Agenda Laranja do IFF/Fiocruz realiza reflexões sobre o suicídio

 

O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou no dia 26/9, a décima sessão da Agenda Laranja, iniciativa que promove desde 2016 a construção de uma cultura institucional voltada ao enfrentamento às várias formas de violência contra mulheres e meninas. Devido ao movimento iniciado em 2015, conhecido como Setembro Amarelo, mês mundial de prevenção do suicídio, o encontro, organizado pelos professores e pesquisadores do Instituto Marcos Nascimento e Corina Mendes, teve como tema Sobre os limites da vida: reflexões sobre o suicídio.

O mestre em Ciências pelo programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher do IFF/Fiocruz e membro da diretoria da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídio (ABEPS) Carlos Felipe D’Oliveira iniciou a discussão falando sobre A Prevenção do Suicídio e as Diretrizes da Estratégia Brasileira. Para contextualizar, Carlos Felipe definiu o suicídio como um fenômeno complexo, não linear, não inteiramente previsível e que é afetado por diversas variáveis no meio social em que está inserido. Para ele, esta visão é fundamental para compreendermos, além de sua abordagem, as estratégias de possíveis intervenções no tema, onde os primeiros relatos nos levam à Antiguidade, mais precisamente ao século XVII. “O pensamento dos filósofos gregos de que a vida não nos pertence, mas sim à divindade que nos concedeu continuou no pensamento cristão. Da mesma forma o pensamento aristotélico de que pertencemos à sociedade e, portanto, suicidarmo-nos, lesaria ao mesmo tempo esse todo no qual estamos inseridos”, explicou ele.

Outro conceito que vem da Antiguidade e foi destacado durante a palestra, foi o da covardia, pelo suicídio ser visto como um ato semelhante à deserção. “No pensamento cristão de Tomás de Aquino e Santo Agostinho o suicídio é amplamente condenado devido a tríplice ofensa – a si mesmo, a cidade e a Deus. Nesse contexto, vem desde Platão a justificativa religiosa de proibição do enterro de suicidas nos cemitérios, como uma punição pela “debilidade e covardia”, e daí o sepultamento longe dos demais nos cemitérios. Assim, vemos como era intensa a força política dos filósofos que influenciavam as leis e as normas da sociedade antiga”, observou ele.

De acordo com Carlos Felipe, o primeiro registro da separação entre a ideia medieval da morte autoinfligida e a ideia da melancolia surgiu em 1621, onde o suicídio passou de um cenário religioso, em que era tido como um pecado, para outro universo cultural, em que começou a ser entendido como um distúrbio de fundo somático. “Importante registrar o pensamento do filósofo Kant contra o suicídio, uma vez que “o dever do homem racional é, pois, preservar sua vida”. E, assim, podemos pensar qual o dever da sociedade em relação à preservação da vida de cada um. Se temos a humanidade dentro de nós, como diz a tradição judaica “salvar um é como salvar todos””, ponderou ele.

O palestrante explicou que o suicídio é um problema de saúde pública, pois tem implicações tanto na vida privada quanto na pública, e que tratar desta forma contribui para levar o tema para dentro da sociedade. “Embora o suicídio se dê no corpo do indivíduo, ele ocorre dentro de um corpo social, como uma família, uma comunidade, o local de trabalho ou a escola, afetando os demais”, esclareceu ele.

O suicídio como uma questão de comunicação também foi um dos tópicos abordados. Carlos Felipe comentou que o individuo que tenta o suicídio ou se suicida está tentando comunicar este sofrimento, e que homens e mulheres manifestam distintas formas de comunicação na sociedade. “A diferença entre as taxas de suicídio e de tentativas entre mulheres e homens também reforça esta tese, uma vez que existe um paradoxo de gênero na questão dos suicídios, onde homens se suicidam mais, embora as mulheres façam mais tentativas. Este é um debate muito interessante porque ajuda a ampliar o consenso em torno de como a mídia deve orientar o tema e como a sociedade pode e deve se autoproteger”, declarou ele.

