Fiocruz 123 anos: mulheres ao longo da história

 

No contexto dos 123 anos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), celebrado hoje (25/5), faz-se necessário ressaltar a importante trajetória de mulheres emblemáticas para a Fundação, pois a Fiocruz promove ações por um mundo mais igualitário e justo, sendo um recinto que incentiva programas, projetos e pesquisas em apoio às mulheres, à saúde delas, ao combate aos vários tipos de violências e pela inclusão de cada vez mais meninas e mulheres na ciência. Mas, como a Fundação se tornou nessa referência? Para falar sobre isso, convidamos a historiadora e pesquisadora da Casa Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), Daiane Rossi.

Embora o gênero às vezes tenha contribuído na invisibilidade das mulheres nos espaços das ciências da saúde, hoje é uma realidade que “a Fiocruz possui mais de 50% do seu quadro de pesquisadores composto por mulheres”, informa Daiane Rossi.


Imagem da primeira turma do Curso de Aplicação em que há alunas matriculadas, ano 1926 / Foto: Acervo da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)


Pioneiras

Como a Fundação chegou a esse percentual? Quando as mulheres começaram a ingressar na instituição e que condições sociais e institucionais foram determinantes para isso? “Em primeiro lugar, há que se demarcar três momentos: a fundação do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), em 1900; sua transformação em Fundação Oswaldo Cruz, em 1970; e nossos dias atuais, século XXI. Nas primeiras décadas do então IOC, a presença de mulheres era rara. O primeiro registro de uma funcionária da instituição foi feito em 1912: Edwig Räcke, contratada pelo diretor do Instituto para o cargo de auxiliar de encadernação, no qual permaneceu por pouco mais de um ano. A primeira mulher contratada como pesquisadora foi Rita Lyrio Alves de Almeida, em 1938. Rita era médica, especialista em patologia, seu ingresso abriu caminho para aquelas que chamamos as ‘pioneiras’, que ingressaram entre os anos 1930 e os anos 1950”.

Sobre as pioneiras, Daiane Rossi as divide em duas gerações: “a primeira, composta por nove mulheres que eram predominantemente médicas ou farmacêuticas, uma química e uma naturalista, nascidas entre 1910 e 1920, e que ingressaram no IOC entre fins dos anos 1930 e a década de 1940”. São elas: Rita Almeida, Maria Izabel Melo, Julia Vidigal de Vasconcelos, Laura Maria Queiroga, Arlete Ubatuba, Clélia de Paiva, Mireille Carneiro Felipe, Gessy Duarte Vieira e Luiza Krau Oliveira.

Biologista e pesquisadora, Dyrce Lacombe, uma das mulheres que marcaram um antes e depois na Fiocruz / Foto: Acervo da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)


13 que marcaram um antes e depois

A segunda geração é das nascidas entre 1930 e 1940, e ingressantes no IOC entre 1950 e 1960: Dyrce Lacombe, Otilia Mittidieri, Ismélia Lyrio Alves de Almeida, Maria de Lourdes Santos, Maria Ferrari Gomes, Neide Guitton Maciel, Itália Kerr, Ortrud Monica Barth, Pedrina Cunha de Oliveira, Ana Kohn, Delir Correa Gomes Maues Serra Freire e Dely Noronha de Bragança Magalhaes Pinto. “Essas 13 mulheres trouxeram um novo perfil à instituição, oriundas principalmente do recente (1937) curso de História Natural da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) da Universidade do Brasil, embora uma minoria fosse formada em Química e Farmácia”.

Outra característica dessa segunda geração destacada por Daiane foi a forma de ingresso: elas foram recrutadas por professores nas universidades e cursos secundários, iniciaram o treinamento em pesquisa por meio de um estágio que se dava a partir do ingresso delas através dos cursos de formação do IOC. “Na década de 1970, a partir da transformação do IOC em Fundação Oswaldo Cruz, Vinícius da Fonseca, então presidente da Fiocruz (1972-1979), propôs uma renovação, impulsionando a modernização científica na instituição. Neste contexto, as mulheres começaram a ingressar a partir de suas expertises, dos conhecimentos que possuem e que são frutos do crescimento do ensino superior nas décadas anteriores e, principalmente, da política de pós-graduação no país iniciada com a reforma universitária de 1968”, relata Daiane Rossi.

De esquerda para direita: historiadora e pesquisadora da COC/Fiocruz, Daiane Rossi; presidente da Asfoc-SN, Mychelle Alves; e a diretora adjunta do IFF/Fiocruz, Lívia Menezes


Tempos recentes: empoderamento feminino

A partir da década de 1990 e anos 2000, após a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e da Constituição Federal, os concursos públicos renovaram os quadros da instituição, “mais recentemente, com a inclusão de políticas de equidade de gênero e raça, cada vez mais meninas e mulheres conquistaram espaços na Fiocruz, até chegarmos a Nísia Trindade Lima como a primeira mulher presidente da Fundação”, afirma Daiane.

Sobre esse fato, a presidente do Sindicato dos Servidores de Ciência, Tecnologia, Produção e Inovação em Saúde Pública (Asfoc-SN), Mychelle Alves, ressalta a importância das conquistas femininas no século XXI. “Hoje, vemos mulheres ocupando cargos de liderança, destacando Nísia Trindade que fez história duas vezes ao ser a primeira mulher eleita presidente da Fiocruz e, mais recentemente, sendo a primeira mulher ministra da Saúde do Brasil. Porém, ainda há um longo caminho por percorrer, é necessário políticas públicas de equidade de gênero e raça de forma que as mulheres brasileiras, sendo a maioria da sociedade, estejam representadas em todos os espaços”.

O protagonismo feminino também é perceptível no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), que possui na atual gestão, majoritariamente composta por mulheres, a primeira diretora adjunta da história do Instituto quase centenário. Desde 2021, a pediatra, Lívia Menezes, desempenha a função, atuando também na Coordenação de Atenção à Saúde. “Tenho convicção de que represento um amplo corpo feminino, maioria absoluta, potente, diverso, plural, colorido, curioso, valente, ousado, comprometido, com capilaridade em todos os serviços, setores e unidades. Acredito ainda que nossa instituição é um local acolhedor para nós mulheres não somente porque aqui é local onde se cuida delas com afinco e competência. Mas, sobretudo, porque, de forma contínua e crescente, ocupamos os espaços decisórios e de poder desse Instituto. É nesse importante ponto que reside o cerne dessa questão. Acredito que somente dessa forma conseguimos animar o debate a respeito do lugar que compete a homens e mulheres em nossa sociedade”, finaliza Lívia Menezes.

Clique aqui e confira o vídeo produzido pela COC/Fiocruz, sobre as pioneiras da Fundação