IFF/Fiocruz promove a 15ª Jornada de Enfermagem em Saúde da Mulher 

 

O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, nos dias 20 e 27 de agosto, a 15ª Jornada de Enfermagem em Saúde da Mulher, com o tema “Saúde das mulheres: refletindo interseções”. A proposta foi mostrar as várias dificuldades enfrentadas na maternidade e como os profissionais da saúde, principalmente a enfermagem, podem auxiliar a mulher para tornar esse processo menos complexo e mais leve. 

Mesa de abertura (da esq para dir): Paloma Acioly; Zilton Vasconcelos; Patrícia Marques; Mariana Setúbal; Raquel Fonseca e Danielli Ciuffo (Foto por: Bruno Guimarães) 

A mesa de abertura foi composta por profissionais do IFF/Fiocruz: a Responsável Técnica (RT) de Enfermagem, Paloma Acioly; o coordenador de Educação, Zilton Vasconcelos; a coordenadora de Atenção à Saúde, Patrícia Marques; a chefe de gabinete da Direção, Mariana Setúbal; a gestora da Área de Atenção Clínico-Cirúrgica à Mulher, Raquel Fonseca; e a enfermeira da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Gestante, Danielli Ciuffo. 

Raquel contou a importância de destacar temas como esse e como eles influenciam na vida das mulheres: “Esses debates nos mostram que cuidar da saúde da mulher é ir muito além da dimensão biológica. É reconhecer histórias, contextos, desigualdades, lutas e conquistas. É reafirmar nosso compromisso com a vida, com a equidade e com a dignidade de todas as mulheres.” 

Danielli explicou que o cuidado das mulheres não está restrito somente à enfermagem, mas sim a todo um grupo de profissionais: “Vai muito além só das questões da enfermagem, da categoria propriamente dita, tem uma pluralidade muito importante. Eventos como esse são extremamente importantes, pois são momentos de muito aprendizado, da gente fortalecer, aprender mais e compartilhar nossos saberes.” 

Paloma reforçou que o cuidado da mulher deve ser feito individualmente: “Esse tema nos convida a ir além do cuidado, nos convida a olhar para as dimensões que atravessam a vida das mulheres. São sociais, culturais, emocionais... Reafirmo o compromisso da nossa equipe com o cuidado, uma assistência de qualidade, baseada em evidências científicas, mas, principalmente, um cuidado e assistência que respeite a singularidade de cada mulher.” 

Zilton destacou que além do cuidado o Instituto possui uma tarefa enorme de formação, educação e treinamento. “Quero colocar a Educação à disposição dessa equipe potente, com todas as ferramentas que a gente tem disponíveis no Instituto e até mesmo na Fiocruz como um todo, para a gente poder fazer ensino, fazer formação e entregar os melhores profissionais que pudermos formar para o Sistema Único de Saúde (SUS).” 

Patrícia se emocionou ao falar de um grande desafio do IFF/Fiocruz, o da transdisciplinaridade. “Mais do que o cuidado compartilhado, é respeitar todos os saberes. Para mim, esse é o grande desafio e a grande superação que buscamos aqui no Instituto a cada dia.” 

Em sua fala, Mariana declarou: “Eu queria destacar a nossa alegria de, mais uma vez, ter essa jornada, que já está na 15ª edição. Esse momento de reflexão é essencial. Falar da saúde da mulher é falar de um cuidado que se multiplica. A gente não consegue pensar em nenhuma esfera da saúde, em nenhum ciclo de vida, em especial na saúde da mulher, sem pensar em como se dá esse cuidado sem considerar a categoria da enfermagem.”

Da esq para a dir: Paulo São Bento, Susane Lindinalva da Silva e Rozânia Bicego 

A mesa de abertura foi encerrada com a tradicional Cerimônia da Lâmpada, em referência à Florence Nightingale, Patrona da Enfermagem. Nascida em 1920, na Itália, Florence foi voluntária na assistência aos feridos na Guerra da Criméia (1853-1856). Durante a noite, Florence visitava os feridos levando uma lâmpada Turca. A luz do objeto, além de possibilitar a observação dos pacientes, trazia conforto aos feridos, pois caracterizava a presença de Florence. Por esse motivo, a lâmpada passou a representar a própria Enfermagem e a ser utilizada nos eventos alusivos aos profissionais da especialidade. 

Após, a assessora técnica da Coordenação de Saúde da Mulher do Ministério da Saúde, Susane Lindinalva da Silva, palestrou sobre a Rede Alyne, iniciativa que homenageia a jovem negra Alyne Pimentel, que morreu aos 28 anos, gestante e vítima de negligência médica. Na oportunidade, Susane frisou como, muitas vezes, o racismo é um grande impedimento no tratamento de mulheres negras, como no caso de Alyne. 

“Ela foi uma mulher negra da Baixada Fluminense que morreu por negligência do Estado brasileiro. Foi atendida em um serviço e disseram que ela não tinha nada. Por quê? Porque a queixa da mulher negra quase nunca é valorizada. E a gente naturaliza isso, pensa: ‘Ah, não, aconteceu só com a Alyne’, mas quantas Alynes mais? Então, é necessário que a gente tenha uma resposta para isso. Nomear a rede de atenção materna e infantil com o nome de Rede Alyne é a possibilidade de transformar luto em luta, de olhar para essa morte e ter um marco histórico no processo de cuidado no Brasil, revelando que é necessário um enfoque na equidade e que a gente cuide das nossas mulheres negras, do nosso povo, o povo brasileiro”, disse Susane. 