O pesquisador revelou que, como consta no Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), muitos suicídios ocorrem impulsivamente e, em tais circunstâncias, o fácil acesso aos meios – como pesticidas ou armas de fogo – pode fazer a diferença se uma pessoa vive ou morre. Já sobre o controle dos meios, destacou a criação de barreiras visíveis ou invisíveis como uma iniciativa eficaz na prevenção do suicídio. “Podem ser controles físicos, como redes de proteção; barreiras invisíveis, como comunicações que desestimulem o ato; controle humano, pela capacitação de pessoas que atuem no local; ou controle por meio de legislação e fiscalização de produtos potencialmente letais”, pontuou ele.

Entre as populações mais vulneráveis e com maior risco ao suicídio, Carlos Felipe listou as que são mais atingidas por crises econômicas; pessoas com transtornos psíquicos; pessoas que já realizaram tentativas de suicídio; populações internadas em instituições de longa permanência; jovens que vivem nas ruas, como mulheres jovens grávidas, e jovens vitimas de violência intrafamiliar e sexual; usuários de álcool e drogas; pessoas com doenças crônico-degenerativas; grupos de jovens indígenas; trabalhadores agrícolas expostos a praguicidas e indivíduos isolados e excluídos da sociedade.

Para evitar a invisibilidade do problema e sua prevenção específica, o palestrante sugeriu que, em âmbito nacional, seja feito um plano com metas regionalizadas, pois para ele, para lidar com realidades e recursos diversos, é preciso conhecer os parceiros e realizar intervenções diferenciadas. “A taxa do Brasil hoje é de 5,7 mil suicídios por 100 mil habitantes, pela OMS é considerado baixo, mas a taxa entre os jovens em Porto Alegre e Teresina já está em torno de 15 mil casos por 100 mil habitantes, então essas são populações de risco e as taxas se escondem na taxa média. Não importa a média geral, importa saber onde estão as populações que possuem taxas elevadas de suicídio, porque só assim poderemos intervir”, alegou ele.

Antes de finalizar, o pesquisador alertou que embora como membro da diretoria da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção de Suicídio (ABEPS) tenha feito um trabalho em parceria com o Facebook para incluir palavras-chaves no meio de conversas quando aparecem questões relevantes sobre o suicídio, as mídias sociais ainda são um desafio, pela velocidade, alcance e impacto na sociedade. “O suicídio passou a chamar a atenção de gestores, profissionais de saúde e pesquisadores das instituições acadêmicas. O tema estava escondido, hoje temos para a agenda e precisamos avançar. Mesmo com todo o suporte pode acontecer um caso de suicídio e todo mundo pode atuar no campo da prevenção. Trata-se de um equívoco voltarmos a colocar esse fenômeno na invisibilidade”, encerrou ele.

Na sequência, a historiadora e antropóloga, professora associada do Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Maria Luiza Heilborn falou sobre O suicídio sob a perspectiva das Ciências Sociais, e já no começo comentou da dificuldade em explorar os casos. “Há indicações no manual da OMS de não informar o local do suicídio para não virar um ponto de peregrinação e um motivo. Então, quando se pretende fazer uma pesquisa sobre o tema, encontramos vários problemas, exceto as taxas declaradas. Para saber as circunstâncias do caso, é praticamente impossível”, afirmou ela.

A historiadora explicou que, em geral, ocorre uma sensibilização maior com os suicídios de jovens do que os de idosos porque tem toda uma ideia de que se desperdiça uma vida, no sentido de perder vidas produtivas que deveriam ser “aproveitadas” para existirem e produzirem. “Essa ideia eu queria relativizar, pois os jovens viveram muito pouco, possuem pouca experiência e a vida mostra que devemos nos reerguer após as crises, reelaborando as dificuldades. Eu não vejo pelo lado da maximização produtiva da vida, mas no sentido da experiência de viver”, constatou ela.

