Com a missão de promover saúde para mulher, criança e adolescente e fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS), o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) promoveu, na última semana, mais uma edição da aula inaugural do Ensino, que teve como principal objetivo repensar o cuidado na perspectiva dos cursos da vida. Para coroar o momento, contamos com presença da professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Guita Grin Debert.
A professora iniciou a sua apresentação distinguindo curso da vida e ciclo da vida, segunda ela, na modernidade, o ciclo da vida perde sentido, uma vez que as conexões entre vida pessoal e troca entre gerações se quebram. Já o curso da vida se transforma em um espaço de experiências abertas, e não de passagens ritualizadas de uma etapa para outra. “Tratar das mudanças no curso da vida é, de certa forma, repensar o que está acontecendo em nossa sociedade”, afirmou Debert.
A preocupação com o cuidado tem marcado boa parte das sociedades contemporâneas, particularmente quando se pensa no envelhecimento populacional e se imagina um déficit de cuidados, dada a perspectiva de um número insuficiente de cuidadores para atender uma quantidade crescente de idosos dependentes. Essa preocupação tem despertado um grande interesse em pesquisas e reflexões voltadas para questões relacionadas ao cuidado. Nesse sentido, a pesquisadora afirma: “é preciso trazer o cuidado para a democracia e, ao mesmo tempo, democratizar o cuidado. ” Ainda sobre o cuidado, a antropóloga provoca uma reflexão sobre os novos estilos de vida dos idosos e a possibilidade de envelhecer com mais saúde e qualidade de vida. Segundo Guita Grin, livres das obrigações do trabalho, livres das obrigações do cuidado dos filhos, as pessoas estão abertas para novas experiências, para repensar suas vidas, para experimentar novas identidades.
Outro ponto levantado por Debert foi sobre o encurtamento da vida adulta, onde ela chama atenção para três processos inter-relacionados que dão uma nova configuração a essa dissolução nas sociedades contemporâneas, são eles: o alargamento da faixa etária do segmento considerado jovem da população; o desdobramento das etapas mais avançadas do ciclo da vida em novas categorias etárias e a transformação da juventude em um valor, que pode ser conquistado em qualquer etapa da vida através da adoção de formas de consumo e estilos de vida adequados. “A juventude perde conexão com um grupo etário específico e passa a significar um valor que deve ser conquistado e mantido em qualquer idade através da adoção de formas de consumo de bens e serviços apropriados”, ressalta. Ela diz ainda, que esse sujeito da tradição filosófica liberal é o adulto marcado pela autonomia, pela maturidade, pela responsabilidade e pelo compromisso político.
Ao retirar o cuidado de uma posição bastante naturalizada e refletir o seu conceito através das lentes filosóficas e sociológicas, dentro de uma perspectiva pública e política, a professora finalizou a sua apresentação afirmando que pensar o cuidado significa, de uma certa forma, pensar a dependência presente em todas as etapas da vida.



