IFF/Fiocruz realiza II Seminário de Direitos Humanos e Integralidade do Cuidado no SUS 


O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, por meio do projeto Cuidadoria de Mães, o II Seminário de Direitos Humanos e Integralidade do Cuidado no Sistema Único de Saúde (SUS), no dia 18 de março. O evento teve como eixo central “Cuidado, Cultura e Lazer”, destacando a cultura como ferramenta de transformação social e fortalecimento de vínculos.  
 

O seminário é um produto do Programa de Políticas Públicas e Modelos de Atenção e Gestão à Saúde (PMA) da Fiocruz, Rede Equidade com Diversidade, que fomenta Projetos como Cuidadoria de Mães focados em interseccionalidade, gênero, raça e inclusão. 

A abertura foi marcada por falas que reafirmaram o compromisso com a defesa do cuidado integral e dos direitos das usuárias do SUS. Representando a Associação dos Servidores da Fiocruz (Asfoc-SN), Alessandra Augusta Penna e Costa participou da mesa em razão de o evento ter sido realizado em um momento de paralisação dos servidores da Fundação, no contexto das negociações para a efetiva implementação do Reconhecimento de Resultado de Aprendizagem (RRA). A pauta da manifestação foi anunciada ao público presente e associada à importância do cuidado com os direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras da instituição.

Em seguida, a psicóloga do IFF/Fiocruz, Nadja Carvalho, refletiu sobre a realidade de mães que acompanham filhos com condições crônicas e complexas de saúde. Ela destacou que essas mulheres assumem o papel de cuidadoras intensivas, muitas vezes reorganizando completamente suas vidas em função do tratamento dos filhos. Nesse cenário, ressaltou a importância do projeto Cuidadoria de Mães, que se volta ao cuidado dessas mulheres, reconhecendo suas trajetórias, desafios e potencialidades. 

Encerrando a abertura, a diretora substituta e chefe de Gabinete do IFF/Fiocruz, Mariana Setúbal, enfatizou a relevância do projeto na construção de uma perspectiva ampliada de cuidado. Segundo ela, iniciativas como a Cuidadoria de Mães dialogam com políticas públicas recentes e com a necessidade de promover a humanização no ambiente hospitalar, incorporando dimensões como cultura, lazer e o direito à vida pública. Mariana salientou ainda que o hospital pode e deve ser também um espaço de produção cultural e de ressignificação das experiências vividas por pacientes, familiares e profissionais de saúde. 

Mesa de abertura (Foto: Bruno Guimarães) 

Após a abertura, a coordenadora do Núcleo de Apoio a Projetos Educacionais e Culturais (Napec) do IFF/Fiocruz e integrante da equipe da Cuidadoria de Mães, Magdalena Oliveira, abordou o papel do voluntariado na promoção da integralidade do cuidado. Ela frisou que, nesse contexto, o cuidado está diretamente ligado ao acolhimento e à construção de vínculos, especialmente em um ambiente hospitalar marcado por desafios. A coordenadora também apresentou produções, como o livro Vozes que maternam, baseado em narrativas de mães e familiares, que dão visibilidade a experiências frequentemente invisibilizadas e reforçam a importância da escuta e da valorização dessas histórias no cotidiano institucional. 

O impacto do projeto foi evidenciado no depoimento de Márcia Teófilo, uma das mães participantes da Cuidadoria de Mães, que compartilhou sua experiência durante a internação da filha. Ela destacou o acolhimento recebido em um dos momentos mais difíceis vividos pela família, ressaltando o suporte emocional e as atividades promovidas como fundamentais para enfrentar a rotina hospitalar. 

Para Márcia, a iniciativa representa não apenas um espaço de cuidado, mas também de resgate da identidade e do bem-estar das mães. “A gente lembra que somos pessoas, que somos mulheres”, afirmou, ao enfatizar a importância de ter com quem conversar, rir e compartilhar experiências. Seu relato reforça o papel do projeto na construção de redes de apoio e na promoção de um cuidado mais humanizado no SUS. 

A primeira mesa, intitulada “Cultura é poder: arte, memória e resistência das mulheres”, mediada pela integrante do projeto, Janaina Bilate, aprofundou o debate sobre o cuidado a partir de suas dimensões sociais, culturais e políticas. A professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Jane Santos, abriu as discussões com uma análise crítica sobre a invisibilização histórica do trabalho do cuidado, especialmente em uma sociedade marcada por desigualdades de gênero e raça. 

