IFF/Fiocruz publica artigo sobre as manifestações neurológicas por Zika vírus

Especialistas do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) coordenaram um novo estudo relacionado a manifestações neurológicas por infecção congênita do Vírus Zika. Publicado na revista científica Child's Nervous System e de autoria de Tânia Saad, Alessandra Augusta Penna e Costa, Fernanda Veiga de Góes, Marcela de Freitas, Julia Valeriano de Almeida, Lúcio José de Santa Ignêz, Ana Paula Amâncio, Renata Joviano Alvim e Ludmilla Athayde Antunes Kramberge, o artigo teve como objetivo rever características neurológicas da síndrome congênita do vírus Zika (SCZ) em recém-nascidos e crianças nos primeiros anos de vida. Visa, também, enfatizar a forma como os cuidados adequados podem otimizar a expectativa e qualidade de vida desses pacientes.

“O estudo foi realizado com uma coorte de aproximadamente 300 crianças, pacientes do Instituto, e concluiu que a infecção vertical pelo Zika Vírus (ZikaV) pode causar um amplo espectro de manifestações neurológicas que vão além da microcefalia. Até mesmo a criança não microcefálica deve ser seguida nos primeiros anos de vida, pois a infecção pode ser assintomática ou levar ao atraso neuropsicomotor, epilepsia e anormalidades visuais”, explicou Tânia Saad, uma das autoras do artigo e neuropediatra do IFF. Tânia enfatizou que o acompanhamento multidisciplinar apropriado desses pacientes visa um melhor desenvolvimento e qualidade de vida para essas crianças e suas famílias.

O vírus Zika é um novo membro da TORCHS, um grupo de infeções de origem parasitária, viral e bacteriana na gravidez que podem provocar anomalias graves e mesmo a morte fetal, que lidera a infecção congênita através da transmissão vertical e prejudica o cérebro em desenvolvimento, interferindo na multiplicação e migração das células do sistema nervoso, aceleração da apoptose, alterando as características do nervo central e formação de mielina do sistema (SNC) e desorganização da sinaptogênese. “O SNC é altamente suscetível a infecções durante todo o período gestacional, mas a infecção durante as semanas anteriores à fase embrionária, geralmente resultam em graves malformações”, esclareceu Tânia.

Segundo a neuropediatra, a infecção leva à formação de pequenos cérebros com ampla destruição, córtex diferenciado, poucos giros e crânio pequeno. “Como consequência, a evolução natural do recém-nascido e os marcos de desenvolvimento podem ser severamente prejudicados. É importante frisar também, que o ZikaV pode ser a causa de muitos outros distúrbios neurológicos, quando não relacionados à infecção intrauterina, como Síndrome de Guillain-Barre, mielite aguda e meningoencefalite”.

O estudo concluiu que a síndrome pode ter manifestações clínicas e radiológicas semelhantes às outras infecções congênitas do grupo TORCHS. “O acompanhamento multidisciplinar adequado aos pacientes expostos ao vírus, tem como objetivo uma melhor compreensão desta infecção, sua história natural e as intervenções clínicas, farmacológicas e cirúrgicas adequadas que possam proporcionar um melhor desenvolvimento e qualidade de vida para essas crianças e suas famílias. Ao contrário das outras infecções do grupo, esta é uma doença cujo impacto real ainda é desconhecido. Portanto, é de suma importância que alguém acompanhe e avalie todas as crianças expostas ao ZikaV, e não apenas aquelas com anormalidades detectáveis do SNC”, concluiu Tânia Saad.