O seminário “Zika, Dez Anos Depois: Ciência, Cuidado e Compromisso com o Futuro", promovido pelo Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), foi realizado nos dias 27 e 28 de novembro de 2025, no Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE-UFRJ), no Rio de Janeiro. O encontro teve como objetivo marcar uma década desde a crise, exaltando a vida das crianças e o compromisso científico, e reforçar a necessidade de vigilância e cuidado contínuo, transformando o trauma em legado. As mesas de debate integraram, de forma inédita, a perspectiva clínica, laboratorial, social e a voz das mães.
O compromisso da ciência
Na abertura, o pediatra e diretor do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO) do IFF/Fiocruz, José Augusto Alves de Britto, ressaltou que o evento não era uma celebração, mas um marco de memória. “Hoje, nós não estamos comemorando; estamos apontando uma década marcada por um problema, no qual a Fiocruz foi — e segue sendo — fundamental para o enfrentamento”.
O diretor do IFF/Fiocruz, Antônio Flávio Meirelles, complementou, destacando o foco humano da instituição. “Fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) é uma missão da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e de nosso Instituto. Nós existimos para fazer um SUS cada vez maior e mais forte”. Ele homenageou os pesquisadores que tiveram que provar a relação causal da doença. “Muitas vezes, o que era descrito não era acreditado, até que se conseguiu demonstrar uma relação de causalidade, o que na nossa saúde pública é sempre uma tarefa difícil”.
A Vice-Presidente Adjunta de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB) da Fiocruz, Márcia de Oliveira Teixeira, defendeu que a Zika redefiniu a pesquisa nacional. “Muito cedo percebemos que nós não conseguiríamos enfrentar a Zika com uma abordagem tradicional”. Para ela, foi fundamental “convocar as ciências humanas e sociais, notadamente a Sociologia, a Antropologia, a História”, e trazer as famílias para o centro da discussão
Da esq para a dir: José Augusto Alves de Britto, Valcler Rangel, Patrícia Canto, Antônio Flávio Meirelles e Márcia de Oliveira Teixeira (Foto: Bruno Guimarães)
O papel da mídia, o abandono social e a luta por dignidade
O momento mais impactante do Seminário foi a mesa que deu voz às mães e aos jornalistas que acompanharam a tragédia. A jornalista Lília Teles e o produtor Marcus Vincax do programa Fantástico da TV Globo, foram categóricos ao expor o ciclo de esquecimento da sociedade e da mídia: “A Zika passou a ser uma notícia esquecida, como tantas que acontecem por aí. Passou essa fase da euforia, e essas pessoas foram abandonadas”, comentou Lília.
O produtor Marcus salientou que a principal missão da mídia hoje é dar alcance às reivindicações das famílias. “Voz elas têm, elas falam, elas se manifestam. O que elas precisam é de alcance”. Marcus descreveu a dura realidade. “Essas mães dedicam suas vidas aos filhos com SCZ. Elas renunciam à vida delas, muitas estão sozinhas, porque os maridos, infelizmente, desaparecem”.
A presidente da Associação Lótus (de apoio às famílias com crianças com SVZ), Nádia de Jesus Conceição elevou o tom de crítica, confrontando o poder público e a imagem superficial das demandas. “Nada vai reparar as noites em claro que eu passo com a minha filha tendo epilepsia”. Nádia apontou o descaso e a falha do suporte estatal, para ela, a batalha é por dignidade. “Se eu não lutar pelos meus meios como pessoa, mãe, e como instituição, eu não sei se a minha filha Lorena estaria viva”.
Inovação laboratorial e a lição da cooperação
Na mesa "Diagnóstico, assistência, ensino e pesquisa: a Fiocruz e a epidemia da Zika", o esforço para a descoberta e diagnóstico foi detalhado pelos especialistas. A pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), Ana Maria Bispo de Filippis revelou a complexidade em identificar o vírus. “Não se encaixava no padrão conhecido da dengue ou da Chikungunya”.
A Fiocruz, na emergência de saúde pública de importância internacional, foi pioneira no desenvolvimento de tecnologias que se tornaram globais. “Nós fomos o primeiro Laboratório no país a sugerir a coleta simultânea de soro, urina e saliva”, destacou Ana Maria. Ela ainda ressaltou o desenvolvimento rápido do kit diagnóstico. “Nós precisamos desenvolver um teste capaz de detectar simultaneamente Zika, Dengue e Chikungunya”. Ana Maria concluiu com orgulho. “Em pouco tempo, a gente avançou muito. A gente tem que se orgulhar, porque em três meses, mais ou menos, nós brasileiros conseguimos esclarecer esse vírus novo”.
