uma profissional mulher. Com resultado negativo, a repetição só é necessária após três anos (citologia) ou cinco anos (teste de DNA-HPV). Um resultado positivo não significa câncer, na maioria das vezes, trata-se de lesões iniciais que podem ser tratadas antes de evoluir.
O HPV é sempre sinônimo de câncer? Como funciona essa relação?
F.R.: Não, o HPV é extremamente comum e a maioria das infecções é eliminada pelo próprio organismo. Existem mais de 200 tipos do vírus, mas apenas cerca de 13 ou 14 estão associados ao câncer. Apenas uma pequena parcela das pessoas desenvolve infecção persistente, que pode levar a lesões precursoras. Por isso, a informação correta é essencial para evitar medo e estigmas.
Existe uma faixa etária de maior risco?
F.R.: Toda mulher deve realizar o rastreamento entre 25 e 60 ou 64 anos. A maior incidência ocorre entre 30 e 49 anos, mas as lesões podem surgir anos antes, o que justifica o início precoce da prevenção.
Quais são os principais mitos que ainda atrapalham a prevenção no Brasil?
F.R.: Um dos principais mitos é que a vacina estimularia a iniciação sexual, o que não é verdade. Outro é a ideia de que sem sintomas não há problema, quando, na verdade, as lesões iniciais são silenciosas. Também persiste o medo de que o exame seja doloroso, quando ele é rápido e bem tolerado.
Qual mensagem gostaria de deixar neste Março Lilás (campanha nacional de conscientização sobre a prevenção e o combate ao câncer de colo do útero)?
F.R.: Mulher, faça seu exame preventivo e leve suas filhas e filhos entre 9 e 14 anos para se vacinarem contra o HPV. O câncer do colo do útero é uma doença prevenível.
Previna-se!



