IFF/Fiocruz desenvolve Projeto COVIDpro Escola

O isolamento social tem sido a principal medida junto com a proteção individual para a desaceleração do avanço da pandemia da Covid-19. Dentre essas medidas está o fechamento das escolas. Entretanto, a interrupção das atividades escolares por um período longo tem gerado debates acerca das consequências provocadas e dos prejuízos causados à educação. Observa-se um consenso da necessidade de retorno às aulas presenciais, porém, o momento oportuno e como deve se dar essa volta ainda é um objeto de discordância entre especialistas da área da saúde e educação, que, inevitavelmente acaba trazendo incertezas e inseguranças aos pais, responsáveis, alunos, professores e todo um conjunto de atores envolvidos direta e indiretamente no funcionamento do sistema de educação.

Neste sentido, um grupo multidisciplinar de pesquisadores do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) está desenvolvendo o Projeto COVIDpro-Escola, que busca avaliar os fatores envolvidos na decisão de apoiar ou não o retorno escolar, através de um questionários on-line. A pesquisa se destina aos pais, responsáveis e professores de crianças e adolescentes, com idade entre 6 e 18 anos, residentes do estado do Rio de Janeiro.

Segundo a médica alergista e imunologista e pesquisadora do Projeto Daniella Moore, é preciso compreender como as crianças e adolescentes estão sendo afetados. “Queremos avaliar se houve percepção por parte dos pais de mudanças comportamentais, prejuízos de aprendizado, alterações de hábitos, déficit alimentar das crianças e adolescentes, e como foi ou está sendo o acesso ao ensino de forma remota. Entender como os professores conseguiram realizar o ensino on-line sem um treinamento prévio também será um ponto importante. Assim como, compreender como as escolas públicas e privadas conseguiram implementar protocolos e reorganização do ambiente escolar para estar de acordo com as orientações dadas pela Organização Mundial de Saúde para conter a disseminação do novo coronavírus no ambiente escolar”, enfatizou.

A equipe do projeto COVIDpro escola entende que, para muitos pais a escola é mais do que um ambiente onde os filhos aprendem matérias escolares, é um local onde eles ficam seguros enquanto os pais trabalham, para outros, é um local onde os filhos têm alimentação assegurada. Algumas perguntas que, certamente, nortearão o projeto foram respondidas pelos pesquisadores. Confira:

Quais são os resultados esperados?

Desejamos poder contribuir com informações que nos mostrem o que está realmente acontecendo como consequência do fechamento das escolas. Esperamos com os dados coletados obter respostas às questões que contribuem ou não para a decisão do retorno escolar presencial, considerando a percepção dos pais/responsáveis e professores. Almejamos também compreender se existem fatores que contribuem mais fortemente que outros.

Quais os impactos sociais essa ausência das aulas presenciais pode trazer aos alunos?

O fechamento das escolas traz consequências que vão muito além do déficit de aprendizado. Questões como aumento da vulnerabilidade social, alterações negativas no estado emocional, vulnerabilidade alimentar, risco de acidente, entre outros, são problemas reais que as crianças podem estar vivendo nesse período. Sabemos que a escola para muitas famílias também funciona como uma rede de apoio, que garante a segurança física da criança enquanto os pais trabalham. O estudo vai nos ajudar a entender o que está acontecendo realmente e vai ajudar a conhecer como o peso dessas questões pode contribuir na decisão dos responsáveis em apoiar ou não o retorno escolar.

É esperado prejuízo na qualidade da educação? Por quê?

Embora avaliar a qualidade da educação neste período não seja um dos objetivos do estudo, podemos esperar que o ensino não tenha sido efetivo como o presencial. Talvez o estudo perceba essa deficiência à medida que as questões sobre aproveitamento das aulas on-line e do aprendizado remoto forem respondidas. O fechamento das escolas acabou ocorrendo de forma abrupta e impensada diante de uma situação epidemiológica sem precedentes, que é a pandemia da Covid-19, em que professores tiveram que se adaptar a um modelo de ensino digital sem nenhum treinamento e, muitas vezes, sem nenhuma experiência prévia, e, por outro lado, os alunos também não estavam preparados para assimilarem conteúdos nesse formato. Foi para todos um desafio. O estudo poderá perceber algumas dessas deficiências, que vão desde a dificuldade do aluno em compreender a aula on-line à falta de um dispositivo como computador, celular, tablet disponível para acesso à aula, e muitas vezes a terrível falta de acesso a qualquer conteúdo de forma remota, evidenciando e aumentando o abismo da desigualdade social.

A ausência do ambiente escolar pode influenciar na saúde mental das crianças/adolescentes? Por quê?

São muitos fatores que podem estar influenciando, negativamente, na saúde mental das crianças neste período. Assim como os adultos, elas estão expostas a uma avalanche de informações sobre a Covid-19 por várias mídias que trazem bastante ansiedade e apreensão. Os efeitos do isolamento social vão desde a falta de estar ao ar livre, como a privação de contato social e o excesso de uso de telas. A escola é um ambiente onde a criança/adolescente recebe aprendizado, mas também onde ela encontra segurança e contato social. O estudo também vai mostrar a percepção dos pais sobre a saúde mental das crianças e as estratégias utilizadas para lidar com o estresse desse momento tão difícil.

Qual a percepção da equipe do projeto sobre a reabertura das escolas?

Os pesquisadores do Projeto COVIDpro escola entendem que reabrir escolas não significa apenas abrir portões e chamar funcionários, significa, antes de tudo, preparar a escola com adaptações de infraestrutura e de organização escolar, adoção de protocolos que garantam a segurança de todos e implementação de medidas em um âmbito maior para reduzir a transmissão comunitária na escola, para que a reabertura seja segura para todos. A identificação do impacto nas crianças e professores pode auxiliar também na implementação de ações mitigadoras que podem ser iniciadas mesmo antes que o retorno escolar presencial ocorra.

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