IFF/Fiocruz realiza debate sobre o Impacto da violência racial e de gênero na atenção à saúde

 

O debate sobre o Impacto da violência racial e de gênero na atenção à saúde: Desafios em tempos de ódio e violação de direitos, foi realizado, em 22/5, em comemoração ao Dia do(a) Assistente Social, celebrado em 15/5. O objetivo do encontro foi fortalecer as estratégias de luta em defesa da democracia e pela eliminação do racismo de todas as formas de discriminação e preconceito. Dando início a mesa de abertura, o diretor do IFF/Fiocruz, Fábio Russomano, registrou o quanto o serviço social amplia o conceito de cuidado e o quanto isso deve ser valorizado no dia a dia de uma instituição de saúde. “Com as assistentes sociais eu aprendi a ter um outro olhar sobre as necessidades dos usuários, que transcende o cuidado médico e passa pelo asseguramento dos seus direitos, preocupação e construção de um ambiente onde a família possa a ter saúde no sentido amplo da palavra, e não apenas física”, frisou ele.

Com a palavra, a coordenadora técnica do Serviço Social do IFF/Fiocruz, Roseli Rocha, disse que as comemorações ao longo do mês de maio são marcadas por afeto e luta, sempre pela defesa intransigente dos direitos humanos. “Quando propomos celebrar o nosso dia com uma atividade como esta, buscamos, mais do que comemorar, criar um espaço de construção de unidade para enfrentar os enormes desafios que se colocam no presente, de muitas angústias e avanço alarmante do conservadorismo e da violência. Esperamos que esse nosso encontro contribua para o fortalecimento da luta, nos motivando a enfrentar com coragem os desafios cotidianos e estruturais”, alegou ela. Já a conselheira do Conselho Regional de Serviço Social (CRESS/RJ), Malu Vale, falou que são necessários espaços de diálogos e entender o tempo do outro, mas que além de resistir, é preciso avançar. “Hoje, se a gente consegue debater racismo e a importância do tema no exercício profissional, é inegável reconhecer que uma das coisas que possibilitou isso foi a ampliação de negros com acesso ao ensino superior e na entrada nas entidades representativas da categoria de forma maciça e organizada”, declarou ela.

A seguir, a coordenadora do Comitê Fiocruz Pró-Equidade de Gênero e Raça Hilda Gomes comentou sobre a importância do desenvolvimento de ações de sensibilização com a temática. “Na maioria das vezes, as pessoas não percebem o que está ao seu redor, então usam da linguagem, postura corporal, expressões faciais, atitudes e indicações para cargos de liderança, determinados comportamentos que nos deixam, enquanto pessoas negras, afastadas, adoecidas, revoltadas e entristecidas. Por isso, precisamos de todos nessa luta”, esclareceu ela.

O diretor do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO) e gestor da Área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente do IFF/Fiocruz, Antônio Meirelles, elogiou o trabalho das assistentes sociais. “Aqui no Instituto sempre demos valor a presença do serviço social e ao que aprendemos na garantia dos direitos aos pacientes que atendemos. A organização do evento montou a programação com o mesmo carinho de quem se preocupa com as pessoas como iguais”, contou ele. Encerrando a mesa de abertura, a assistente social e coordenadora de Atenção à Saúde do IFF/Fiocruz Dolores Vidal completou dizendo que hoje, o serviço social ocupa espaços importantes no Instituto, com projetos de pesquisa e publicações, grandes méritos da equipe. “É muito importante ter uma equipe tão presente e engajada do ponto de vista da defesa dos direitos sociais e da luta por uma sociedade mais justa e igualitária. São profissionais extremamente qualificadas que não fogem à luta, que resistem, enfrentam e reagem à toda forma de preconceito”, parabenizou ela.

Na sequência, a assistente social do IFF/Fiocruz Antilia Martins conduziu a mesa-redonda, cuja discussão teve articulação com a campanha “assistentes sociais no combate ao racismo” do Conselho Federal de Serviço Social (CFESS) e CRESS, com o objetivo de ser mais um espaço de reflexão crítica sobre o assunto. O professor da Universidade da Cidadania/Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), escritor e ex-parlamentar Chico Alencar iniciou a discussão falando sobre a mesa de abertura. “Gostaria de destacar que, para quem faz pesquisa na área, a mesa de abertura foi histórica da compreensão do que é o serviço social. Certamente há 20 anos uma mesa não diria o que vocês disseram aqui, vocês estão antenados com o tempo e com o avanço”, saudou ele.

Chico lembrou que o dia 15 de maio é a data em que se criou o decreto que regulamenta a profissão, então tem uma importância histórica. “O sentido maior do serviço social é servir a socialização, pois vocês escolheram um ofício rigorosamente vinculado ao outro. Então, obrigatoriamente precisam se relacionar com o outro, perceber a dor e questionar sempre: “qual é a sua aflição?”, explicou ele. Os conceitos de cidadania “toda pessoa que possui consciência dos seus direitos, sabe dos seus deveres”, democracia “direta, participativa e representativa”, equidade “princípio da igualdade”, e justiça social “luta contra a injustiça”, também foram abordados por Chico, que lamentou os quatro séculos de escravidão oficial no Brasil. “Fomos o último país a abolir formalmente a escravidão no planeta, isso marca profundamente qualquer sociedade”, disse ele. “Vamos fazer viver a nossa emoção, paixão, sentimentos e a nossa razoabilidade para construir uma sociedade melhor”, completou.

Dando seguimento, a pesquisadora e professora da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz) Roberta Gondim pontuou que é muito complicado ainda precisarmos falar a respeito do racismo, pois não deveria ser assim, mas infelizmente ainda é. “O que eu acho fundamental é fazer uma abordagem um pouco mais aprofundada do racismo estrutural para que possamos entender a naturalização e perpetuação de dispositivos de governo violentos que operam sobre os nossos corpos, a nossa história e o nosso futuro. Esse é o grande desafio: que futuro é esse que podemos prospectar a partir do reconhecimento da nossa ancestralidade, daqueles que nos suportam e daquilo que a gente pode evocar como possibilidade de construção, de produção para aqueles que nos sucederão?”, declarou ela. Nesse contexto, questionou: “Quem morre é a exceção ou a regra?”, respondendo em seguida. “É a regra e com requintes de crueldade. A relação de dominação e o princípio do “não ser” é histórico, se faz e se refaz cotidianamente nas nossas vidas, isso se mantém, por isso precisamos falar sempre”, encerrou ela.

Para finalizar a mesa-redonda, Roseli Rocha apresentou pesquisas que revelam os índices de desigualdades étnico-raciais no Brasil e, após, convocou a todos(as) a refletirem acerca dessa realidade. “Qual tem sido a importância da questão étnico-racial nos debates travados nos espaços sócio-ocupacionais e de formação profissional? Em situações decorrentes do racismo institucional, qual tem sido a atuação dos(as) profissionais para o seu enfrentamento?”. Chamou a atenção ainda, para que todos(as) lutem contra o racismo sendo antirracistas, citando uma frase conhecida da ativista negra norte-americana Angela Davis “Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Roseli também agradeceu a parceria do conjunto CFESS/CRESS e deixou uma mensagem aos presentes. “A nossa munição é a apropriação do conhecimento e o desejo por justiça social, essas são as armas mais potentes contra o preconceito, a discriminação e o racismo”, garantiu ela. O encerramento do evento ficou por conta do Grupo Slam das Minas/RJ, que através de uma atividade cultural poética, desenvolvem a potência artística de mulheres (sejam héteras, bis, pans, lésbicas ou trans) e pessoas queer, agender, não bináries e trans.