IFF/Fiocruz promove debate sobre adolescências, violência e sociabilidade digital

 

O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, no dia 29 de agosto, o evento “Adolescências, Violência & Sociabilidade Digital”.  Uma iniciativa da Área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente do Instituto, o encontro reuniu profissionais de diferentes áreas para pensar temas como violências online, pertencimento e os impactos da era digital sobre a saúde mental dos adolescentes.

O pediatra e psiquiatra da infância e adolescência do IFF/Fiocruz, Orli Carvalho, que mediou a atividade, explicou que a proposta do evento surgiu meses antes, mas que o momento atual reforça sua relevância. Para ele, era necessário refletir “qual é o papel das redes, da saúde e da justiça, e como podemos ocupar melhor esses espaços digitais”. Orli lembrou que essa discussão está diretamente ligada à missão do Instituto: “Pensar a saúde de crianças e adolescentes não só no modelo assistencial, mas também considerando a saúde mental e a segurança como elementos críticos nesse contexto”.

Na abertura, a diretora substituta e coordenadora de Atenção à Saúde do IFF/Fiocruz, Lívia Menezes, destacou a importância de reconhecer as múltiplas experiências vividas pelos adolescentes no mundo físico e no digital. Ela afirmou que as redes sociais representam “um espaço potente de criatividade e pertencimento, mas também de dor e de muita violência”. Para Lívia, compreender essa dualidade é um desafio coletivo. “Pais, mães, educadores e profissionais de saúde precisam entender que a sociabilidade digital é um campo de direitos e de protagonismo dos jovens”.

Lívia também informou da criação de um novo eixo voltado para adolescentes no Portal de Boas Práticas, que será lançado no final de setembro, fruto de discussões com o Ministério da Saúde. “Está na hora de fortalecer o debate, e esse evento reforça a importância do tema, que é atual e urgente”, afirmou.

Adolescência: uma série, várias histórias

Abrindo as palestras, a residente de Pediatria do IFF/Fiocruz, Gabriela Hubner, trouxe como ponto de partida a análise da minissérie britânica Adolescência, lançada pela Netflix em março. Apesar de fictícia, a produção foi inspirada em casos reais de assassinatos cometidos por adolescentes no Reino Unido.

Gabriela explicou que a série se diferencia por não retratar apenas o crime, mas as circunstâncias que o antecederam, como negligência escolar, conflitos familiares e a influência da internet. “A série mostra o quanto as redes sociais influenciam diretamente a autoestima, a personalidade e as relações sociais dos jovens. Elas podem ser um espaço de conexão, mas também de exclusão, violência e bullying”, observou.

Ao comentar uma das cenas mais impactantes, Gabriela ressaltou a reflexão da mãe do protagonista, que acreditava que o filho estava seguro dentro do quarto, conectado ao computador. “Ela achava que aquele espaço era seguro, mas, na verdade, foi ali que tudo aconteceu. Isso nos faz pensar sobre a importância do acompanhamento familiar e do diálogo sobre o mundo digital”, disse.

Para a ela, a trama provoca uma reflexão importante. “As redes não influenciam apenas comportamentos pontuais, elas moldam a identidade dos jovens, seus valores e sua forma de se relacionar”, concluiu.

A residente analisou a série ‘Adolescência’ (Foto: Bruno Guimarães)

Misoginia online e adolescentes

Professora e pesquisadora do IFF/Fiocruz, Suely Deslandes complementou a reflexão, abordando o impacto da misoginia online e a chamada “macho-esfera”. “Esses grupos se estruturam em redes digitais que capturam adolescentes inseguros, oferecendo pertencimento e respostas simplistas para suas frustrações. É um terreno fértil para discursos de ódio e radicalização”, explicou.

Ela frisou que esse ecossistema virtual inclui comunidades como os incels e adeptos da Red Pill, que propagam ideias conspiratórias sobre as mulheres. “Não é por acaso que vários ataques a escolas foram cometidos por jovens vinculados a esses fóruns. O Brasil é líder na América Latina em engajamento com esse tipo de conteúdo”, alertou.

Para Suely, a resposta passa por uma combinação de educação digital, debates sobre gênero e masculinidades, e regulamentação das plataformas. “Antes falávamos em controle parental; hoje falamos em participação parental. As empresas de tecnologia sabem dos riscos e lucram com isso, enquanto os adolescentes são expostos a discursos que moldam comportamentos violentos”, criticou.

Ela encerrou reforçando a necessidade de diálogo: “Não adianta só proibir. Precisamos criar espaços de escuta e reflexão para que os jovens compreendam os riscos e possam construir relações mais saudáveis no ambiente online e offline.”

Suely explicou conceitos fundamentais para entender a misoginia online (Foto: Everton Miranda)


Adolescências: violência, pertencimento e o papel da rede de proteção

A promotora titular da 7ª Promotoria de Justiça da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, Gabriela Lusquiños, trouxe uma visão contundente sobre a mudança no perfil dos casos que chegam à Vara da Infância. “Há dez anos, a maioria era furto, roubo e tráfico. Hoje, lidamos com atos de violência extrema, articulados em redes sociais, quase sempre sem supervisão parental”, alertou.

A promotora relatou casos reais para ilustrar os riscos do uso indiscriminado da tecnologia, incluindo situações de abuso, automutilação e crimes organizados em plataformas como o Discord. “Começamos a perceber que esses episódios têm como pano de fundo duas questões: famílias com parentalidade disfuncional e ausência de supervisão no uso da tecnologia”, afirmou.

Gabriela destacou ainda a importância de compreender a lógica da adolescência para construir estratégias efetivas de prevenção. “O adolescente não tem ainda um cérebro maduro para tomada de decisão sustentada. Ele age por impulso, emoção, e precisa do cérebro adulto ao lado para protegê-lo. O problema é quando os pais estão distraídos demais”, disse, criticando tanto a educação autoritária do passado quanto a permissividade atual.

Para ela, o enfrentamento depende de um pacto coletivo: “É necessário toda uma aldeia para proteger a criança. Essa aldeia inclui família, escola, Estado e sociedade. Se qualquer engrenagem falha, o adolescente fica vulnerável. Precisamos repactuar regras, supervisionar e, principalmente, acolher e dar pertencimento para que eles não busquem isso em espaços inseguros da internet.”

A promotora compartilhou a realidade atual da Vara da Infância (Foto: Everton Miranda)


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