O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) recebeu, no dia 28 de agosto, a visita do ex-ministro da Saúde de Moçambique e atual assessor do Ministério da Saúde (MS) do país africano, Ivo Garrido. A agenda integrou o calendário organizado pelo MS do Brasil em preparação para a visita oficial do Ministro da Saúde de Moçambique, Ussene Hilário Isse, por ocasião da 30ª Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre Mudanças Climáticas (COP30), e teve como objetivo prospectar parcerias em cooperação Sul-Sul, com destaque para o fortalecimento da Rede de Bancos de Leite Humano (rBLH) nesse país e oportunidades de formação de médicos moçambicanos na instituição.
“Moçambique é um país jovem, que completa 50 anos de independência este ano, mas ainda está entre os 10 mais pobres do mundo. Para nós, o Serviço Nacional de Saúde é essencial, porque garante atendimento especialmente nas áreas rurais, onde o setor privado não chega”, destacou Ivo Garrido. O assessor reforçou que dois terços das demandas de saúde no país vêm de mulheres e crianças, e apontou como prioridades “o financiamento do sistema e, sobretudo, a formação de recursos humanos qualificados”.

Ex-ministro da Saúde de Moçambique, Ivo Garrido (ao centro), com a Direção do IFF/Fiocruz
durante reunião para fortalecer a cooperação internacional. Foto: Bruno Guimarães
Educação e formação de profissionais
Os coordenadores de Educação do IFF/Fiocruz, Carla Trevisan e Zilton Vasconcelos, apresentaram as iniciativas de ensino e pesquisa do Instituto, incluindo residências médicas e multiprofissionais, programas de pós-graduação e especializações lato sensu. “Temos 16 programas de residência médica e cinco de enfermagem, além de sete áreas multiprofissionais como fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, farmácia, serviço social, nutrição e psicologia, além dos programas de especialização”, explicou Carla.
Zilton acrescentou a importância das especializações para médicos estrangeiros, já que a legislação brasileira não permite a participação de profissionais internacionais em residências. “Esses programas têm carga horária prática semelhante à da residência, mas com algumas diferenças de formato, o que pode ser uma alternativa muito relevante para cooperação internacional”, pontuou.
O uso do Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA) também foi destacado como ferramenta estratégica. “Ele nos permite ampliar fronteiras, atingir áreas remotas e até oferecer aulas para alunos de outros países”, disse Carla, sugerindo possibilidades de integração com Moçambique.
Avanços na atenção cirúrgica
A gestora da Área de Atenção Cirúrgica à Criança e ao Adolescente do IFF/Fiocruz, Maria Alcina Bernardes Paula, apresentou os avanços da área, considerada de alta complexidade. Entre os destaques estão os procedimentos em neurocirurgia pediátrica. “Hoje realizamos técnicas menos invasivas para craniossinostoses, com a utilização de molas, reduzindo significativamente o risco de sangramento e a necessidade de transfusões”, explicou.
Ela também destacou resultados positivos em casos complexos, como atresias de esôfago, gastrosquises e tumores. “A evolução dos nossos pacientes tem sido muito boa, com altas taxas de sucesso e baixa necessidade de procedimentos adicionais”, afirmou.
Rede de Bancos de Leite Humano
Outro ponto central da visita foi a troca de experiências sobre a rBLH-Fiocruz, seu coordenador João Aprígio Gomes de Almeida ressaltou. “O Brasil conta hoje com 238 Bancos de Leite Humano (BLHs), além de centenas de Postos de Coleta (PC), que funcionam como unidades de apoio, educação e promoção da amamentação. Nosso compromisso é adaptar essa experiência às realidades locais, como a de Moçambique”.
Ivo Garrido lembrou que Moçambique inaugurou em Maputo seu primeiro Banco de Leite Humano (BLH), fruto de uma cooperação com a Fiocruz iniciada em 2008. “Foi um processo de mais de 10 anos, marcado pela persistência e solidariedade brasileira. Desde o projeto arquitetônico até a chegada dos equipamentos, o apoio foi fundamental”, destacou. Garrido acrescentou que, apesar de bem estruturado, o serviço enfrenta desafios de sustentabilidade e mencionou a criação do movimento das ‘Madrinhas do Banco de Leite’, iniciativa da sociedade civil para apoiar o funcionamento da unidade.
Segundo Ivo Garrido, a prioridade agora é expandir a Rede para as províncias de Nampula e Zambézia, onde vive cerca de 40% da população moçambicana.
Cooperação futura
Durante a reunião, foi consenso que a cooperação Brasil-Moçambique deve avançar não apenas na área do leite humano, mas também na capacitação de especialistas. “Queremos formar médicos e equipes multiprofissionais em áreas como neurocirurgia pediátrica, ginecologia e anestesia em bebês. Para nós, o mais importante é a prática: cursos de três a doze meses no Brasil podem fazer toda a diferença”, afirmou Garrido.
A Direção do IFF/Fiocruz reforçou a disposição da instituição em ampliar o diálogo e contribuir para a formação de profissionais moçambicanos, fortalecendo laços históricos entre Fiocruz e o país africano.







