16ª Jornada de Enfermagem em Saúde da Mulher debate violência, direitos e desafios no cuidado 


O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, em 19 de agosto, o primeiro dia da 16ª Jornada de Enfermagem em Saúde da Mulher. Organizada pelos coordenadores da Pós-Graduação 
Lato sensu em Enfermagem na Atenção à Saúde da Mulher do IFF/Fiocruz, Paulo São Bento e Rozânia Xavier, a Jornada tem como tema “Gênero, corpos e direitos: duas décadas da Lei Maria da Penha e os desafios no cuidado às mulheres”. 

Na abertura, Rozânia Xavier destacou a trajetória da Jornada, realizada desde 2008, como espaço de encontro, troca de conhecimentos e reflexão sobre a saúde das mulheres. A escolha do mês de agosto também dialoga com o Agosto Dourado, dedicado à promoção, proteção e apoio ao aleitamento humano, e com o Agosto Lilás, voltado à conscientização, prevenção e enfrentamento da violência contra as mulheres.  

Ao abordar o tema desta edição, Paulo São Bento ressaltou que a escolha da violência contra as mulheres ganha relevância no contexto dos 20 anos da Lei Maria da Penha, completados em 7 de agosto. Para ele, a violência contra as mulheres permanece como um grave problema de saúde pública e está relacionada às desigualdades de gênero presentes nas estruturas sociais. Ele chamou atenção ainda para o caráter persistente e, muitas vezes, naturalizado dessas violências, que assumem diferentes formas e continuam produzindo consequências graves para milhares de mulheres. 

A mesa de abertura reforçou a importância da enfermagem na identificação e no acolhimento de situações de violência. A gestora da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Mulher do IFF/Fiocruz, Raquel Fonseca, iniciou a mesa frisando que o cuidado não pode se limitar ao diagnóstico ou ao procedimento e defendeu uma abordagem integral, baseada em escuta qualificada, respeito às escolhas e garantia de direitos. “Somos quem escuta, quem acolhe, quem observa aquilo que nem sempre é dito. Por isso, cuidar de mulheres também significa reconhecer sinais de violência”.  

A gestora da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Gestante do Instituto, Aricele Santos, por sua vez, falou sobre o papel dos trabalhadores do Instituto na formulação e implementação de políticas públicas e a necessidade de transformar práticas cotidianas de atendimento. “Somos agentes de transformação. Cada um que está aqui como representante da saúde tem a capacidade de fazer a diferença na vida de alguém”. 

Representando a Direção do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO), Rachel Niskier reconheceu a importância da Jornada e afirmou ser uma honra para o espaço ser palco de eventos como esse. “O Centro de Estudos abriga, há mais de 85 anos, eventos e jornadas do Instituto. Parabenizo os organizadores pelo trabalho”. 

Finalizando a mesa, a responsável técnica de Enfermagem, Paloma Acioly, salientou que a enfermagem acompanha as mulheres em diferentes momentos da vida, do pré-natal à assistência ginecológica, podendo também ser um espaço de identificação de situações de violência. “Uma jornada como essa nos permite ampliar o nosso olhar, compartilhar conhecimentos e refletir sobre como nossas práticas podem contribuir para o cuidado cada vez mais seguro, humano e comprometido com o direito das mulheres”. 

Mesa de abertura (Foto: Bruno Guimarães) 

A programação também marcou a trajetória de uma profissional que contribuiu para a construção da assistência à saúde da mulher no Instituto. Durante a tradicional Cerimônia da Lâmpada, que simboliza a enfermagem e faz referência a Florence Nightingale, a enfermeira aposentada Katia Sydronio foi homenageada. Ela foi a segunda enfermeira a receber uma Menção Honrosa pela Jornada, no compromisso de uma agenda que pretende manter as homenagens a cada ano. Katia iniciou sua trajetória profissional no IFF/Fiocruz em 1982 e permaneceu por quase quatro décadas na instituição, com atuação especialmente voltada à saúde da mulher. Sua jornada inclui a atuação nos ambulatórios, no pré-natal de alto risco, na ginecologia, na saúde sexual e reprodutiva e no Banco de Leite Humano, além da contribuição para a pesquisa institucional. 