Na área clínica, a pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz), Patrícia Brasil frisou o trabalho dos médicos que confrontaram a descrença. “A Zika era vista como uma doença ‘benigna’, mas a Microcefalia e a Síndrome Congênita do Zika Vírus (SCZ) provaram que ela é uma doença de magnitude catastrófica”. Ela reforçou que “a vigilância, a pesquisa e a assistência precisam ser inseparáveis”.
O especialista em medicina fetal do IFF/Fiocruz, José Paulo Pereira Jr. trouxe a perspectiva do compromisso pessoal. “Enquanto médicos, nós não temos tempo a perder”. Ele resumiu o ensinamento mais profundo da crise. “Eu posso não curar, mas eu tenho que apoiar e vou seguir junto”. Para José Paulo, o sucesso da resposta está no suporte contínuo. “A gente não cura, mas mitiga, conforta, apoia e suporta”.
As lições para o futuro e o fortalecimento do SUS
O responsável pela Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), Valcler Rangel destacou o papel da Fundação na "vigilância em saúde", afirmando que o órgão sempre se prepara para o futuro inevitável. “O nosso esforço permanente é esse: se preparar o tempo inteiro. Alguma coisa pode acontecer ou está acontecendo”. Ele alertou que o aprendizado da Zika deve ser aplicado diante de outros desafios, como as alterações climáticas. “Teremos outros problemas e temos que estar preparados de novo, o tempo inteiro, para poder enfrentar e reduzir danos e, se possível, prevenir as doenças”.
A coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde da Mulher do IFF/Fiocruz, na época do surto do vírus Zika, Maria Gomes reforçou a estratégia de transformar a emergência em conhecimento. “A definição de uma turma exclusivamente voltada ao estudo da epidemia da Zika Congênita, no caso do Mestrado Profissional, foi uma resposta imediata do Instituto”.
Por fim, a neonatologista e pesquisadora do IFF/Fiocruz, Maria Elizabeth Lopes Moreira reconheceu que a ciência precisa descer do pedestal. “As mães também são ciência! Nós trabalhamos com elas produzindo ciência também,” encerrando o evento com a certeza de que o futuro da saúde pública depende da parceria contínua entre a ciência de ponta e os protagonistas das crises.
Dificuldades e compromissos
A roda de conversa “Experiências vividas – dificuldades e compromissos”, mediada pela psicóloga e chefe de Gabinete da Direção do IFF/Fiocruz, Kátia Moss, reuniu profissionais e uma mãe para compartilhar trajetórias, desafios e aprendizados no cuidado às crianças afetadas pela Síndrome Congênita do Zika ao longo da última década. As falas evidenciaram a complexidade do enfrentamento da epidemia, os impactos sobre as famílias e o papel central do trabalho interprofissional.
A nutricionista do IFF/Fiocruz, Andrea Dunshee, abriu a conversa relatando sua experiência desde 2016 no acompanhamento nutricional das crianças da coorte de Zika. Segundo ela, mais de 67% apresentavam microcefalia grave nos primeiros anos, o que exigiu adaptações constantes nas práticas de cuidado, especialmente diante das limitações motoras e alimentares.
Andrea salientou que o número de crianças com necessidade de vias alternativas de alimentação aumentou ao longo do tempo e que, embora a alimentação caseira seja preferível, muitas famílias dependem de fórmulas industrializadas de alto custo para garantir ganho de peso adequado. Para a nutricionista, cada criança demanda estratégias individualizadas, construídas sempre em parceria com as mães, em um processo de aprendizado contínuo que acompanha o crescimento desse grupo que hoje chega à pré-adolescência.
Em seguida, a fisioterapeuta do Instituto, Miriam Calheiros, compartilhou sua trajetória no cuidado às crianças com Síndrome Congênita do Zika, enfatizando o papel central das famílias na construção de práticas de reabilitação e inclusão. Desde 2017, ela atua em projetos que envolvem mães, avós e profissionais de saúde como facilitadores, inicialmente na adaptação de um programa voltado para paralisia cerebral e, posteriormente, na criação do Programa Juntos.
Com o crescimento das crianças, o projeto evoluiu para o Juntos para Inclusão, voltado ao ambiente escolar e à produção de materiais e formações que aproximam famílias e profissionais da educação. Miriam destacou aprendizados fundamentais, como a importância da escuta ativa, do respeito às singularidades, da ausência de julgamentos e da valorização das mães como “experts” de seus filhos, além dos desafios persistentes da inclusão escolar, da comunicação alternativa e da sobrecarga das cuidadoras.
