A 14ª Jornada de Enfermagem em Saúde da Mulher do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) foi encerrada no dia 4/9/24. O evento foi organizado pelos coordenadores da Pós-Graduação Lato sensu de Enfermagem na Atenção à Saúde da Mulher do Instituto, Paulo São Bento e Rozânia Xavier. Com o tema “Do singular ao plural: um convite para refletir sobre as diversidades no cuidado em saúde”, a Jornada reuniu enfermeiros, auxiliares e técnicos de enfermagem, estudantes, acadêmicos e profissionais da área da saúde, que lotaram o Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO).
Na mesa de abertura do segundo dia de evento, o gestor da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Gestante do IFF/Fiocruz, José Paulo Pereira Júnior, exaltou a qualidade do cuidado de enfermagem praticado no Instituto, afirmando que é um exemplo consolidado há muitos anos e motivo de grande orgulho. "É com muita satisfação que vemos, ano após ano, a importância desse encontro, e fazemos questão de participar dessa jornada, que muito nos honra".
A coordenadora de Atenção à Saúde do IFF/Fiocruz, Patrícia Marques, discursou sobre a importância de discutir os desafios na assistência obstétrica e a violência obstétrica. "Ainda temos um longo caminho a percorrer, essa é uma realidade enfrentada por muitas mulheres. Então, precisamos ter atenção para a necessidade de uma abordagem mais humana e cuidadosa na assistência à saúde”, disse. Ela celebrou o compromisso do Instituto com a excelência na temática e a formação profissional, ressaltando o seu papel enquanto referência em cuidados maternoinfantis, além do trabalho de capacitação profissional por meio do Portal de Boas Práticas.
O diretor do IFF/Fiocruz, Antônio Meirelles, não pôde participar presencialmente, mas enviou um vídeo de saudação. “O Instituto é uma casa de saber e de afetos. A gente sempre aprende com os convidados e entregamos muito para o Sistema Único de Saúde (SUS) e para a saúde pública brasileira. Vocês terão um excelente dia de troca e aprendizado”.
Da esquerda para a direita: Patrícia Marques, José Paulo Pereira Júnior e Antônio Meirelles no telão (Foto: Everton Lima)
Na sequência, o evento contou com especialistas convidados abordando assuntos relevantes acerca da temática, como "Aborto legal no Brasil e os cuidados à saúde da mulher"; "Limbo e riscos sobre a interrupção legal da gestação no Brasil"; "Políticas públicas na atenção ao abortamento legal no Brasil"; e "Questões jurídicas que atravessam o abortamento legal para mulheres em situação e violência".
À tarde, a enfermeira da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Danielle Menezes da Silva, foi convidada para moderar a mesa-redonda intitulada "Transdiversidades no Período Gravídico-Puerperal". Ao iniciar o debate, Danielle manifestou sua honra em conduzir a discussão, frisando a importância do tema: a gravidez de pessoas trans e o acolhimento inclusivo dessa população.
Ela explicou que, embora a transgeneridade não seja um tema novo, sua inclusão na agenda pública e acadêmica é recente e ainda insuficiente. "Estamos discutindo e pesquisando sobre esse assunto há muito menos tempo do que gostaríamos e deveríamos", afirmou. O objetivo principal, segundo Danielle, é garantir direitos e propor um cuidado em saúde verdadeiramente inclusivo para todas as pessoas, especialmente para as que pertencem à comunidade trans.
Danielle ressaltou a importância de dar voz a quem vivencia diretamente questões de preconceito, como transfobia, homofobia e racismo, elogiando a organização do evento pela inclusão de experiências reais e representativas.
Após, o educador perinatal, doula e coordenador da Roda de Famílias LGBTQIAPN+, Dhiego Monteiro, discutiu a importância de uma comunicação inclusiva no acolhimento de pessoas trans nos serviços de saúde. Ele destacou que, ao adotar uma linguagem inclusiva, os profissionais de saúde ajudam a criar um ambiente seguro e acolhedor, especialmente para a população LGBTQIAPN+, que muitas vezes enfrenta dificuldades de acesso a cuidados de saúde. Dhiego enfatizou que a boa experiência que teve enquanto usuário do IFF/Fiocruz não representa a realidade da maior parte da comunidade trans.
Dando continuidade à sua palestra, Dhiego compartilhou orientações sobre como profissionais de saúde podem acolher melhor pessoas trans. Ele frisou que o primeiro passo é evitar aplicar padrões heteronormativos ao atender famílias LGBTQIAPN+, reconhecendo a diversidade das formações familiares e não assumindo, por exemplo, que sempre haverá uma mãe e um pai, ou que apenas a mãe engravida e amamenta.
