Encerrando o ciclo de debates da Agenda Laranja, o Programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher do IFF recebeu, na tarde do dia 29 de novembro, Fernanda Serpeloni, doutora pela Universidade de Konstanz, na Alemanha, pós doutoranda do Programa de Pós-graduação em Saúde da Criança e da Mulher, que falou sobre os aspectos psicológicos e epigenéticos do impacto intergeracional da violência durante a gravidez e Gustavo Lobato, médico obstetra e epidemiologista do IFF que debateu os dados da pesquisa.
Fernanda Serpeloni apresentou dados de sua tese de doutorado sobre estresse materno durante a gravidez e metilação do DNA da terceira geração. O estudo é fruto da colaboração internacional entre Fiocruz e Alemanha, e analisou três gerações (mães, filhas e netas ou netos), moradores do município de São Gonçalo, segundo município mais populoso do estado do estado do Rio de Janeiro, com o intuito de observar o efeito multigeracional da violência cometida durante a gravidez e suas repercussões genéticas nas gerações seguintes.
A pesquisadora explicou que o estresse vivido por uma mulher durante a gravidez pode afetar as gerações subsequentes, o que é demonstrado por uma maior suscetibilidade aos problemas de saúde da infância e da idade adulta nos filhos e netos. “Estudos recentes identificaram a metilação do DNA como um possível mediador do impacto do estresse pré-natal nos filhos, no entanto, não se sabe se o estresse psicossocial durante a gravidez também afeta a metilação do DNA dos netos”, enfatizou.
Este foi o primeiro estudo com seres humanos sobre o impacto do estresse psicossocial de avós durante a gravidez na metilação do DNA do neto. “Nossos dados sugerem que não só a exposição à toxina durante a gravidez, mas também o estresse psicossocial da matriarca, podem ser traduzidas em mudanças de metilação do DNA no neto. Embora o nível de significância não seja considerado alto, é comparável com outros estudos sobre o impacto epigenético das adversidades pré-natais”, explicou Fernanda.
Serpeloni salientou que, embora as diretrizes para uma boa nutrição ou a prevenção da exposição a toxinas, como o tabaco e o álcool, tenham sido incorporadas nos cuidados de rotina das gestantes, os fatores de risco psicossociais ainda são largamente negligenciados. “A pesquisa mostrou que o estresse pré-natal pode afetar a mãe, a criança e o neto. A gravidez é um período crítico para detectar esses fatores de risco e aplicar intervenções precocemente afim de promover a saúde no público em geral”, finalizou.
Sobre a Agenda Laranja
Ao longo do segundo semestre de 2017, o IFF/Fiocruz se dedicou mensalmente a discutir temas ligados a questões de gênero, visando sensibilizar os profissionais a refletirem sobre estratégias que contribuam com o fim da violência contra as mulheres e meninas. Foram abordados temas relativos aos modelos de paternidade e cuidados; à transexualidade, direitos e saúde; à violência obstétrica, racimo institucional e morte materna de mulheres negras; e ao impacto da violência na gravidez.
Os organizadores da Agenda Laranja, Corina Mendes e Marcos Nascimento, salientam que o ciclo de atividades foi importante por abordar também aspectos éticos voltados para as práticas de pesquisa e cuidado, formação de trabalhadores de saúde e direito humanos.
Marcos Nascimento, coordenador do Programa de Pós-graduação da Saúde da Criança e da Mulher do IFF, destaca que esse ciclo foi importante para pautar o tema da violência contra mulheres e meninas dentro da instituição, bem como envolver discentes da pós-graduação nessa reflexão, contando em cada encontro com a participação de um mestrando como relator. “A Agenda Laranja foi uma possibilidade de trazer esse tema importante para a área da saúde para dentro do IFF. Abordamos questões de direitos humanos de forma ampla e também geramos o envolvimento das alunas e alunos da pós-graduação com outros pesquisadores e sobretudo com os movimentos sociais”, afirmou.



