Especialistas questionam campanhas sobre o câncer de mama em debate no IFF

 

Nara Boechat

Todos os anos, em outubro, a população se mobiliza em campanhas de conscientização sobre o câncer de mama. Em 2015, não foi diferente. O Outubro Rosa estava espalhado pelas ruas, televisão e iluminando monumentos públicos. No entanto, apesar de importante, o movimento vem recebendo críticas devido à visão superficial de alguns grupos que reduzem a questão do controle à oferta da mamografia. Seria mesmo essa ação a ser privilegiada pela campanha? O tema foi um dos assuntos abordados na sessão geral realizada no Centro de Estudos Olinto de Oliveira, no Instituto Nacional da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), organizada pelos pesquisadores Luiz Antônio Teixeira, Claudia Bonan e Andreza Nakano. Com o título “A Mulher e o Câncer de Mama no Brasil”, a sessão que contou com a participação do médico Ronaldo Silva, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), da pesquisadora Ilana Lowy, do Instituto Nacional Francês de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm/França), e com a mediação da mastologista do IFF, Viviane Ferreira Esteves.

O câncer de mama é o tipo mais comum entre as mulheres em todo o mundo, representando mais de 25% de todos os casos. No Brasil, o tipo é mais frequente nas regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste e Nordeste, o que seria relacionado ao estilo de vida e ambientes mais urbanizados. O Sudeste e Sul registram as maiores taxas de mortalidade.

 
O médico Ronaldo Silva mostra algumas das campanhas do outubro rosa

Analisando o contexto histórico e local, os palestrantes falaram sobre as ações de controle da doença e a desinformação sobre essas ações. “Sou a favor da campanha, mas de nada adianta colocar o laço rosa, sem ter o conhecimento”, disse o médico Ronaldo Silva, que acredita no contexto local como melhor método de rastreamento, diagnóstico e tratamento da doença. “Há diferentes tipos de tumores do câncer de mama, uns mais agressivos e outros menos. Mas a crença de que o tumor é se apresenta da mesma forma está em praticamente todas as divulgações da campanha”. Devido ao tamanho do Brasil, há diferentes contextos, como os sociais, financeiros e culturais, o que dificulta fazer uma única recomendação para o rastreamento do câncer de mama, segundo Ronaldo.

A pesquisadora Ilana Lowy mostrou que as propagandas e campanhas focadas na prevenção como único método de combate ao câncer de mama persistiram por muito tempo. Ela explicou que essas propagandas indicavam que se a detecção ocorresse cedo possibilitaria a cura. “As campanhas são muito apelativas. Há alguns anos, algumas propagandas chegavam a culpar a mulher pela doença”.

De acordo com a pesquisadora, apesar da importância da prevenção, o tempo de diagnóstico e a escolha do tratamento faz diferença. “O uso indiscriminado da mamografia vem aumentando o tratamento de alterações da mama que, em muitos casos, não viriam a se transformar em câncer”

Ao final das palestras, a mastologista Viviane Ferreira Esteves disse que as mudanças em relação à eficácia e aos riscos das diferentes formas de diagnóstico foram muito recentes. “Qualquer quebra de paradigma é difícil. A nossa tarefa hoje, como uma instituição de pesquisa, é pegar o que escutamos, questionar e passar isso adiante. Será que não precisamos olhar para a nossa população com outros olhos?”, concluiu ela.