Um olhar cuidadoso para o bebê e a mulher que amamenta

Uma parte do Encontro de Bancos de Leite Humano, Postos de Coleta e Postos de Recebimento do Estado do Rio de Janeiro, realizado pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) na última segunda-feira (18/12), foi dedicada a tratar do manejo da amamentação e de situações que podem dificultar a prática, seja do ponto de vista da mãe ou do bebê.

A obstetra da Área de Atenção Clínico-Cirúrgica à Gestante do IFF Augusta Assunção ministrou a palestra “Cuidados com a mama puerperal”. Ela iniciou sua fala explicando a anatomia e a fisiologia das mamas e da amamentação como compreendidas nos dias atuais, e argumentou que, embora a maioria das mulheres apresente a capacidade fisiológica de produzir leite, amamentar é um ato cultural, que precisa ser ensinado. Ela defendeu que alguns passos devem ser realizados para evitar possíveis problemas no período da amamentação, sendo o primeiro deles a orientação que deve ser dada à mulher sobre a pega e a posição de amamentar. “É importante respeitar a privacidade da mulher. Primeiro conversar, orientar, ajudá-la a conhecer sua mama. E dizer que tanto mamas grandes quanto pequenas produzem leite suficiente para o bebê”, afirmou.

Augusta destacou também a necessidade de tranquilizar a mulher, para que ela possa produzir ocitocina, hormônio que auxilia na ejeção do leite materno, e das boas práticas de cuidado com a mama. Segundo ela, pomadas, conchas e outros utensílios comercializados como auxiliares da amamentação podem, na realidade, atrapalhar o processo. “Banhos de sol diários e a limpeza e hidratação com a utilização do próprio leite são medidas que previnem complicações mamárias”, concluiu.

A odontopediatra e doutoranda da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz) Clarissa Brandão apresentou resultados de suas pesquisas de mestrado e doutorado sobre a influência da frenotomia – um tipo de cirurgia que corrige o freio lingual – no aleitamento materno. Instigada por sua experiência como odontopediatra e sua vivência de amamentar um filho que nasceu com a “língua presa”, Clarissa iniciou seus estudos para compreender de que formas essas anomalias no freio lingual poderiam interferir na amamentação, analisando não apenas o aspecto anatômico, mas o seu desempenho funcional. “Se há um problema de freio lingual, desde a 12ª semana de vida intrauterina o feto já não tem o padrão de deglutição ideal”, afirma.

Segundo Clarissa, de acordo com ampla pesquisa na literatura científica mais atualizada, mulheres que têm filhos com problemas de freio lingual, em geral, sofrem com fortes dores no mamilo; já nos bebês, algumas das consequências costumam ser a baixa ingestão calórica, decorrente da sucção ineficiente, e episódios de refluxo. Hoje Clarissa realiza cirurgias em bebês para correção de problemas do freio lingual com o objetivo de melhorar suas funções, entre elas, a amamentação. “Dói operar um recém-nascido, mas só fazemos isso quando temos certeza de que a criança precisa. A frenotomia pode sim estar associada à melhora da dor mamilar e ao sucesso do aleitamento materno”, finalizou a pesquisadora.

No turno da tarde, o evento teve, ainda, a palestra intitulada “A influência das morbidades maternas nos constituintes do leite humano”, ministrada pela nutricionista e doutoranda em Saúde da Mulher e da Criança pelo IFF Yasmin Villarosa.