Novembro Roxo: A prematuridade em destaque

 

A Área de Atenção Clínica ao Recém-Nascido do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) celebrou, em 26/11, o Novembro Roxo, mês que destaca a prematuridade. Sob a coordenação das gestoras da Unidade Neonatal do instituto, Karla Pontes, Cynthia Amaral, Marcelle Araújo e Edneia Oliveira, o evento reuniu profissionais de saúde para tratar o tema. De acordo com relatório lançado, em dezembro de 2018, pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e Organização Mundial da Saúde (OMS), por ano cerca de 30 milhões de bebês nascem prematuros em todo o mundo. “A média mundial de nascimento de prematuros é de 10%, sendo que no Brasil a taxa chega a 12%, o que faz do nosso país o 10º no ranking de nascimentos de prematuros. Portanto, para chamar atenção sobre o grande número de partos prematuros e de como preveni-los, em novembro são realizadas ações de sensibilização, sendo o dia 17 considerado o Dia Mundial da Prematuridade”, informou Karla.

Para iniciar a mesa de abertura, Cynthia saudou os presentes. “Temos conseguido bons resultados com os prematuros e desejamos compartilhar com todos nossa história e experiências”, falou ela. Com a palavra, a responsável técnica de enfermagem do IFF/Fiocruz, Claudia Alexandre, contou a sua relação com o tema. “A Neonatologia sempre teve o papel de compartilhar conhecimentos e isso se reflete nesse evento. A prematuridade me toca muito, porque tive dois filhos prematuros, então vivenciei os dois lados, o que foi muito importante na minha construção profissional”, afirmou ela. Para encerrar a mesa de abertura, a coordenadora de Atenção à Saúde do IFF/Fiocruz, Dolores Vidal, elogiou o trabalho da Neonatologia. “Esse ano foi de muitas vitórias e conquistas, como o repensar de práticas que sejam mais qualificadas e eficientes, a integração com outras áreas desde a gestação e a inserção da família no processo. Seguimos sempre repletos de desafios para que a equipe, crianças e suas famílias sejam cada vez mais cuidadas”, ressaltou ela.

A seguir, a enfermeira do IFF/Fiocruz Tatiana Gomes abordou O cuidado neonatal em uma perspectiva histórica, e declarou que a história da Neonatologia é algo que muitas vezes passa despercebida. “Olhar a nossa história faz a gente valorizar e compreender aonde estamos e para onde vamos”, observou ela. Tatiana explicou que, no século 16 e 17, as crianças não eram visualizadas como membro familiar, pensamento que perdurou até meados do século 18. “Só depois disso, as crianças passaram a ser vistas, não mais como um adulto em miniatura, mas como um indivíduo com necessidades individuais, diferentes de um adulto, entendidas como membro da família e, sobretudo, porque precisavam de pessoas para lutarem em futuras guerras”, analisou ela.

Nesse contexto, a enfermeira alegou que o cuidado voltado ao prematuro e a alta taxa de mortalidade infantil ganharam destaque no intuito de avanço populacional, principalmente na França e nos Estados Unidos que são locais frios, motivo pelo qual a maioria das crianças prematuras faleciam nas primeiras horas de vida. “A hipotermia (queda da temperatura do corpo), junto a alimentação e prevenção de infecções, acabava sendo o grande problema na época, pois as crianças não tinham o cuidado necessário. Então, maneiras foram pensadas para promover calor ao recém-nascido, como banhos quentes e óleo aquecido, até chegar a incubadora, equipamento utilizado para propiciar calor e manter a temperatura”, comentou ela.

Em torno de 1878, ao fazer uma visita a um zoológico de Paris, o obstetra francês Stéphane Tarnier visualizou o uso de incubadoras para eclosão de ovos de aves com o princípio de manutenção de calor e temperatura, já colocado em prática pelo menos há 50 anos por quem trabalhava com agricultura. “A incubadora, maior instrumento de cuidado tecnológico neonatal, veio de experimentos feitos com aves e ovos de aves. Tarnier encomendou um modelo semelhante a ser usado para os recém-nascidos prematuros na França”, mencionou Tatiana.

A enfermeira pontuou que, por volta de 1930, a questão da prematuridade era tão importante em solo norte-americano que foi determinada uma lei na qual nenhum prematuro poderia nascer em casa sem assistência. “Talvez foi o grande divisor de águas para a institucionalização do parto prematuro dentro do hospital”, avaliou ela, que citou algumas datas que marcaram a história da Neonatologia. “Em 1960, o termo Neonatologia começou a ser usado em livros. Já em 1975, a Neonatologia passou a ser certificada como subespecialidade da pediatria, e em 1983, teve início a certificação para a enfermeira neonatal”, esclareceu ela.

Ao refletir a história da Neonatologia, Tatiana questionou sobre os avanços e retrocessos, como cuidados na prevenção de infecção, implementação do uso de máscara, luvas e gorro, discussão para o mínimo manuseio e incentivo ao aleitamento materno, que já existem há cerca de 100 anos. “Avançamos pouco ao longo do tempo, algumas das técnicas continuam iguais, e quando fazemos um comparativo de atenção ao recém-nascido, em torno de 50 anos a tecnologia ganhou vez e o bebê perdeu o olhar mais voltado só para ele. Vamos refletir até que ponto precisamos aliar o cuidado ao recém-nascido e a tecnologia no próximo século”, alertou ela, que completou. “Se entendemos que há 100, 200 anos a discussão da hipotermia neonatal já era imensa, será que é admissível hoje, em 2019, ainda termos uma taxa de mortalidade por hipotermia neonatal tão elevada? A partir dessa história poderemos refletir melhor sobre a nossa assistência”, concluiu ela.

Dando continuidade, a paciente Marcela Roberta, mãe de prematuro nascido no Instituto, iniciou a mesa-redonda Não foi isso que planejei, mas aconteceu: vivências maternas diante da prematuridade. “Ser mãe de prematuro é uma luta e uma insegurança por dia, mas hoje meu filho está bem, é um espoleta, e eu agradeço a mãe e a mulher que me tornei, além de toda a equipe que sempre me deu todo suporte”, disse emocionada. Na sequência, a enfermeira do IFF/Fiocruz Milene Lucio da Silva, também mãe de prematura, contou sobre a sua experiência. “Vamos desenvolvendo o bebê imaginário, idealização do parto, mas isso tudo foi descontruído de uma maneira repentina. Ao se deparar com o bebê real, ficamos com o sentimento de medo, impotência e muitas dúvidas. Os fatores fundamentais que me fizeram sentir mãe, participante do processo e parceira da equipe, foram: acolhimento, orientação, empoderamento, humanização, incentivo, parceria, escuta e estímulo, além da rede de apoio, que é muito importante, pois nesse momento nos sentimos fragilizada. Sozinha eu não teria conseguido”, frisou ela, que finalizou deixando uma mensagem. “Minha filha ficou bem e eu resolvi fazer a faculdade de enfermagem e a residência. A mensagem que eu gostaria de passar é que a UTI Neonatal é apenas o início de uma vida, e os cuidados que prestamos vai impactar na vida futura. Então, vamos acolher, humanizar nosso ambiente e prestar um cuidado cada vez melhor centrado na família. O futuro está nas nossas mãos!”, encerrou ela.

Durante o encontro, outros temas também foram abordados, como: O ambiente da Unidade de Terapia Intensiva Neonatal; Neuroproteção e mínimo manuseio no cuidado neonatal; Posicionamento no pré-termo: impactos no desenvolvimento; e Dor processual e as intervenções não farmacológicas para o alívio da dor no cuidado com o recém-nascido pré-termo.