Gastrosquise: um desafio para a cirurgia pediátrica (II)

Enquanto no mundo inteiro a ciência busca causas e analisa possíveis fatores da gastrosquise, uma equipe de profissionais da saúde que envolve diferentes áreas do Instituto Nacional de Saúde da Mulher da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) – instituição no qual a malformação responde a quase a metade de suas internações por patologias neonatais cirúrgicas –, aplica um protocolo médico e técnicas cirúrgicas específicas, que faz com que se tenha reduzido a mortalidade associada a essa malformação para 10%.


Maria Lúcia da Silva, neonatologista coordenadora do Projeto de Atenção Integral à Saúde da Criança com Gastrosquise em Pré, Trans e Pós-operatório do IFF/Fiocruz

O atendimento apropriado irá definir os bons resultados. Como mencionado antes, uma gastrosquise simples tratada adequadamente tem um bom prognóstico de sobrevida. A coordenadora do Projeto de Atenção Integral à Saúde da Criança com Gastrosquise em Pré, Trans e Pós-operatório do IFF/Fiocruz, a neonatologista Maria Lúcia da Silva afirma que “o tratamento definitivo requer fechar cirurgicamente o defeito da parede abdominal. A complexidade está no fato que nem sempre é possível o fechamento em uma única etapa devido desproporção conteúdo/continente que pode levar a níveis intoleráveis para o funcionamento dos órgãos intra-abdominais e inclusive a um colapso respiratório”.

Maria Lúcia também detalha que o recém-nascido deve ser monitorizado para detecção precoce de sinais e sintomas que indiquem hipotermia, hipotensão, insuficiência respiratória e choque. Idealmente deve ser submetido a tratamento cirúrgico com até seis horas de vida. “Quando não é possível o fechamento em tempo único é feito o fechamento estadiado. Neste tratamento, as alças intestinais são colocadas dentro de um compartimento formado por uma tela de material maleável, não poroso e estéril, tipo saco plástico, que é fixado ao redor do defeito, mantendo o bebê em decúbito lateral direito para prevenir a torção dos intestinos. Assim, o fechamento da parede abdominal só é realizado após redução gradual do intestino para a cavidade abdominal, o que dura geralmente de cinco a 15 dias”.


O fechamento estadiado da parede abdominal só é realizado após redução gradual do intestino para a cavidade abdominal, o que dura geralmente de cinco a 15 dias

Para Maria Lúcia da Silva o importante é que o parto seja realizado em um centro de saúde terciária com Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal e uma equipe multidisciplinar treinada no tratamento da gastrosquise, que inclua: obstetra, neonatologista, cirurgião pediatra, anestesista e enfermagem especializada. O pré-natal deverá ser acompanhado de perto por profissionais com expertise em gastrosquise pois, conforme explicado, complicações que podem levar ao óbito intraútero são comuns se não forem tratadas adequadamente. O parto poderá ser por via vaginal ou cesariana, baseado na indicação obstétrica.

Após a cirurgia

Para uma mãe de um recém-nascido com gastrosquise é natural a inquietação em relação ao tempo que seu filho vai ficar na UTI Neonatal. Sobre isso, a neonatologista e integrante dos projetos de Atenção Integral à Saúde da Criança com Gastrosquise do IFF/Fiocruz, Bianca Martins, explica que “é difícil saber quanto tempo ele vai ficar internado, mas a média do Instituto são 31 dias. Depois da cirurgia, o maior risco de complicação é a infecção pelo cateter pelo qual é feita a nutrição venosa e a infecção no intestino (enterocolite necrosante), principalmente se não for usado o leite materno”.

Bianca explica que um bebê com gastrosquise vai conseguir mamar no peito, mas só depois de alguns dias ou semanas. O leite materno é o melhor alimento para o bebê; por isso a mãe ainda com seu filho na UTI não deve de deixar de estimular a produção de seu leite. É importante entrar em contato com o Banco de Leite Humano (BLH) mais próximo para saber como proceder. A equipe do BLH do IFF/Fiocruz também pode orientar as mães sobre esta estimulação através do telefone 0800 0268877.

Sobre possíveis complicações pós-operatórias tardias, após a alta hospitalar, Bianca cita a obstrução intestinal, que pode acontecer se o intestino se torcer dentro do abdômen. “Se a barriga ficar inchada, ele parar de evacuar e eliminar gases, os pais devem procurar um médico”.



Ariana Braga com seu filho que nasceu com gastrosquise no IFF/Fiocruz. Foto: Mayra Malavé

Mensagens de esperança

Ariana Braga Silva, 30 anos, moradora de Campo Grande (RJ) e mãe do J.B.S., nascido em março deste ano no IFF/Fiocruz, acha que o principal apoio que os pais recebem é da família e do hospital. Para ela, as mães que acabaram de receber o diagnóstico devem se dirigir a uma clínica da família, procurar o encaminhamento para um lugar que tenha atendimento especializado para essa malformação e ter fé que seu filho vai sobreviver.

A mãe do O.C.S., Marina Mendes recomendaria a outras mães que estejam passando por esse diagnóstico em seu filho, “não se ligar com as informações que aparecem na internet, porque nem sempre vai achar coisas boas e nesse momento é desnecessário. Como mãe, você já está muito aflita, com medo do que vai acontecer, por isso também é importante não perder a fé, procurar o apoio psicológico dos hospitais e não ligar para comentários negativos. Se no pós-parto tiver que voltar para casa sem seu bebê, deve compreender que, em compensação, o tempo que o bebê levar hospitalizado é para ele ficar bem. Aqui no Instituto eles estão bem, aqui tem uma equipe maravilhosa”, conclui.

Quando foram feitas essas entrevistas, Marina já dava de mamar para seu filho, que ainda estava se recuperando no IFF/Fiocruz, e Ariana tinha começado a participar de um projeto de palestras no Rio de Janeiro, com intuito de conscientizar a população sobre a gastrosquise.

Para mais informações acesse: http://www.iff.fiocruz.br/index.php/8-noticias/661-gastrosquise-um-desafio-para-a-cirurgia-pediatrica-i

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