Zika vírus: maior estudo do mundo revela os principais impactos na infância

 

Foi publicado em 29/12/2025, na PLOS Global Public Health, o resultado da maior análise com dados primários já realizada no mundo sobre crianças com microcefalia associada ao vírus Zika. O estudo intitulado “Characterization of 843 children with Zika-related microcephaly in the first three years of life: An individual participant data meta-analysis of 12 cohorts in the Zika Brazilian Cohorts Consortium”, reúne informações de 843 crianças com microcefalia ao nascimento, na primeira avaliação ou durante o acompanhamento, nascidas entre janeiro de 2015 e julho de 2018. 

O objetivo da pesquisa, com participação do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), é traçar o perfil de crianças brasileiras com microcefalia relacionada ao Zika, reunindo dados de participantes das regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país. 

“Até o momento, a caracterização da Síndrome Congênita do Zika (SCZ) se baseava em séries de casos e estudos com poucos participantes em estudos individuais. O tamanho relativamente grande da amostra permitiu observar que, entre as crianças com microcefalia, existe um espectro de gravidade e diferentes tipos de manifestações da Síndrome”, conta a pesquisadora do IFF/Fiocruz, Maria Elizabeth Lopes Moreira. 

Os dados são provenientes de 12 coortes que integram o Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika (ZBC-Consórcio), uma iniciativa que reúne pesquisadores de diferentes estados e instituições dedicados à investigação das consequências da transmissão vertical do vírus Zika, contribuindo para ampliar a compreensão da Síndrome. 

Para o professor da Universidade de Pernambuco (UPE), Demócrito Miranda: “A importância deste estudo é consolidar um conhecimento que vem sendo construído nos últimos 10 anos, desde o início da epidemia de microcefalia, identificada inicialmente no nordeste brasileiro”. 

Principais achados 

Segundo a professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cristina Hofer: “Os desfechos mais frequentes foram as anormalidades estruturais do sistema nervoso central, detectadas por neuroimagem, além de anormalidades nos exames neurológico e oftalmológico”. 

  • Microcefalia ao nascer: 71,3% dos casos; destes, 63,9% eram graves; 
  • Microcefalia pós-natal: ocorreu em 20,4% das crianças; 
  • Prematuridade: entre 10% e 20% na maioria dos locais; 
  • Baixo peso ao nascer: média de 33,2% (variando de 10% a 43,8%); 
  • Malformações congênitas: epicanto (40,1%), occipital proeminente (39,2%) e excesso de pele no pescoço (26,7%) foram frequentes.
     

Alterações neurológicas 

  • Déficit de atenção social em ≥50% das crianças; 
  • Epilepsia em 30% a 80% (média de 58,3%); 
  • Persistência de reflexos primitivos em 63,1%.

Comprometimento sensorial 

  • Alterações oftalmológicas em até 67,1% dos casos; 
  • Alterações auditivas menos frequentes, mas presentes.

Neuroimagem 

  • Calcificações cerebrais em 81,7%; 
  • Ventriculomegalia em 76,8%; 
  • Atrofia cortical em cerca de 50%. 

Principais dados do estudo 

 
Impacto e recomendações 

O estudo confirma que a SCZ vai além da microcefalia, envolvendo um conjunto complexo de alterações neurológicas, oftalmológicas e motoras. Os autores destacam a necessidade de cuidado multidisciplinar contínuo e políticas públicas que garantam suporte às famílias e às crianças afetadas. 

O pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e da UPE, Ricardo Ximenes, reforça: “Esses graves danos ao SNC exigem cuidados multidisciplinares e assistência de diferentes especialidades médicas e de outras áreas da saúde”. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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