Ao acender a lâmpada, Katia destacou o simbolismo do gesto e a importância de manter viva a “chama” da enfermagem. Em sua fala, também resgatou a necessidade de preservar a identidade dos profissionais enquanto trabalhadores do IFF, da Fiocruz e do SUS. A homenagem reconheceu uma trajetória marcada pelo compromisso com a formação, a pesquisa e um cuidado mais humano, integral e acolhedor. 

Katia Sydronio (Foto: Bruno Guimarães) 

 

Interseccionalidade amplia debate sobre violência contra as mulheres 


O painel “Interseccionalidades e produção da violência na sociedade brasileira” aprofundou a discussão sobre como diferentes marcadores sociais se cruzam na experiência das mulheres e influenciam tanto as situações de violência quanto o acesso aos serviços de saúde. Mediado pelo enfermeiro do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ), Rodrigo Oliveira, o encontro reuniu a enfermeira e representante do Conselho Regional de Enfermagem (Coren), Caroline Moraes; a assistente social e gerente de Trabalho e Assistência da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, Dejane Nascimento; e a assistente social do IFF/Fiocruz, Aline Martins. 
 

Na abertura do painel, Rodrigo Oliveira frisou a importância de reconhecer os diferentes lugares ocupados pelos participantes na discussão sobre gênero. Ao se apresentar como homem cis e profissional de enfermagem, apontou que, em uma categoria formada majoritariamente por mulheres, sua participação deveria ser marcada sobretudo pela disposição para ouvir, compreender e repensar seu próprio lugar diante das assimetrias históricas de poder. A partir de sua experiência na atenção psicossocial, também alertou para a maior ocupação de leitos femininos e para o tempo de permanência das mulheres nos serviços, relacionando esses dados às expectativas sociais que fazem com que elas precisem retomar rapidamente suas funções de cuidado e responsabilidades familiares.  

Os desdobramentos da raça/cor na perpetuação da violência e seus impactos no cuidado em saúde foram abordados por Caroline Moraes. A enfermeira iniciou sua exposição questionando o que, de fato, os serviços de saúde conseguem enxergar quando uma mulher chega após sofrer uma violência. Segundo ela, a formação dos profissionais, muitas vezes orientada por uma lógica biomédica, pode fazer com que o olhar se concentre no corpo e nas marcas físicas, como hematomas, sem necessariamente alcançar as condições sociais, emocionais e raciais que atravessam aquela experiência. A questão colocada por Caroline foi, portanto, como ampliar o cuidado para além daquilo que é imediatamente visível.  

A partir dos 20 anos da Lei Maria da Penha, Caroline destacou que, embora a legislação represente um avanço importante, ainda existem desafios relacionados à prevenção da violência e ao acesso das mulheres à rede de proteção. Ela chamou atenção para a distribuição desigual de delegacias especializadas, casas de acolhimento e outros serviços, além das dificuldades enfrentadas pelas mulheres para denunciar as agressões. Nesse cenário, ressaltou a importância dos serviços de saúde, tanto especializados quanto da atenção primária, como espaços estratégicos para identificar situações de violência e estabelecer vínculos com as mulheres e seus territórios.  

Caroline relacionou ainda a violência contra as mulheres ao conceito de interseccionalidade, frisando que raça, classe, gênero e sexualidade não atuam de maneira isolada, mas se cruzam e podem ampliar situações de vulnerabilidade. A palestrante alertou especialmente para a experiência das mulheres negras, que enfrentam maiores riscos de violência e podem receber respostas diferentes dos serviços de saúde. Na atenção psicossocial, por exemplo, apontou que comportamentos de mulheres negras podem ser interpretados de maneira distinta daqueles apresentados por mulheres brancas, fazendo com que a agressividade seja mais facilmente associada a sintomas de transtornos mentais e resulte em maior exposição a contenções e medicalização. 

A discussão avançou para o racismo institucional, entendido por Caroline como um conjunto de barreiras, normas e práticas que pode produzir desvantagens mesmo quando não existe uma intenção racista explícita. A palestrante provocou os profissionais a refletirem não apenas sobre a violência que levou uma mulher ao serviço de saúde, mas também sobre a maneira como ela é recebida. Como caminho para enfrentar essas desigualdades, Caroline argumentou sobre a necessidade de uma prática de cuidado antirracista, que reconheça as diferenças existentes entre as mulheres e busque responder a elas a partir da equidade. 

