A Especialização Multiprofissional em Promoção da Saúde do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, no dia 19 de junho de 2026, o seminário “40 + 20 = Promoção da Saúde em terras cariocas”. O evento celebrou marcos relevantes para a saúde pública brasileira, como os 40 anos da 8ª Conferência Nacional de Saúde, os 40 anos da Carta de Ottawa e os 20 anos da Política Nacional de Promoção da Saúde.
Na abertura do seminário, a coordenadora de Educação e da Especialização Multiprofissional em Promoção da Saúde do IFF/Fiocruz, Adriana Castro, destacou que o evento representa uma oportunidade de refletir sobre os desafios contemporâneos da área. Para ela, apesar das transformações sociais, tecnológicas e econômicas ocorridas nas últimas décadas, os fundamentos da promoção da saúde permanecem atuais. “O mundo mudou bastante, mas a gente continua com muitas questões de determinação social na vida e nos territórios. As ideias, os valores, as estratégias e atitudes continuam valendo para o dia de hoje”, afirmou.
Ao destacar a trajetória da especialização, Adriana ressaltou o papel das redes colaborativas na construção de práticas de promoção da saúde. Segundo ela, a experiência do curso demonstra que é possível desenvolver iniciativas intersetoriais mesmo diante de limitações estruturais. “A gente consegue fazer promoção da saúde como acredita que ela deve ser feita: com redes colaborativas, intersetoriais, com vínculos e com o mínimo de estrutura necessária”. A coordenadora também lembrou que o seminário integra as atividades preparatórias para a III Conferência de Promoção da Saúde da Fiocruz, que acontecerá em novembro.
Representando a Direção do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO), a pediatra e sanitarista do IFF/Fiocruz, Rachel Niskier, trouxe uma perspectiva histórica ao recordar sua participação na 8ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 1986. Para ela, sediar um encontro dedicado à promoção da saúde é motivo de orgulho para a instituição. “Promover saúde é promover vida. E que bem maior temos todos?”, disse.
A importância desses marcos históricos também foi ressaltada pelo coordenador de Promoção da Saúde da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), Valber Frutuoso. Em sua fala, ele lembrou que a 8ª Conferência Nacional de Saúde, a Carta de Ottawa e a Política Nacional de Promoção da Saúde representam conquistas construídas a partir da mobilização social e da defesa da saúde como direito. “Essas efemérides não representam apenas um momento comemorativo. Elas simbolizam processos históricos de mobilização social, construção democrática, formulação de políticas públicas e afirmação da saúde como um direito humano fundamental”, pontuou.
Para Valber, a promoção da saúde ocupa hoje um papel estratégico diante dos desafios contemporâneos. Ao defender uma compreensão ampliada da saúde, baseada nas condições de vida da população, ele reforçou a importância dos territórios como espaços onde as políticas públicas ganham concretude. “É nos territórios que os princípios ganham materialidade. É nos territórios que se expressam tanto as possibilidades quanto os limites das políticas públicas”, observou.
Rachel Niskier, Adriana Castro e Valber Frutoso (Foto: Bruno Guimarães)
Avanços e desafios da Política Nacional de Promoção da Saúde
A primeira palestra do dia foi conduzida pela analista de Atenção Primária à Saúde do Departamento de Promoção da Saúde do Ministério da Saúde, Raíssa Rodrigues Organista, que abordou os avanços e os desafios dos 20 anos da Política Nacional de Promoção da Saúde.
Ao apresentar a trajetória da Política, Raíssa reforçou que a promoção da saúde vai além dos serviços de saúde e depende de ações articuladas entre diferentes setores. Questões relacionadas à mobilidade urbana, alimentação adequada, trabalho, renda, moradia e educação, segundo ela, influenciam diretamente as condições de saúde da população e precisam fazer parte das estratégias de cuidado.
A palestrante também apresentou iniciativas desenvolvidas pelo Ministério da Saúde, como a ampliação das práticas integrativas e complementares, o fortalecimento do Programa Academia da Saúde, a triagem de insegurança alimentar na Atenção Primária e o projeto Territórios do Cuidado, voltado à formação de lideranças comunitárias e profissionais em todo o país.
Ao mesmo tempo, chamou atenção para desafios que seguem exigindo respostas das políticas públicas, como o crescimento das doenças crônicas não transmissíveis, os impactos das mudanças climáticas, a violência e os problemas relacionados à saúde mental. Para Raíssa, enfrentar essas questões exige fortalecer a atuação nos territórios e ampliar o diálogo entre diferentes áreas do poder público.
