Identidade e saúde mental
A saúde mental de crianças e adolescentes trans está diretamente relacionada às formas como suas identidades são reconhecidas, ou violentamente negadas, nos primeiros espaços de socialização, em especial na família primária, e, posteriormente, na escola, nos serviços de saúde e no acesso à cidadania. Evidências científicas e relatos institucionais indicam que o sofrimento psíquico não decorre da identidade de gênero, mas das violências estruturais que atravessam essas trajetórias desde muito cedo, muitas vezes iniciadas no próprio núcleo familiar.
O debate no IFF/Fiocruz
Esses temas estiveram no centro do evento “TransExistir: Um Olhar Sobre o Acesso à Saúde e Cidadania”, realizado no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), por iniciativa do Núcleo de Equidade, Diversidade e Políticas Afirmativas do Instituto, em parceria com o Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
O encontro reuniu pessoas trans, profissionais da saúde, da educação e do sistema de justiça para discutir os desafios enfrentados desde a infância. No Janeiro Branco e às vésperas do Dia da Visibilidade Trans, os debates evidenciam que políticas públicas, formação profissional e redes de apoio só fazem sentido quando dialogam com as experiências concretas das juventudes trans.
Violências desde cedo
Ao abordar os impactos duradouros da violência escolar, a representante do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, Biancka Fernandes, ressaltou que as experiências vividas na infância seguem reverberando ao longo da vida. “As violências que vivi na escola não ficaram no passado. Elas atravessaram o tempo e deixaram marcas profundas na minha saúde emocional”, afirmou. Para ela, escolas têm responsabilidade direta na preservação da saúde mental. “Cuidar da saúde mental de crianças trans não é boa vontade: é um dever ético, pedagógico e institucional”.
Juventudes trans em primeira pessoa
A dimensão concreta dessas violências e exclusões foi aprofundada na mesa “Reflexões sobre vivências travestis e trans na adolescência e juventude”, composta por jovens trans que compartilharam experiências atravessadas pela escola, pela família e pelo acesso ou negação de direitos desde muito cedo.
O ator e instrumentista, Felipe Maia, destacou os impactos da invalidação constante sobre a saúde emocional. “Quando você cresce tendo que explicar quem você é o tempo todo, isso cansa, adoece e rouba partes da sua infância”, afirmou. Para ele, o sofrimento não está na identidade, mas no esforço permanente de sobrevivência. “Ser trans nunca foi o problema. O problema é viver em alerta o tempo inteiro”.
A graduanda do curso de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Sol Barbosa, falou sobre a solidão institucional enfrentada por jovens trans nos espaços educacionais. “A escola nunca foi pensada para corpos como os nossos. A gente aprende cedo que precisa se proteger para existir”, relatou. Segundo ela, a ausência de acolhimento impacta diretamente a autoestima e a permanência escolar. “Quando não há reconhecimento, o recado é que a nossa vida vale menos”.
Já a estudante de Relações Públicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Maya Gonçalves, frisou a importância da escuta e da validação como ferramentas de cuidado em saúde mental. “Ser ouvida sem julgamento muda tudo. Às vezes, o que salva não é um protocolo, é alguém que acredita em você”, assegurou. Para Maya, políticas públicas precisam partir das vivências reais. “Não dá para pensar juventude trans sem nos colocar no centro das decisões”.
A estudante de Serviço Social da UERJ e bolsista do Programa de Orientação em Sexualidade (Pross/Nesa/Hupe/UERJ), Carine Correia, enfatizou como as violências institucionais produzem marcas profundas desde a adolescência. “O adoecimento começa quando a gente percebe que o mundo não foi feito para nos acolher”, disse. Para ela, o cuidado precisa ser contínuo e intersetorial. “Saúde mental também é acesso à educação, à assistência e ao direito de existir com dignidade.”
O debate foi atravessado também pela perspectiva do cuidado familiar. A mãe do ator e instrumentista Felipe Maia, Sarah Cintra, comentou sobre o papel do afeto como sustentação da saúde mental de jovens trans. “Quando o Felipe iniciou a transição, eu entendi que precisava lutar junto com ele para que o mundo o respeitasse como eu respeito”, declarou. Para ela, o apoio da família é um fator decisivo para que adolescentes trans possam existir com dignidade. “O apoio familiar é o que sustenta esses jovens. Ver meu filho aqui, empoderado e contando a própria história é a maior prova de que o amor e o respeito transformam vidas”, enfatizou.
Educação que exclui, educação que cuida
A exclusão educacional foi apontada como um dos principais fatores de adoecimento psíquico. A pró-reitora de Assuntos Estudantis da UFRRJ, Joyce Alves, destacou que os dados precisam ser nomeados corretamente. “Nós não desistimos da escola, nós somos expulsas dela”, disse. Segundo ela, a não garantia de direitos básicos comunica que aquele espaço não é seguro. “Quando não respeitam nosso nome e nossa identidade, a mensagem é clara: não somos bem-vindas”.
