Encontro Celebra o Dia Internacional da Mulher no IFF/Fiocruz

A Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz) e o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) promoveram, na terça-feira (10/3), um encontro pelo Dia Internacional da Mulher. O evento, que ocorreu no anfiteatro do Centro de Estudos Olinto de Oliveira, no IFF, debateu a trajetória histórica do movimento pelos direitos das mulheres e a realidade do sexo feminino no século 21, que apesar de muitas conquistas ainda se apresenta difícil para boa parte delas e com lutas a enfrentar.

 
A mesa de abertura do evento foi composta exclusivamente por mulheres (foto: Peter Ilicciev)

A mesa de abertura foi composta exclusivamente por mulheres, já que além daquelas que foram previamente convidadas, os homens que participariam abriram mão em favor de outras mulheres, que trabalham nas equipes de cada um. Em uma breve intervenção, o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde fez uma saudação às mulheres do campo, da floresta e das cidades. Para a vice-diretora de Ambulatórios e Laboratórios da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), Fátima Maria Gomes da Rocha, o desejo por utopias é uma marca do movimento feminista, que tem ganhado cada vez mais visibilidade, sobretudo a partir da mobilização de mulheres jovens. “São essas jovens que estão ensinando, a tantas outras mulheres, o que é ser mulher. A cada manifestação, a cada encontro, mais mulheres se conscientizam de sua força, dos seus direitos e de sua potência”. Ela citou a canção Mulher do fim do mundo, de Elza Soares, e o Poemeto de amor ao próximo, de Elisa Lucinda, como marcos desse momento.

Para a vice-presidente do Sindicato dos Servidores de Ciência, Tecnologia, Produção e Inovação em Saúde Pública da Fiocruz (Asfoc-SN), Mychelle Alves, “a luta das mulheres não é contra os homens. Eles precisam estar juntos conosco”. Ela disse que as mulheres estão na base da pirâmide social e sofrem imensamente com discriminações várias e enfrentam um assustador aumento dos casos de feminicídio no Brasil. Mychelle conclamou todos à participação nas manifestações em defesa da saúde pública, em 14 de março, e do serviço público, no próximo dia 18. 


Evento debateu a trajetória histórica do movimento pelos direitos das mulheres e a realidade do sexo
feminino no século 21 (foto: Peter Ilicciev)

A assessora da VPAAPS Patricia Couto disse que as mobilizações pelo 8 de Março devem ser encaradas como forma de conquistar (e manter) direitos. Em seguida ela historiou o surgimento e desenvolvimento do movimento de mulheres, nos Estados Unidos e na Europa.

Após as intervenções da mesa de abertura, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, fez a conferência Fiocruz 120 anos: a mulher na ciência. Ela disse que, apesar de numerosas conquistas femininas, a mulher ainda não tem o reconhecimento merecido nas ciências médicas e biológicas e exatas, que é um cenário um pouco diferente nas ciências humanas e sociais. Nísia lembrou que foi apenas em 1879 que a Reforma Leôncio de Carvalho regulamentou a escolarização feminina no nível superior. Passaram-se mais quatro anos até que fosse permitida a matrícula de mulheres. E foi apenas em 1926 que Zinaide Block se tornou a primeira mulher no Curso de Aplicação do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), embrião da atual da Fiocruz. Já a primeira mulher brasileira a se formar médica foi Maria Augusta Generoso Estrela, mas não no Brasil. O marco ocorreu em 1881, no New York Medical College.

 


Após as intervenções da mesa de abertura, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, fez a
conferência 'Fiocruz 120 anos: a mulher na ciência' (foto: Peter Ilicciev)

Nísia citou ainda o livro Olhai os lírios do campo, escrito por Erico Verissimo, que tem como uma de suas personagens principais Olívia, uma médica que sofre enorme preconceitos por atuar na profissão nos anos 1930. E ainda o livro (e a série de TV) O conto da aia, que mostra um futuro distópico em que as mulheres são vistas apenas como parideiras e empregadas por um regime brutal. Ela citou a obra para dizer que avanços podem ser revistos e retrocessos podem acontecer. “A ideia de progresso precisa ser contestada. Na Europa, o século 18 foi mais emancipador do que o século 19, que teve momentos obscuros devido à reação. Nada assegura os direitos adquiridos, apenas a mobilização e a constante luta por eles”.

