Negligência em debate no 18º Curso de Violência contra crianças e adolescentes do IFF/Fiocruz

Na segunda-feira (14/5), aconteceu, no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), o segundo dia do 18º Curso de Violência contra crianças e adolescentes – A intersetorialidade na prevenção e no atendimento, realizado pelo Núcleo de Apoio aos Profissionais que atendem crianças e adolescentes vítimas de maus-tratos (NAP-IFF). Durante a primeira mesa, cujo tema foi A violência e suas várias manifestações, a assistente social e membro da Coordenação de Atenção à Saúde do  IFF/Fiocruz Dolores Vidal abordou a negligência, uma das formas de violência mais notificadas de acordo com as estatísticas nacionais e internacionais.

Para Dolores, embora seja bastante presente no cotidiano dos profissionais das áreas da saúde, educação e assistência social, a negligência continua sendo uma questão marginal devido à escassa produção acadêmica a respeito. “Ela é frequentemente confundida com pobreza, banalizada e notificada de maneira aleatória. Por isso, é importante pensar em que tipo de violência estamos tratando”, afirma a assistente social. Segundo ela, faz-se necessário entender o conceito de negligência como desproteção. “Alguns autores apontam que ela se posiciona entre os limites da pobreza e da violência, já que a miséria impossibilita a família de prover os requisitos básicos para os cuidados com a criança. Essa falta de acesso às políticas públicas se torna um dos primeiros estágios para o desenrolar de outros tipos de violência”, ressalta.

Em sua fala, Dolores destacou que, nos atendimentos realizados por diversos profissionais, a negligência aparece como fala recorrente e, enquanto forma de violência, precisa ser identificada, acompanhada e notificada, assegurando os direitos da criança ou adolescente com o intuito de fazer as intervenções necessárias. Para que o estágio de negligência não se agrave, tornando-se crônico, ela defende a manutenção de políticas públicas articuladas entre educação, assistência social e órgãos de proteção à criança e adolescente.

“Por serem menos visíveis, em geral, a negligência e a violência psicológica são mais difíceis de serem percebidas e entendidas como modalidades da violência”, argumenta. Nesse sentido, ela acredita que é imprescindível a abordagem de uma equipe multiprofissional na identificação de situações que possam ser enquadradas como negligência. “Não se trata de um processo matemático: é preciso ouvir a família, entender o que ela irá trazer e os contextos (social, cultural e econômico) em que ela está inserida”, afirma ela.

Dolores frisou, ainda, a utilidade e pertinência de discutir o tema da negligência em cursos voltados para profissionais, pois trazer à tona o debate, reconhecendo, inclusive, os dissensos entre teóricos do campo, é determinante para melhorar a identificação e o encaminhamento dessa modalidade de violência. “Precisamos falar sobre isso. Não pode ser um tabu, algo visto como natural ou discutido com base no senso comum. Os profissionais se envolvem e fazem desdobramentos desses casos, então é algo que faz parte das nossas responsabilidades”, conclui a palestrante.