 Janaina Bilate (Foto: Bruno Guimarães) 

Em sua exposição, Jane salientou que o cuidado, embora essencial para a manutenção da vida e da organização social, ainda é pouco reconhecido e valorizado por estar majoritariamente associado às mulheres, sobretudo às mulheres negras. Ela frisou que atividades como cuidar de crianças, pessoas doentes e idosos compõem o chamado trabalho reprodutivo, frequentemente não remunerado e ausente das estatísticas econômicas. Nesse sentido, defendeu o reconhecimento do cuidado como uma política pública estruturante, capaz de enfrentar desigualdades históricas e promover justiça social. 

A palestrante também enfatizou o papel da arte e da cultura na ampliação do conceito de cuidado. Para Jane, iniciativas como a Cuidadoria de Mães apontam caminhos possíveis para a implementação de políticas mais integradas, ao promover espaços de escuta, acolhimento e valorização das experiências femininas. 

Na sequência, a professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Nilza Rogéria, abordou a cultura como campo de disputa e produção de poder, destacando seu potencial como instrumento de resistência e transformação social. A partir de sua atuação em territórios periféricos, afirmou que práticas culturais, como narrativas, expressões artísticas e experiências coletivas permitem às mulheres ressignificar vivências marcadas pela dor, ao mesmo tempo em que fortalecem o sentimento de pertencimento e o acesso à cidade como direito. 

Nilza também ressaltou a importância de considerar dimensões como raça, classe e território na formulação de políticas públicas de cuidado. Para ela, a integralidade no âmbito do SUS exige o reconhecimento dessas desigualdades estruturais, bem como a valorização de saberes comunitários e práticas ancestrais. Ao final, reforçou que promover direitos humanos na saúde implica escutar, reconhecer e dar visibilidade às experiências das mulheres, compreendendo a cultura não apenas como expressão, mas como ferramenta política de construção de equidade. 

A segunda mesa, “Cultura como autocuidado: o corpo, a palavra e a criação em tempos de dor”, mediada pela chefe de Gabinete da Direção e coordenadora do projeto Cuidadoria de Mães, Katia Moss, trouxe reflexões sobre o cuidado a partir de dimensões subjetivas, corporais e simbólicas, destacando a cultura como elemento central na produção de saúde e bem-estar. 

 Katia Moss (Foto: Bruno Guimarães) 
 

A psicóloga do IFF/Fiocruz, Imara Freire, compartilhou sua experiência no projeto Cuidadoria de Mães a partir da prática da dança circular, compreendida como uma tecnologia de cuidado. Em sua fala, defendeu que o cuidado não se restringe a protocolos técnicos, mas é uma experiência relacional, atravessada por cultura, histórias e afetos. A dança surge, nesse contexto, como um espaço de acolhimento e expressão, no qual o corpo, muitas vezes marcado pelo cansaço e pela dor, pode se reconectar com sua dimensão sensível, simbólica e coletiva. Para a psicóloga, práticas culturais como essa sustentam vínculos, respeitam subjetividades e produzem cuidado mesmo quando as palavras não dão conta da experiência vivida. 

Encerrando o debate, a pediatra e coordenadora do Núcleo Saúde e Brincar do IFF/Fiocruz, Roberta Tanabe, ampliou a discussão ao destacar diferentes formas de linguagem no cuidado, para além da palavra falada. A partir de experiências no ambiente hospitalar, abordou a importância dos sons, do silêncio, do toque, do brincar e das expressões corporais como dimensões fundamentais na comunicação e no acolhimento, especialmente de crianças e bebês. Segundo ela, o cuidado também se manifesta em gestos sutis, muitas vezes invisíveis, que constroem vínculos e produzem sentido no cotidiano hospitalar. 

Roberta ressaltou ainda o papel das narrativas orais, corporais e escritas como ferramentas terapêuticas e políticas. Ao compartilhar exemplos como tatuagens maternas e histórias inscritas no corpo, evidenciou como o cuidado ultrapassa o campo biomédico e se inscreve na cultura, na identidade e na construção de significados. Para a palestrante, reconhecer essas múltiplas linguagens é fundamental para a construção de um cuidado integral, que valorize a subjetividade e a dignidade das pessoas no SUS. 

 Ao final das mesas, as palestrantes responderam às perguntas do público (Foto: Bruno Guimarães) 

 
Encerrando a programação, o Seminário contou com uma apresentação da Roda de Palhaço, seguida da realização de uma prática de dança circular. Também houve a distribuição do livro Vozes que maternam, ampliando o acesso às narrativas de mães e familiares e fortalecendo a valorização dessas experiências no contexto do SUS. 

 Profissionais e público reunidos ao final do evento (Foto: Bruno Guimarães) 

 

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