A presidente também recomendou a leitura do artigo científico Institucionalização das ciências, sistema de gênero e produção científica no Brasil (1939-1969), publicado na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos. O artigo mostra que as experiências de educação feminina em nível superior, implantadas a partir da década de 1930, promoveram a inserção profissional de mulheres no mundo acadêmico. Uma análise que foi largamente negligenciada na historiografia brasileira das ciências.

No caso da Fiocruz, a presidente reconheceu que ainda há muito o que avançar. “As mulheres são 56% da força de trabalho dos servidores da Fundação, mas em geral não ocupam muitos cargos no alto da hierarquia. E dos 38 membros do Conselho Deliberativo, a mais alta instância da Fiocruz, apenas 15 são mulheres”. Nísia disse que desde que assumiu a Presidência, em 2017, todas as aulas inaugurais do ano letivo da Fundação são feitas por mulheres. Ela anunciou como uma das grandes conquistas recentes a criação do Comitê Fiocruz Pró-Equidade de Gênero e Raça. Nísia afirmou que a Fiocruz tem investido muito na formação de cientistas mulheres, por meio de ações focadas em jovens estudantes.

Logo após a conferência da presidente houve a exibição de um vídeo com dezenas de fotos de mulheres trabalhadoras do IFF. Mulheres de todos os setores do Instituto, com o fundo musical de Maria, Maria, de Milton Nascimento.

Depois da homenagem foi realizado o painel Direitos das mulheres: uma luta constante, com Adriana Mota (Articulação de Mulheres Brasileiras), Jaqueline de Jesus (Instituto Federal do Rio de Janeiro), Alicia Krüger (Associação Brasileira pela Saúde Integral de Travestis, Transexuais e Intersexos), Roseli Rocha (IFF e Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça) e Maria do Carmo Leal (Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), coordenado por Claudia Bonan (IFF). Jaqueline de Jesus baseou sua intervenção na vida de Sojourner Truth, que nasceu escrava em Nova York sob o nome de Isabella Van Wagenen, em 1797, e foi tornada livre em 1787, em função da Northwest Ordinance, que aboliu a escravidão nos Territórios do Norte dos Estados Unidos. Sojourner viveu alguns anos com uma família quaker, onde recebeu alguma educação formal. Tornou-se uma pregadora pentecostal, ativa abolicionista e defensora dos direitos das mulheres. Em 1843 mudou seu nome para Sojourner Truth, que significa Peregrina da Verdade. Em 1851 ela escreveu o discurso E não sou uma mulher?, considerado um marco histórico/político para as mulheres negras. 


O evento também contou com o painel 'Direitos das mulheres: uma luta constante' (Foto: Peter Ilicciev)

A farmacêutica epidemiologista Alicia Krüger interveio em seguida, discorrendo sobre saúde, gênero e empoderamento feminino. Definindo-se como mulher e travesti, ela abordou questões como o tripé do sexo biológico: genético, gonadal e genital. Segundo ela, o 8 de março é o Dia de Todas as Mulheres, tenham elas nascido mulheres ou homens, como no caso dela. A ativista Adriana Mota disse que as pessoas devem ser amadas independentemente de sua orientação sexual e recordou as lutas das mulheres desde a redemocratização do país em 1985.

A assistente social Roseli Rocha abordou a atuação do Comitê Pró-Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, que tem por objetivo consolidar uma agenda institucional pelo fortalecimento dos temas étnico-raciais e de gênero, colaborando para uma constante atualização e reorientação de políticas, bem como de ações, seja nas relações de trabalho, no atendimento ao público e na produção e popularização do conhecimento. Por fim houve a intervenção da médica Maria do Carmo Leal, coordenadora do estudo Nascer nas Prisões, realizado pela Fiocruz, que descreveu pela primeira vez, em nível nacional, o perfil da população feminina encarcerada que vive com seus filhos em unidades prisionais das capitais e regiões do Brasil, assim como as características e as práticas relacionadas à atenção, à gestação e ao parto durante o encarceramento.

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