Na sequência, aconteceu o painel "Luto Materno e Parental: Marcos Legais, Cuidados e Vivências", abordando os seguintes temas: a "Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental", a "Assistência às Pessoas em Situação de Luto Materno Parental" e "Vivências do Luto Materno e Parental".

O primeiro dia da 15ª Jornada foi um sucesso, com o anfiteatro lotado 

Mudanças climáticas e mulheres na ditadura foram destaques no encerramento 

Já no dia 27/8, segundo e último dia da Jornada, as discussões seguiram com temas igualmente relevantes. A programação foi aberta com a palestra “Inserção social de mulheres com o Transtorno do Espectro Autista (TEA)”, ministrada pela enfermeira e professora da Faculdade de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Livia Fajin. 

Em seguida, a coordenadora de Ações Nacionais e de Cooperação do IFF/Fiocruz, Maria Gomes, apresentou a palestra “A iniciativa Dez Passos do Cuidado Obstétrico para a Redução da Mortalidade Materna”, reforçando a necessidade de práticas seguras e baseadas em evidências para garantir a qualidade da assistência obstétrica. 

Outro destaque foi a apresentação “Mudanças Climáticas e Saúde Perinatal”, conduzida pela enfermeira, mestranda pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora assistente do grupo PERI (Pesquisas em Eventos Extremos Relacionados à Saúde Perinatal), Juliana Guimarães Dantas. Ela explicou como as transformações no clima impactam diretamente a saúde das gestantes e dos bebês, alertando para os riscos associados a eventos extremos, como ondas de calor, que podem aumentar a incidência de complicações gestacionais, parto prematuro e baixo peso ao nascer. 

A pesquisadora ressaltou que, embora os estudos internacionais já apontem essa relação, no Brasil ainda não há pesquisas consolidadas sobre o tema, o que torna urgente a ampliação das investigações. “Hoje, em pleno século XXI, a mudança climática é reconhecida como a maior ameaça global à saúde. Precisamos olhar para esses impactos de forma integrada, considerando os determinantes sociais que influenciam os desfechos perinatais”, afirmou. Juliana frisou ainda que fatores como poluição do ar, ondas de calor associadas a secas ou queimadas e condições socioeconômicas desfavoráveis podem agravar os riscos para gestantes e recém-nascidos. 

Por fim, a palestrante reforçou a importância de alinhar a assistência obstétrica às metas da Agenda 2030, especialmente aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionados à saúde (ODS 3) e à ação contra as mudanças climáticas (ODS 13). “Para mudar o mundo, precisamos começar mudando a forma de nascer. E isso passa por compreender que as mulheres estão inseridas em um ambiente em transformação, que exige um cuidado integral e atento”, concluiu. 

O evento também contou com um momento de grande emoção e reflexão histórica: a palestra “As vozes resistentes das mulheres na ditadura”, ministrada por Fátima Setúbal, professora de história aposentada, ex-presa política e militante durante o regime militar brasileiro. Em sua fala, Fátima compartilhou um relato impactante sobre sua trajetória pessoal de resistência e as consequências da repressão sofrida por ela e sua família durante a ditadura civil-militar. 

Fátima enfatizou como sua militância começou ainda na adolescência, por meio de grupos de estudo e trabalhos comunitários ligados à Igreja Católica, e como, aos 15 anos, já estava engajada no movimento estudantil. A palestrante recordou que, com o fechamento dos canais democráticos e o endurecimento do regime, muitos jovens foram levados à radicalização, entre eles seus irmãos. 

O testemunho revelou episódios marcantes de violência, incluindo suas duas prisões políticas, em 1971 e 1972, quando sofreu torturas físicas e psicológicas. Fátima também narrou a morte de dois de seus irmãos, assassinados durante o período ditatorial. “Essas mortes mostram a covardia e a desumanidade do regime, que matou pessoas desarmadas”, afirmou. 

Ela ressaltou a importância de resgatar essas histórias para que jamais se repitam: “Resistir significa reexistir. Cada ato de resistência era um ato de sobrevivência e de esperança em um país mais justo”. Fátima dedicou sua fala à memória das mulheres que marcaram sua vida, como sua mãe, sua avó e outras figuras femininas que lhe transmitiram valores de fé, coragem e solidariedade.

Fátima emocionou o público ao contar sua história (Foto por: Bruno Guimarães) 

Fátima encerrou sua palestra com um apelo pela preservação da democracia e pelos direitos humanos. “Não podemos romantizar a ditadura. Foi um período de arbítrio, violência e silenciamento. Precisamos manter viva a memória das que lutaram para que hoje possamos falar em liberdade”. 

No encerramento, Paulo São Bento e Rozânia Bicego agradeceram a presença dos participantes e anunciaram os trabalhos premiados nesta edição da Jornada: 

  • 1º lugar - Entre o saber técnico e o cuidado: a assistência de enfermeiras obstétricas à mulher em uso de sulfato de magnésio, da relatora Camila Laporte Almeida de Souza; 
  • 2º lugar - Dignidade menstrual e os recortes de raça e classe social à luz de Angela Davis, da relatora Manuela de Sousa Machado; 
  • 3º lugar - Violência obstétrica e equidade em saúde: representações sociais de gestantes, da relatora Ana Clara de Almeida Neves. 

Encerramento da 15° Jornada de Enfermagem em Saúde da Mulher (Foto por: Everton Miranda) 

 

 

 

 

 

 

 

 

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