IFF/Fiocruz lança eixo de atenção à saúde do adolescente no Portal de Boas Práticas


O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) promoveu, no dia 30 de setembro, no Salão Nobre do Centro Brasileiro de Altos Estudos (CBAE/UFRJ), a cerimônia de lançamento do novo eixo do Portal de Boas Práticas em Saúde, dedicado à atenção à saúde de adolescentes. Intitulado “Adolescer no Brasil: panorama, perspectivas e desafios”, o encontro reuniu pesquisadores, profissionais de saúde e gestores para discutir estratégias voltadas a essa população. A escolha da data reforçou o compromisso do Instituto com a saúde pública e com a valorização da adolescência, que no mês de setembro celebra o Dia Nacional do Adolescente (21/09) e o Dia Nacional de Saúde de Adolescentes e Jovens (22/09).

A mesa de abertura contou com a Coordenadora de Ações Nacionais e de Cooperação do IFF/Fiocruz, Maria Gomes; a Diretora Executiva da Associação Brasileira de Enfermagem de Família e Comunidade (Abefaco), Thays Conti; o presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Edson Ferreira Liberal; a Chefe de Gabinete da Direção e assistente social do IFF/Fiocruz, Mariana Setúbal; e a Vice-Presidente Adjunta de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), Patrícia Canto.

Maria Gomes em sua fala ressaltou que a criação do eixo representa “a sensação de dever cumprido”, lembrando que o Portal, lançado em 2017, nasceu com foco na saúde da mulher e da criança e agora amplia sua atuação para adolescentes. “É um espaço que finalmente ocupamos, após um período desafiador nas políticas públicas, reforçando nossa missão de disseminar conhecimento e qualificar o cuidado”, afirmou.

Representando a Abefaco, Thays Conti destacou a relevância do trabalho dos enfermeiros de família e comunidade na atenção à adolescência. “Estamos próximos da família, conhecemos os adolescentes e participamos de ações nas escolas. Isso nos permite apoiar escolhas saudáveis, desenvolver autonomia e oferecer cuidado integral e sensível às diferentes realidades”.

O presidente da SBP, Edson Ferreira Liberal, enfatizou a necessidade de maior investimento em formação e práticas voltadas à adolescência. Ele citou o recente 17º Congresso Brasileiro de Adolescência e anunciou novas iniciativas da Sociedade, como cursos de educação a distância e produção de conteúdo para famílias. “Cuidar de adolescentes é cuidar do futuro, é promover saúde, cidadania e esperança. Reafirmo o compromisso da SBP em seguir lado a lado com a Fiocruz nessa missão”, declarou.

Representando a Direção do IFF/Fiocruz, Mariana Setúbal lembrou os 15 anos da Portaria que define o IFF enquanto Instituto Nacional em saúde da mulher, da criança e do adolescente. “Hoje é um dia importante e especial, um marco na nossa trajetória de proposição de políticas públicas e de qualificação das práticas clínicas”, ressaltou.

Encerrando a mesa, Patrícia Canto destacou o caráter simbólico da iniciativa no ano em que a Fiocruz completa 125 anos. “Essa oportunidade não termina aqui, é um legado que se constrói coletivamente. A direção do IFF/Fiocruz tem sido fundamental nesse processo, sempre aberta a dialogar e apoiar novas propostas”, disse.

Mesa de abertura (da esq para dir): Edson Liberal, Maria Gomes, Patrícia Canto, Mariana Setúbal e Thays Conti

Após a mesa de abertura, Maria Gomes apresentou um panorama da trajetória e do funcionamento do Portal, destacando sua importância para a qualificação do cuidado em saúde. Ressalta que a iniciativa nasceu em um contexto de restrição de recursos e de mudanças nas políticas públicas, como uma alternativa digital às tradicionais estratégias presenciais de capacitação.

Segundo Maria, o Portal se consolidou como ferramenta única no país para disseminar práticas baseadas em evidências e apoiar profissionais da saúde em diferentes níveis de atenção. Atualmente, a plataforma reúne mais de 45 mil usuários cadastrados e quase 9 milhões de acesso, chegando a ser utilizada inclusive em atividades coletivas de educação permanente em universidades e serviços de saúde.

Ela destacou que o Portal tem alcançado não apenas o público brasileiro, mas também profissionais de países de língua portuguesa, como Portugal, Angola e Moçambique, e já prepara esforços de colaboração com países latino-americanos. “O acesso livre e a linguagem pensada para apoiar tanto gestores quanto profissionais de saúde permitem que o conteúdo seja usado em diversos contextos, do planejamento das redes de atenção ao cuidado clínico direto”, explicou.

Entre os recursos disponibilizados, estão sínteses temáticas em formato de postagens, webinários com especialistas, que já somam cerca de 500 encontros transmitidos ao vivo, e documentos estratégicos elaborados pelo Ministério da Saúde, sociedades científicas e associações profissionais. O canal do Portal no YouTube conta hoje com quase 30 mil inscritos.

Maria também ressaltou que a expansão do Portal acompanha as políticas nacionais de saúde da mulher, da criança e, agora, do adolescente. No caso do novo eixo, os conteúdos foram organizados a partir da minuta da Política Nacional de Saúde de Adolescentes e Jovens, submetida à consulta pública. Os temas contemplam desde crescimento e desenvolvimento até saúde mental, prevenção de violências, saúde sexual e reprodutiva, condições crônicas, deficiência e vulnerabilidades sociais.