A assistente social do IFF/Fiocruz, Alessandra Gomes Mendes recordou sua atuação desde 2015, quando o IFF/Fiocruz se tornou uma das principais portas de entrada para o atendimento às crianças afetadas pela epidemia. Diante da chegada repentina de cerca de 300 crianças com necessidades complexas e da escassez de conhecimento científico sobre a síndrome, na época, Alessandra ressaltou o esforço inicial de organizar fluxos de acolhimento, atendimentos e estratégias coletivas de cuidado em diálogo com outros profissionais.
A partir desse cenário, ela coordenou projetos de pesquisa voltados às implicações sociais da Zika e à garantia de direitos, envolvendo assistentes sociais, residentes e famílias. Esses estudos resultaram na produção de materiais educativos, como o guia prático de direito para profissionais de saúde e famílias de crianças com a Síndrome Congênita do Zika Vírus no Rio de Janeiro, e na criação de um curso que contou com mães e lideranças de associações como docentes, reafirmando o princípio “nada sobre nós, sem nós”. Alessandra frisou a força das redes de mães que, desde o início da epidemia, se organizaram politicamente para acessar direitos, enfrentar desigualdades e transformar suas vivências em mobilização coletiva.
Fechando a mesa, Suzana dos Santos, mãe de Samuel, paciente do Instituto, trouxe uma perspectiva fundamental: a vivência das famílias que enfrentaram a epidemia de forma direta e intensa. Ela relatou o nascimento do filho em 2016, no auge do surto de Zika, marcado por falta de preparo dos profissionais de saúde, ausência de acolhimento e demora para confirmação do diagnóstico. O período inicial foi descrito como um tempo de medo, exaustão emocional e dificuldades no trabalho, até que encontrou no IFF/Fiocruz o suporte, a informação e o acolhimento necessários.
Suzana enfatizou os desafios permanentes para garantir terapias, inclusão escolar, acompanhamento adequado e acesso a direitos, enfrentando falhas tanto na rede pública quanto na privada. Em sua fala, reforçou a importância da informação, da mobilização das famílias e do fortalecimento das políticas públicas, especialmente diante dos custos elevados e da necessidade de cuidado contínuo para crianças com condições relacionadas ao Zika.

Da esq para a dir: Miriam Calheiros, Andrea Dunshee, Alessandra Gomes Mendes, Suzana dos Santos e Kátia Moss (Foto: Bruno Guimarães)
A Rede Zika Fiocruz
A última mesa do primeiro dia, intitulada “A Rede Zika Fiocruz”, mediada pelo professor e pesquisador do IFF/Fiocruz, Luiz Teixeira, retomou os caminhos percorridos desde o início da emergência sanitária. O pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz, Gustavo Correia Matta, relembrou como a crise do Zika impulsionou uma articulação inédita entre pesquisadores, serviços de saúde e movimentos sociais, estruturando eixos de pesquisa que integravam organização do sistema de saúde, relações de gênero, interseccionalidade e participação social.
Gustavo relatou que a epidemia escancarou desigualdades marcadas por território e classe, especialmente pela sobrecarga das mães e cuidadoras, e evidenciou desafios éticos, como a pressão internacional por dados brasileiros. Para ele, o protagonismo das famílias transformou práticas científicas e deixou como legado a necessidade de integrar ciências biológicas e sociais e fortalecer políticas de cuidado para crianças e famílias.
Na sequência, o pediatra e diretor do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO) do IFF/Fiocruz, José Augusto Alves de Britto, reforçou que a epidemia de Zika criou uma situação de união entre equipes do IFF/Fiocruz, do Ministério da Saúde e pesquisadores, permitindo uma resposta rápida e reconhecida internacionalmente. Ele destacou que esse esforço coletivo estruturou bases que facilitaram a organização da resposta à Covid-19 anos depois, graças aos aprendizados, protocolos e práticas construídos desde 2016. José Augusto também ressaltou a importância da proteção das amostras e da atuação profissional dos pesquisadores, lembrando que tanto equipes quanto famílias aprenderam em meio à crise. Para ele, esse processo fortaleceu a ciência nacional e preparou o país para enfrentar futuras emergências sanitárias.
Acesse:
Seminário Zika, 10 anos depois - 27/11/25 manhã
https://youtu.be/O-bJS9HbsMs
Seminário Zika, 10 anos depois 27/11/25 tarde
https://youtu.be/WHYaAxKZ1rU
Clique aqui e confira como foi o 2º dia do Seminário