Dhiego também abordou questões relacionadas às desinformações que cercam os processos de afirmação de gênero, como o uso de hormônios e cirurgias. Ele alertou sobre a disseminação de fake news que não têm base científica e enfatizou a importância de os profissionais de saúde se informarem adequadamente para evitar julgamentos, como culpar ou desvalorizar a parentalidade de uma pessoa trans por ter realizado procedimentos de afirmação de gênero.
Outro ponto essencial, segundo Dhiego, é não fazer perguntas invasivas ou desnecessárias. Ele explicou que, embora algumas perguntas sejam inevitáveis para o atendimento médico, é fundamental evitar curiosidades que não contribuem para o cuidado. Além disso, o profissional deve tratar pessoas trans de forma natural, sem fazer diferenciações, pois isso reflete a falta de convívio e a marginalização dessa população. "Quanto mais você convive, mais você naturaliza. São pessoas como quaisquer outras", afirmou.
O doutorando em Saúde Coletiva do IFF/Fiocruz, Leonardo Peçanha, trouxe reflexões sobre as atualizações na portaria que irá nortear o Programa de Atenção Especializada à Saúde da População Trans e Travesti, destacando que esse novo documento abrange preocupações inéditas, como a gestação em pessoas transmasculinas, tema que antes não era devidamente abordado nas políticas de saúde pública.
Durante sua fala, ele mencionou os desafios enfrentados por homens trans ao lidar com a autonomia corporal e as modificações físicas, como o uso de hormônios e cirurgias de afirmação de gênero. Leonardo ressaltou que, historicamente, faltava diálogo entre profissionais de saúde e pacientes trans sobre as implicações dessas intervenções e que, hoje em dia, há uma gama muito mais diversa de corpos e identidades transmasculinas, com homens trans optando ou não por reposições hormonais e alguns querendo formar famílias biológicas.
Ao final, Leonardo destacou a importância de debates e capacitações contínuas para os profissionais de saúde, destacando a necessidade de consultar referências da própria comunidade transmasculina para uma abordagem mais humanizada.
O pesquisador do IFF/Fiocruz, Carlos Renato Alves da Silva, participou virtualmente do evento, onde abordou a falta de legislação e políticas públicas adequadas para a população LGBTQIAPN+. Em seu vídeo, Carlos Renato expressou sua frustração com o cenário atual, destacando a ausência de direitos legais para homens trans que gestam e a falta de suporte jurídico para casais lésbicos que recorrem a inseminação caseira.
Ele criticou a falta de políticas públicas que atendam às reais necessidades da população LGBTQIAPN+, que ainda ignoram demandas importantes da comunidade trans. Como provocação final, o pesquisador utilizou a frase do filósofo francês, Georges Ripert, para enfatizar a desconexão entre as leis existentes e as necessidades reais da comunidade. “Quando o direito ignora a realidade, a realidade se vinga ignorando o direito”.
Em seguida, a enfermeira e professora titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ana Beatriz Queiroz, destacou a necessidade de desconstrução de paradigmas no cuidado ao ciclo gravídico de homens trans. Com mais de 30 anos de experiência em enfermagem obstétrica e saúde da mulher, ela ressaltou que a presença de homens trans no ambiente de saúde representa uma ruptura no discurso binário tradicional, e que as equipes de enfermagem precisam de capacitação para lidar com as questões de gênero de forma adequada.
Ana Beatriz também mencionou que o conceito de "gestação paterna", vivenciado por homens trans, desafia as noções tradicionais de masculinidade e feminilidade, sendo necessário um esforço coletivo para incluir essa população nos protocolos de saúde e garantir seus direitos reprodutivos. Segundo a professora, embora haja avanços pontuais, ainda há barreiras significativas, como a falta de preparo das equipes, sistemas de informação inadequados e materiais educativos que perpetuam a cisheteronormatividade.
Ela alertou para a falta de políticas públicas que englobem as necessidades desse grupo, apontando a baixa oferta de tecnologias reprodutivas acessíveis no sistema público de saúde e a escassa visibilidade de homens trans gestantes nas estatísticas. Para a enfermeira, é crucial que o cuidado à saúde se adapte a essas novas realidades, promovendo um ambiente mais inclusivo e acolhedor.
Da esquerda para a direita: Daniele Menezes, Paulo São Bento, Ana Beatriz, Rozânia Bicego, Leonardo Peçanha e Dhiego Felipe (Foto: Juliana Brum)
No encerramento da 14° Jornada de Enfermagem em Saúde da Mulher, foram anunciados os três trabalhos acadêmicos premiados. Os ganhadores foram parabenizados pelos organizadores e pelo público presente.
Da esquerda para a direita: Rozânia Bicego, Carolina Santiago, Manuela de Souza, Luis Carlos Moraes e Paulo São Bento (Foto: Juliana Brum)
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