O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) realizou, em 7 de outubro de 2024, o evento comemorativo dos 30 anos do Núcleo Saúde e Brincar. A tarde foi marcada por momentos emocionantes, com relatos de pessoas que já passaram pelo Núcleo, como antigos colaboradores – estagiários e residentes, e de outras que ainda fazem parte, compartilhando suas vivências e experiências nessa importante iniciativa de promoção de saúde. O encontro reuniu trabalhadores da Atenção, Educação e da Pesquisa.
A coordenadora do Núcleo de Apoio a Projetos Educacionais e Culturais (Napec) do IFF/Fiocruz, Magdalena Oliveira, que ingressou no Instituto para participar do Saúde e Brincar, foi a responsável por abrir a cerimônia. Em um discurso emotivo, ela destacou o impacto pessoal que o evento representava, recordando os anos que já se passaram desde que começou sua trajetória no Instituto. Magdalena ressaltou o valor do brincar como uma linguagem universal das crianças e, especialmente, como uma ferramenta crucial para aquelas que, devido à internação hospitalar, acabam privadas de uma parte essencial da infância. “Aqui no IFF/Fiocruz, essa prática é ainda mais importante, pois muitas crianças, infelizmente, perdem uma parte da infância ao serem internadas, ficando longe das brincadeiras, dos amigos e do ambiente familiar. Por isso, é uma alegria estarmos juntos hoje”.
Na sequência, a coordenadora de Atenção à Saúde do Instituto, Patrícia Marques, reforçou a relevância do brincar dentro do hospital, destacando que essa prática vai além de uma simples distração para as crianças, sendo uma parte integral do processo de cura. “Em meio a tantos desafios, essas iniciativas oferecem um respiro, proporcionando acolhimento e cuidado. Para mim, o brincar é uma dimensão do cuidado tão importante quanto tratar a dor", afirmou.
A chefe de Gabinete da Direção do IFF/Fiocruz, Mariana Setúbal, também enalteceu a importância do brincar no cotidiano hospitalar. Ela destacou que, entre as diversas "tecnologias" usadas no tratamento de pacientes, o brincar é uma das mais valiosas, pois não apenas traz benefícios diretos para as crianças, mas também envolve todos os profissionais de saúde. “De todas as tecnologias que utilizamos no hospital, o brincar talvez seja a que melhor representa o diferencial que oferecemos aos nossos pacientes e a nós mesmos. Todos nós, de alguma forma, somos tocados por esse trabalho”.
Em seguida, a diretora substituta e coordenadora de Atenção à Saúde do IFF/Fiocruz, Lívia Menezes, compartilhou sua longa experiência com o Saúde e Brincar, lembrando de quando começou a acompanhar o projeto, em 2001. Ela mencionou como o Núcleo sempre esteve presente nas discussões sobre os cuidados com os pacientes na Enfermaria de Pediatria e como o brincar revelava questões que passavam despercebidas em outros contextos. “Muitas vezes, percebia-se que algumas questões só se revelavam durante o brincar, exigindo múltiplos olhares e debates. É encantador ver essa iniciativa crescer e se transformar ao longo dos anos, com novas pessoas, mas mantendo sempre o propósito”.
O diretor do IFF/Fiocruz, Antônio Flávio Meirelles, falou sobre o brincar como uma "tecnologia leve e muito complexa", destacando sua importância no alívio do sofrimento das crianças hospitalizadas. Para ele, o brincar é uma forma de devolver parte da infância que muitas vezes é interrompida pela doença e pelo ambiente hospitalar. "O brincar ajuda a desvendar problemas e aliviar o sofrimento das crianças. É fundamental para que elas possam ter momentos de infância, fugindo um pouco da realidade dura do tratamento".

Antônio Meirelles (Foto: Juliana Brum)
A ex-coordenadora do Núcleo Saúde e Brincar, Rosa Mitre, uma das fundadoras do projeto, em uma apresentação que revisitou memórias da trajetória de assistência, ensino e pesquisa, compartilhou a origem da iniciativa e o quanto ela esteve profundamente ligada à sua trajetória pessoal e profissional. Rosa relembrou seu encontro com Eliza Santa Roza e o encantamento com a ideia de usar o brincar como parte do tratamento de crianças hospitalizadas, quando esse tipo de prática era pouco comum no Brasil. "Falar do Saúde e Brincar é falar de vida e de transformar a hospitalização em um momento mais rico e humano".

Rosa contou sua trajetória através de fotografias (Foto: Juliana Brum)
O psicólogo Marcelo Maciel, um dos responsáveis pela implantação do Saúde e Brincar no IFF/Fiocruz, também relembrou o início do projeto, em 1994, quando integrou a equipe que trouxe a experiência de trabalhar com o brincar no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sob a coordenação do psiquiatra Édson Saggese, realizavam atividades lúdicas com crianças que antes da iniciativa não podiam visitar seus familiares internados. Ele explicou que o brincar sempre foi mais do que uma simples atividade recreativa, sendo uma intervenção complexa, com implicações na saúde pública e coletiva. "Ao longo do tempo, o projeto cresceu e se transformou, promovendo a visibilidade do brincar e criando um polo acadêmico de formação e pesquisa", explicou Marcelo.
A coordenadora do Mestrado Profissional em Saúde da Criança e da Mulher (MPSCM) do IFF/Fiocruz e ex-coordenadora do Saúde e Brincar, Martha Moreira, ressaltou a importância do brincar como uma intervenção que transcende o lúdico e se torna um meio de ressignificação da vida. Ela destacou o papel primordial da psiquiatra e psicanalista Eliza Santa Rosa, fundadora do Saúde e Brincar, e como seu trabalho inspirou a continuidade dessa prática em contextos hospitalares, ajudando a humanizar o cuidado em saúde e criar vínculos que ultrapassam a medicalização da vida. “O brincar se tornou um dispositivo institucional e clínico, fortalecendo-se como uma prática que gera efeitos surpreendentes, tanto para as crianças quanto para os profissionais de saúde”.

Da esquerda para a direita: Rosa Mitre, Martha Moreira, Roberta Tanabe, Marcelo Maciel e Anita Paez (Foto: Juliana Brum)
Finalizando as falas do evento, a pediatra e atual coordenadora do Núcleo, Roberta Tanabe, destacou o impacto do projeto ao longo de três décadas na vida de crianças hospitalizadas e suas famílias. Ela também ressaltou o papel da Dra. Flor, cão de serviço do IFF/Fiocruz, que tem transformado a rotina hospitalar ao criar um ambiente mais acolhedor e humano, não apenas para os pequenos pacientes, mas também para os profissionais de saúde. Segundo Roberta, o sucesso e a longevidade do Saúde e Brincar demonstram a capacidade de adaptação da iniciativa frente a desafios, como mudanças no perfil das crianças internadas e no cenário epidemiológico. "Essa parceria com estagiários e pesquisadores enriquece ainda mais essa iniciativa, garantindo que o brincar continue sendo uma ferramenta poderosa de cuidado", concluiu.

Evento lotou o Centro de Estudos Olinto de Oliveira - CEOO (Foto: Everton Miranda)