Esse processo de exclusão afeta diretamente a constituição subjetiva na infância e adolescência. A pesquisadora do IFF/Fiocruz, Paula Gaudenzi, alertou para os danos da patologização das identidades trans. “Classificar como doenças formas de existir, é inadmissível”, comentou. Para a pesquisadora, quando se supera essa lógica, é possível focar no que realmente importa: “como esses sujeitos estão inscritos na cultura e quais são os efeitos disso nas suas subjetividades”.
Paula também destacou o papel central do reconhecimento social. “Uma criança que cresce sob um olhar depreciativo pode ter efeitos psíquicos permanentes. O sofrimento mental em crianças e jovens trans se encapsula quando a sociedade não certifica a existência dessas pessoas”, explicou, defendendo mudanças profundas na gramática social para prevenir o adoecimento.
O especialista em medicina do adolescente e integrante do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA/UERJ), Felipe Fortes, compartilhou a experiência do Programa Aquarela do Núcleo, ressaltando que a atenção à saúde de jovens trans surgiu da escuta e da ausência de políticas estruturadas. “Esses adolescentes não adoecem por serem trans, mas pela transfobia cotidiana”, afirmou, ressaltando que demandas comuns da adolescência, como “acne, ansiedade, dificuldades escolares e uso excessivo de telas” passam a ser atravessadas pela violência institucional. Para ele, espaços de acolhimento e convivência entre pares são “construtores de saúde mental” e produzem pertencimento, autonomia e proteção psíquica.
Já a atriz trans e produtora cultural, Wescla Vasconcelos, realçou o papel da educação e da permanência escolar e universitária como dimensões centrais da cidadania e da saúde mental de pessoas trans. Ao relatar sua trajetória no sertão do Ceará e no Rio de Janeiro, ela apontou a reprodução da transfobia ao longo do percurso educacional. “A mesma violência que vivemos na escola pública se repete na universidade, dizendo o tempo todo que aquele não é o nosso lugar”, alegou. Para Wescla, a ausência de políticas efetivas de acesso e permanência revela uma escolha institucional. “Quando não há estratégias para garantir que pessoas trans entrem e permaneçam na escola e na universidade, isso também é uma resposta”, alertou. Ela defendeu ações afirmativas, convivência e participação política como caminhos para transformar esse cenário. “É a convivência com pessoas trans que reduz o constrangimento, a humilhação e a perseguição aos nossos corpos”, afirmou, reforçando que “a sala de aula é, sim, o nosso lugar”.
Cuidado em saúde e proteção na infância
No campo da saúde, o acolhimento apareceu como ferramenta central de cuidado. A médica e integrante da diretoria da Associação Brasileira pela Saúde Integral das Pessoas Trans, Travestis e Intersexo (Abrasitti), Ana Luiza Ferreira, comentou que respeitar o nome social e a identidade de gênero funciona como uma forma de prevenção. “Isso tira o paciente trans de um estado constante de alerta e previne quadros de ansiedade, depressão e pânico. O respeito à dignidade é o melhor remédio para salvar vidas”.
A pesquisadora do IFF/Fiocruz, Júlia Alvarenga, chamou atenção para os riscos da omissão no atendimento pediátrico. “O erro maior não é atender uma criança trans, é deixá-la sem atendimento. A omissão empurra essa criança para um lugar de sofrimento que ecoa por toda a vida”, advertiu, defendendo que práticas afirmativas se tornem regra no cuidado em saúde.
Juventude, dignidade e futuro
O acesso à cidadania também foi apontado como pilar da saúde mental. O juiz de Direito, André Sousa Brito, destacou que o nome é elemento central da dignidade. “O nome é a nossa primeira morada no mundo. Quando o Estado nega esse direito, ele nega a própria existência da pessoa”, disse, ao comentar iniciativas de requalificação civil realizadas em parceria com a Fiocruz.
Essa perspectiva foi reforçada por Biancka Fernandes, que reiterou o protagonismo trans nesses processos. “Quando pessoas trans estão à frente da requalificação civil, há mais confiança, pertencimento e cuidado. Isso transforma um procedimento jurídico em uma política pública de saúde mental coletiva”, avaliou.
No encerramento, o integrante do Núcleo de Equidade, Diversidade e Políticas Afirmativas do IFF/Fiocruz e organizador do evento, Carlos Renato Alves, reafirmou o compromisso institucional com o cuidado integral. “Não adianta garantir acesso à educação se não houver saúde e dignidade para permanecer. Existir com saúde e educação é um direito”, comunicou.
As falas dos jovens participantes do encontro deixaram claro que existir com saúde mental passa, antes de tudo, por ser ouvido, respeitado e reconhecido desde cedo. O debate também reforça que cuidar da saúde mental de crianças e adolescentes trans exige mais do que discursos. Exige políticas públicas, formação profissional, redes de apoio e reconhecimento pleno de suas existências. Como sintetizou Biancka Fernandes. “Que nenhuma criança trans precise sobreviver à escola. Que todas possam viver, aprender e sonhar nela”.