Raíssa Rodrigues Organista (Foto: Bruno Guimarães)
Infâncias, adolescências e participação comunitária
Na sequência, a diretora-executiva do Centro de Promoção da Saúde (Cedaps), Kátia Edmundo, conduziu a conferência colaborativa “Promoção da Saúde de infâncias e adolescências: desafios persistentes e outros”, construída em conjunto com cinco jovens moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.
Partindo das experiências vividas nos territórios, Kátia defendeu uma visão da promoção da saúde baseada na participação social, na valorização dos saberes populares e no protagonismo comunitário. Segundo ela, são as pessoas, coletivos e organizações presentes nos territórios que produzem, diariamente, ações de cuidado, solidariedade e defesa de direitos.
Durante sua apresentação, a conferencista compartilhou experiências desenvolvidas pelo Cedaps e pela Rede de Comunidades Saudáveis, ressaltando que a transformação das realidades locais depende da construção coletiva entre comunidades, serviços públicos e gestores.
Ao refletir sobre os desafios enfrentados pelas novas gerações, Kátia chamou atenção para questões que vêm impactando a vida de crianças, adolescentes e jovens, como a desinformação, a hiperconectividade, os algoritmos das plataformas digitais, a crise climática e as diferentes formas de exclusão social. Nesse contexto, defendeu o fortalecimento da comunicação comunitária, da educação crítica e do letramento em saúde como ferramentas capazes de ampliar a autonomia das pessoas e sua participação nas decisões relacionadas à própria saúde.
Dando continuidade à conferência colaborativa, os jovens impactados pelas ações do Cedaps compartilharam suas experiências de vida e apresentaram suas visões sobre os desafios e as potencialidades das juventudes nos territórios onde vivem. Em suas falas, abordaram temas como educação, inclusão, participação social e perspectivas para o futuro, reforçando a importância de ouvir os próprios jovens na construção de ações de promoção da saúde.
Da esq. para dir.: Kátia Edmundo, Vinícius Baptista, Juliana Carmo, Larissa Lúcia, Larissa Cilles e Lucas Gabriel (Foto: Juliana Brum)
A programação seguiu no período da tarde com a mesa “Promoção da Saúde no SUS do Rio de Janeiro: a importância da Superintendência de Promoção da Saúde (SPS/SUBPAV/SMS-RJ)”, que contou com a participação de Viviane Castelo Branco (Universidade Souza Marques), Aline Bressan (Universidade Souza Marques) e Aline Aguiar (SPS/SUBPAV/SMS-RJ). Na oportunidade foi possível analisar as dificuldades de implementação da Política Nacional de Promoção da Saúde a partir dos movimentos na Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro para a institucionalização da Superintendência de Promoção da Saúde. Uma história de mais de 20 anos, que teve como precursores profissionais e gestores envolvidos na melhoria da saúde de adolescentes e mulheres, que tem como marca o trabalho com a educação, no Programa Saúde na Escola, e o RAP da Saúde, uma rede de adolescentes promotores da saúde. As palestrantes demonstraram a implicação dos profissionais do Sistema Único de Saúde para tornar efetiva as políticas e o compromisso com a promoção da saúde, a despeito de sua complexidade em cenários de vulnerabilidade social.
Encerrando o seminário, a mesa “Redes de Promoção da Saúde” reuniu Lais Silva Mariano (Rede de Defensores de Direitos Humanos e Promoção da Saúde), Dejany Ferreira (Rede de Atenção a Pessoas Afetadas pela Violência de Estado) e Juliana Mesquita (Especiais da Maré). Mantendo a lógica do seminário, mais uma vez, abriu-se espaço para abordagens territoriais em promoção da saúde e garantia de direitos. A mesa apresentou experiências de acolhimento e proteção a mulheres e famílias afetadas pela violência de Estado, cuidado em saúde mental nos territórios marcados pela violência armada e construção de redes colaborativas de promoção da saúde para mães atípicas e pessoas com deficiência. Os elementos centrais do debate foram a necessidade de construção de cartografias sociais que situem equipamentos públicos e de proteção e a importância de difundir os direitos constitucionais e de produzir estratégias de mediação para a garantia de acesso à cidadania.