“Nosso compromisso é garantir que os adolescentes estejam no centro das ações de saúde. O portal é mais do que uma plataforma digital, é uma rede colaborativa de especialistas e instituições trabalhando pela qualificação do cuidado”, concluiu.

Na sequência, a assessora técnica da Coordenação do Acesso e Equidade da Secretaria de Atenção Primária do Ministério da Saúde, Ana Luísa Lemos, abordou a adolescência como categoria social e biológica, destacando suas dimensões biopsicossociais e os desafios da atuação em saúde pública voltada a esse grupo. Segundo ela, a forma como a sociedade concebe a adolescência impacta diretamente a forma como os jovens são vistos e atendidos, variando de “fase da rebeldia” a um período de potencialidade e individuação, no qual os adolescentes passam da dependência familiar à interdependência social.

A palestrante ressaltou ainda que o cérebro adolescente está em desenvolvimento, especialmente o córtex frontal, responsável pelo controle inibitório e pela regulação do comportamento, e que a adolescência constitui a segunda janela de oportunidades do desenvolvimento humano, marcada pela consolidação de aprendizados e vivências que repercutem por toda a vida.

Outro ponto central da apresentação foi a interseccionalidade e as desigualdades sociais que atravessam as adolescências no Brasil. Ela destacou que fatores como classe, raça/etnia, gênero, identidade de gênero e orientação sexual influenciam diretamente o acesso a direitos e a proteção social, evidenciando que nem todos os adolescentes têm as mesmas oportunidades de viver essa fase com segurança e cuidados adequados.

Palestrantes (da esq para dir): Thereza De Lamare, Denise Ocampos e Ana Luísa Lemos

A apoiadora da Coordenação de Saúde de Adolescentes e Jovens (COSAJ/CGCRIAJ/DGCI/SAPS) do Ministério da Saúde, Thereza De Lamare, apresentou um panorama sobre os principais desafios enfrentados pela saúde pública brasileira no cuidado com essa população. A gestora destacou que, apesar dos avanços na produção de indicadores e dados epidemiológicos, os números ainda revelam uma realidade de descuidado em relação às adolescências no país.

Segundo ela, as causas externas, como violências e acidentes, permanecem entre os principais motivos de morte entre jovens de 10 a 19 anos. Além disso, chamou atenção para as internações por gravidez precoce, especialmente entre meninas de 10 a 14 anos, faixa etária em que a gestação é legalmente considerada decorrente de violência sexual. Thereza ressaltou que muitas dessas situações ainda passam despercebidas pelos serviços de saúde, sem o devido encaminhamento e acompanhamento em rede.

Thereza mostrou dados recentes sobre violência física e sexual, apontando que a maioria dos casos ocorre no ambiente familiar. Ela destacou a importância da Lei nº 13.431/2017, que estabelece o sistema de garantia de direitos para crianças e adolescentes vítimas de violência, reforçando a necessidade de um atendimento intersetorial e integrado.

Ela enfatizou ainda a urgência de olhar para a saúde mental dos adolescentes, sobretudo após a pandemia, quando indicadores de tristeza, desesperança e pensamentos suicidas aumentaram significativamente. Mencionando dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), Thereza lembrou que 30% dos adolescentes relatam sentir-se tristes ou sem esperança, 10% já pensaram em suicídio e 6% tentaram tirar a própria vida.

Por fim, defendeu a importância de reconhecer a autonomia progressiva dos adolescentes, enfrentar tabus relacionados à sexualidade e fortalecer o trabalho em rede entre as políticas públicas. Para ela, é fundamental que os profissionais de saúde e gestores escutem e se aproximem dos adolescentes, compreendendo suas demandas reais e construindo práticas mais acolhedoras e integradas no território.

Encerrando as apresentações, a Coordenadora de Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e Jovens (COSAJ/CGCRIAJ/DGCI/SAPS) do Ministério da Saúde, Denise Leite Ocampos, trouxe reflexões sobre o papel dos profissionais que atuam diretamente com essa população. A gestora enfatizou a importância de uma abordagem sensível, acolhedora e comunicativa, capaz de reconhecer as diferentes fases e experiências vividas durante a adolescência.

Segundo ela, o cuidado deve ir além da simples oferta de serviços e insumos, como preservativos e métodos contraceptivos. “É preciso compreender as necessidades reais dos adolescentes, que muitas vezes se traduzem em escuta, diálogo e vínculo”, ressaltou. Denise destacou que cada jovem possui um percurso singular e múltiplas vivências, o que exige um olhar atento às interseccionalidades e aos determinantes sociais da saúde.

A palestrante também abordou a importância da escuta ativa e qualificada, da identificação de vulnerabilidades e da tomada de decisão compartilhada no atendimento. Para ela, o acolhimento deve ocorrer sem julgamentos e com comunicação clara, favorecendo o bem-estar físico, emocional e social. “Construir vínculo e confiança não acontece de um dia para o outro. É um processo contínuo que requer tempo, respeito e disponibilidade para ouvir”, afirmou.

Denise reforçou ainda o direito à saúde como um direito humano fundamental, amparado pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ao mencionar o futuro lançamento da Caderneta Digital do Adolescente, previsto até o fim do ano, ela lembrou que nenhuma norma pode restringir o acesso desse público a informações e cuidados de saúde. “O ECA é a lei maior no que se refere aos direitos de crianças e adolescentes. Garantir o acesso à informação e à atenção é parte da proteção integral”, concluiu.

Participantes reunidos ao final do evento