Dando continuidade, Maria Luiza contou que o seu envolvimento com a temática tem a ver com uma preocupação teórica em relação à questão de autonomia sobre a própria vida, que é uma marca da contemporaneidade. “As causas complexas que levam ao suicídio são morte social, luto pela perda de um objeto amoroso, que acontece muito entre adolescentes e jovens, a perda de autonomia física e intelectual e os idosos sem auxílio para assistência, sem filhos e, sobretudo, quando o marido é o cuidador, pois normalmente o homem não foi socializado para cuidar, a não ser que seja um profissional do cuidado”, informou ela.

Sobre a diversidade cultural, a professora chamou a atenção para os casos da sociedade indígena Suruwaha e entre os indianos da religião jansenista. Ambos possuem uma elevada taxa de suicídio por serem adeptos do fenômeno, no primeiro exemplo por motivos simples, onde a sociedade vive mobilizada em torno do suicídio e tudo é razão para tirar a vida, principalmente, por envenenamento, e no segundo por ser considerada uma prática que visa o desenvolvimento espiritual, um ato de extrema sabedoria de passagem para uma outra vida. “As mulheres tentam mais suicídio do que os homens e o método escolhido é diferente. Há toda uma teoria de que as mulheres não querem se desfigurar, por isso, se defenestram mais por envenenamento”, concluiu ela.

Para encerrar o debate, a psicóloga, pesquisadora do Centro Latino Americano de Violência e Saúde (ENSP/Fiocruz) e professora do programa de Pós-Graduação em Saúde da Criança e da Mulher do IFF/Fiocruz Joviana Quintes Avanci ressaltou que no Brasil, existem grupos muito vulneráveis, especialmente, entre os adolescentes e idosos. “A visibilidade que o suicídio tem hoje é muito diferente de alguns anos atrás, muito alavancado também pelas estatísticas, chamados da OMS, mostrando a relevância do fenômeno no mundo”, considerou ela.

A psicóloga comentou que, com base em estudos que vêm realizando sobre a temática, os fatores que vulnerabilizam as famílias e que precisam de mais atenção, são o abuso sexual, transtornos mentais, violência entre parceiros íntimos, população LGBT e suicídio geracional, onde uma família possui mais de um caso. Joviana sinalizou que é um sofrimento muito grande para quem faz a tentativa, mas também para os afetados. “Quando falamos de adolescentes, o medo dos sobreviventes requer uma vigilância constante. Isso gera uma reorganização familiar e muitos pais precisam parar de trabalhar para dar mais atenção aos outros filhos. A dimensão de um evento desses na família é muito grande e delicada”, ponderou ela.

Como prevenção, a psicóloga disse que o foco deve estar nos serviços de saúde mental e na importância da rede de solidariedade, que protege e muito as pessoas. “Saber ouvir e acolher em momentos críticos faz toda a diferença”, finalizou ela.

Mais informações:

- Suicídio na infância e adolescência: é preciso romper o silêncio
Entrevista com o pediatra e psiquiatra da infância e adolescência do IFF/Fiocruz, Orli Carvalho.

Cartilha Falando Abertamente sobre Suicídio.

Perfil epidemiológico das tentativas e óbitos por suicídio no Brasil e a rede de atenção à saúde (2017).

Diretrizes Nacionais para Prevenção do Suicídio (2006).

Durante o mês de setembro, o Castelo Mourisco da Fiocruz ficou iluminado com a luz amarela, pelo terceiro ano consecutivo, em adesão à campanha de prevenção ao suicídio, promovida em parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV).

Serviço:

- O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente 23 estados. Pelo telefone (188), os cidadãos têm assistência, sob total sigilo, em momentos de crise e auxílio para prevenção ao suicídio: https://www.cvv.org.br/