Gravidez, parto e direitos – O caso da violência obstétrica

Toda mulher tem direito a uma gravidez saudável e a um parto seguro. Muitos dos direitos da mulher na hora do parto e pós-parto são desrespeitados, muitas vezes por falta de conhecimento da própria mãe. Nesse sentido, tem se tornado, cada vez mais, pauta da saúde pública e, por isso foi tema da mesa Gravidez, parto e direitos, realizada no dia 29/7 no Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva.

O encontro reuniu as pesquisadoras Andreza Nakano, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Rosamaria Giatti Carneiro, do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB) e Helena Fialho de Carvalho, do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e membro do Movimento de Mulheres Mães e Crias na Luta, com a com a coordenação de Jane Araújo Russo, do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). A discussão abordou a relação entre parto e direitos, que apresenta diferentes formas segundo classe, raça, escolaridade e outras intersecções vividas pelas mulheres.  As apresentações, a partir de diferentes enfoques, buscaram conectar questões nem sempre apresentadas à discussão da violência obstétrica.

Como ponto de partida para suas reflexões, Andreza Nakano fez uma análise sobre a normalização da cesárea como forma de nascer. O objetivo do estudo foi discutir o desenvolvimento de uma cultura material em torno do parto e do nascimento em um contexto de utilização maciça de inovações tecnocientíficas e explorar a hipótese da normalização da cesariana como modo de nascer. A pesquisa foi realizada através de diferentes fontes, entre elas, entrevistas com obstetras e mulheres que realizaram cesáreas.

Segundo Nakano, 73%, das entrevistadas já haviam decidido por realizar uma cesárea, mesmo antes do evento da gravidez; as demais, quase na sua totalidade, fizeram essa opção logo no início da gestação.  Ela observou ainda que a cesárea, nesse universo, é reificada pela maioria das mulheres como a via de parto por excelência, a mais coerente com suas trajetórias e formas de gestão da vida, do corpo e dos riscos; o modo de parir e dar à luz seus filhos que contém os valores de modernidade, controle e segurança. “É nessa atmosfera que a cirurgia parece ter capturado a “magia” do nascimento e da experiência da maternidade”, afirmou Andreza.    

O direito ao parto humanizado

Humanizar é acreditar na fisiologia da gestação e do parto e acompanha-la, é perceber, refletir e respeitar os diversos aspectos culturais, individuais, psíquicos e emocionais da mulher e de sua família. Humanizar é devolver o protagonismo do parto à mulher, é garantir-lhe o direito de conhecimento e escolha independentemente da sua cor e classe social.
Foi nessa perspectiva que Helena Fialho de Carvalho conduziu a sua apresentação, a pesquisadora fez uma breve abordagem sobre o parto humanizado e domiciliar enquanto direito de desejo da mulher. Na oportunidade, ela fez uma reflexão através de situações analisadoras como forma de repensarmos esse cenário e como isso precisa ser visto e acolhido pelo Sistema Único de Saúde. “Há uma interferência contra a vontade da mãe/mulher na decisão de como querem parir os seus filhos e o descaso das mulheres negras e pobres relacionados à assistência ao parto domiciliar e direitos reprodutivos. Esse lugar de resistência por um parto respeitoso e desumanizado precisa dar espaço a um ambiente acolhedor para a mãe, onde ela e o seu bebê se sintam seguros, cuidados e acolhidos”, pontuou Fialho.

A maternidade e o cansaço

Para enriquecer e complementar as discussões, Rosamaria Carneiro fez uma provocação sobre a maternidade e o feminismo contemporâneo. O momento em que o sono nunca mais será o mesmo, o isolamento dos primeiros dias, o sentimento de insegurança ao ver aquele ser tão indefeso chorar e não saber o motivo certo, a amamentação que torna-se um grande desafio, o corpo que ainda está se recuperando do parto. Além de tudo isso, ainda tem o relacionamento com o companheiro, os palpiteiros de plantão, a casa que precisa ser arrumada, a comida que precisa ser feita, as visitas que teimam em aparecer sem avisar e ficar até tarde quando o bebê precisa dormir.

“Através de pesquisas em blogs e redes sócias encontrei a queixa materna contra o cansaço, o cansaço da maternidade full time, da maternidade vivida na família nuclear moderna e /ou a necessidade de se conjugar família, trabalho, vida pessoal e o mito da felicidade contemporânea,” complementou a pesquisadora. Na oportunidade, Rosamaria também falou sobre o romantismo da maternidade, através da citação de uma série exibida pela Netiflix que mostra que a maternidade não é um mar de rosas e que evitar romantiza-la pode ser o primeiro passo para ser uma mãe mais feliz. Esse é o recado de “Turma do Peito” (The Letdown).  Ela termina a sua fala dizendo, “fica aqui o convite para refletirmos acerca de estratégias de cuidados para a mães, precisamos mais uma vez falar sobre as mulheres e para as mulheres, pois em pleno século XXI o debate final parece ainda ser sobre o corpo da nação e a sobrecarga das mulheres em tudo isso.”