Na sequência, Dejane Nascimento trouxe para o painel a discussão sobre mulheres com deficiência e violência, ressaltando que a deficiência também precisa ser compreendida dentro de uma perspectiva interseccional. A assistente social frisou que não existe uma única experiência de deficiência: mulheres com deficiência também podem ser negras, periféricas, LGBTQI+ ou pertencer a outros grupos que enfrentam desigualdades. Por isso, para ela, as políticas públicas e as práticas de cuidado precisam considerar o cruzamento desses diferentes marcadores. 

No caso das mulheres com deficiência, Dejane apontou barreiras adicionais para proteção e denúncia, como dependência física ou financeira, dificuldades de comunicação, falta de acessibilidade, isolamento social, ausência de informação acessível, preconceito e capacitismo. Segundo ela, essas barreiras precisam ser consideradas pelos profissionais de saúde e assistência social, inclusive quando a deficiência não é imediatamente perceptível. A profissional explicou que perguntar sobre a deficiência também deve fazer parte da abordagem qualificada, e não depender apenas daquilo que o profissional consegue identificar visualmente.  

Outro aspecto abordado foi a necessidade de fortalecer a rede de proteção e o conhecimento sobre os territórios. Dejane destacou que os profissionais precisam saber para onde encaminhar as mulheres e famílias atendidas, conhecer os serviços disponíveis e compreender as barreiras específicas existentes em cada território. Também apresentou iniciativas de prevenção e educação, defendendo que o enfrentamento da violência precisa começar antes que ela aconteça e incluir crianças, adolescentes, famílias e profissionais.  

Encerrando o painel, Aline Martins abordou as assimetrias de gênero nas esferas pública e privada e suas repercussões na violência estrutural. A assistente social falou sobre como a violência estrutural se manifesta por meio de estruturas sociais, econômicas e políticas que produzem opressão, exploração e desigualdades. Por ser historicamente construída e naturalizada, essa forma de violência muitas vezes permanece invisível. Aline ressaltou, porém, que aquilo que foi construído historicamente também pode ser desconstruído, colocando os profissionais e a sociedade como agentes importantes nesse processo.  

A palestrante expôs como as assimetrias de gênero são reproduzidas no cotidiano, especialmente na divisão do trabalho doméstico e de cuidado. A partir de situações corriqueiras, discutiu como mulheres são socializadas para abrir mão dos próprios projetos, sonhos, tempo e autocuidado em benefício de outras pessoas. Esse processo, segundo Aline, contribui para a chamada “romantização da exaustão feminina”: a mulher que consegue trabalhar, cuidar da casa, dos filhos e de outras pessoas é frequentemente vista como “guerreira”, enquanto a necessidade de descanso ou de cuidado consigo mesma pode ser interpretada como egoísmo.  

A discussão também alcançou o mercado de trabalho, a produção acadêmica e os espaços de poder. Aline mostrou que as desigualdades não terminam quando as mulheres deixam o ambiente doméstico. Elas também aparecem na ocupação de cargos de liderança, na remuneração, no reconhecimento profissional e na possibilidade de dedicar tempo a projetos pessoais. A sobrecarga doméstica, nesse sentido, pode limitar o acesso das mulheres ao mercado de trabalho, reduzir sua renda e comprometer até mesmo as possibilidades de autocuidado.  

Ao final, a assistente social defendeu mudanças que envolvam tanto as relações cotidianas quanto as instituições e as políticas públicas. Entre as medidas apontadas estão o estímulo ao cuidado compartilhado, a criação de políticas de apoio à parentalidade, a ampliação de creches e escolas em tempo integral, a promoção da igualdade salarial, a presença de mulheres em espaços de liderança, o combate aos estereótipos de gênero e a responsabilização diante de situações de violência. A proposta, segundo Aline, não é inverter a lógica de desigualdade, mas construir relações sociais mais justas, nas quais mulheres e homens compartilhem responsabilidades e tenham as mesmas possibilidades de autonomia, participação e realização.  

Da esq. para dir.: Dejane Nascimento, Aline Martins, Rozânia Bicego, Paulo São Bento, Caroline Moraes e Rodrigo Oliveira (Foto: Bruno Guimarães) 

Ao longo do primeiro dia, as discussões convergiram para a necessidade de reconhecer que o enfrentamento à violência contra as mulheres ultrapassa a criação de leis e protocolos. O evento continua no dia 26/8, com uma vasta programação, incluindo temas como violência obstétrica, aleitamento humano, violência contra profissionais da enfermagem, entre outros.