Evento discute cuidado à pessoa vivendo com HIV/Aids

Como fazer mais e melhor no cuidado às pessoas vivendo com HIV/Aids no cenário atual? Pesquisadores, gestores e ativistas buscaram respostas para essa questão durante o primeiro dia do Seminário “Coro de Vozes em uma Teia de Significados: sobre o cuidado às pessoas vivendo com HIV/Aids na rede de Atenção à Saúde”, realizado nos dias 11 e 12 de fevereiro, na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

Mais de 90% das unidades que prestam assistência às pessoas que vivem com HIV/Aids (PVHA) na cidade do Rio de Janeiro são municipais. Esse foi um dos dados do panorama que Guida Silva,  subsecretária de Promoção, Atenção Primária e Vigilância em Saúde, Gerência de IST/Aids, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, mostrou em sua apresentação sobre a linha de cuidado às PVHA na cidade do Rio de Janeiro. Segundo ela, a atenção está concentrada na Atenção Básica, em que 60% das PVHA receberam cuidados em 2019 no município, enquanto 42% foram tratadas na atenção secundária e 8% na atenção terciária. Em 2019, o município contou com 120 unidades dispensadoras de medicamentos. O número de pacientes cresceu de 8 mil para 34 mil entre 2012 e 2018.

Foram contabilizadas 34.221 pessoas em tratamento no município em 2019. Os dados são de 2019, mas, como lembrou Guida, podem aumentar ao ser finalizada a contagem do ano passado. “Ao longo da última década, o investimento material, simbólico e político foi evidente na atenção básica e menor na atenção especializada ambulatorial e hospitalar”, identificou Eduardo Melo, que apresentou resultados preliminares de pesquisa sobre os desafios do cuidado nas redes de atenção à saúde no município do Rio de Janeiro.

As principais questões ligadas à linha de cuidado que precisam ser debatidas, conforme apontou Guida, são o fortalecimento e esclarecimento a respeito de como funciona o sistema de regulação, além de garantir o direito ao sigilo do diagnóstico. “As pessoas vivendo com HIV/Aids têm por direito decidir se querem se tratar na Unidade Básica de Saúde (UBS) da sua área de residência ou em outra UBS. O direito visa preservar o sigilo e aumentar a adesão de pacientes. Muitas vezes, os familiares da pessoa que vive com HIV/Aids se tratam na mesma UBS e nem sempre o paciente quer abrir o  diagnóstico”, exemplificou.  “A ideia é que, em todo o município, a atenção se dê de uma forma padronizada, mas não engessada”. Deve haver um pacto entre os gestores dos diversos níveis de atenção, e o funcionamento do sistema de regulação é muito importante para fazer prevalecer a lógica de “vai primeiro quem precisa mais”, observou.

“A distribuição de preservativos feita pelo governo federal diminuiu muito, atingiu níveis críticos, e o município está em vias de precisar comprar para manter a distribuição”, criticou a subsecretária. Guida observou, também, que todos os diagnosticados com HIV devem fazer profilaxia de infecção latente de tuberculose, uma comorbidade comum, mas só de 10 a 12%  receberam o tratamento preventivo de maneira adequada. Juan Carlos Raxach, da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), lembrou que o evento aconteceu poucos dias depois de o governo tratar as pessoas que vivem com HIV/Aids como “despesas”. “Muitas pessoas vão voltar a esconder sua sorologia por causa do estigma”, lamentou.

Ela fez um panorama do crescimento do uso do teste rápido para diagnóstico, que foi incorporado à atenção básica desde 2013. Falou ainda dos Protocolos e Diretrizes Terapêutica, como da Profilaxia Pós-Exposição, a qual vem sendo muito procurada. Foram 6.932 procedimentos entre os casos de exposição por via sexual, de vítimas de violência ou exposição ocupacional. A Profilaxia Pré-Exposição (PREP) - em que pessoas com alto risco de serem expostos ao vírus utilizam medicação antirretroviral preventivamente - ainda é pouco conhecida, segundo Guida, e é feita no Hospital Municipal Rocha Maia, no Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz) e, desde fevereiro deste ano, no Hospital Gaffrée e Guinle. Foram 820 atendidos no Rocha Maia, 1.441 no INI e 71 no Gaffrée, contabilizou.

A mesa de abertura do evento contou também com a presença de Maria Eduarda Aguiar, do Grupo Pela Vidda Rio, organização da sociedade civil que milita por acesso a tratamento de qualidade e redução do estigma em torno da pessoa vivendo com HIV/Aids. Ela criticou a falta de insumos para o tratamento e a prevenção, afirmando que a carência afeta a qualidade de vida das pessoas e aumenta o risco de transmissão. “Não temos nada a comemorar. Peço que a gente reflita o quanto essa política desastrosa pode e vai aumentar o risco e as infecções pelo HIV.

Violência urbana e estigma têm impacto no cuidado

Eduardo Melo, pesquisador da ENSP, falou dos resultados preliminares de pesquisa sobre os desafios do cuidado nas redes de atenção à saúde no município do Rio de Janeiro. O trabalho de campo foi realizado entre 2018 e 2019 e observou o trânsito dentro do sistema de saúde de pessoas que vivem com HIV/Aids.

A pesquisa, coordenada por ele e por Ivia Maksud do IFF/Fiocruz, foi feita sem financiamento, em uma área programática localizada na região central da cidade, que dispõe de duas Unidades Básicas de Saúde, sendo uma Clínica de Família e uma clínica ampliada, conhecida como tipo B, que dispõe de algumas especialidades médicas. Na área programática observada, há também um serviço especializado no cuidado de PVHA. Um dos resultados observados foi que a violência armada na cidade e as questões de preconceito e machismo têm repercussão na prevenção e cuidado das PVHA. “Houve casos de pessoas expulsas do bairro por causa do diagnóstico”, relatou. Para o pesquisador, é muito importante que se garanta o sigilo e se preserve o direito de o usuário escolher a unidade em que quer se tratar. “Essa exceção à regra da territorialidade da rede é centrada na necessidade do usuário no contexto específico, com o objetivo de reduzir os impactos do estigma e garantir a integralidade do tratamento”, afirmou.

Durante o debate, surgiram questões na plateia a respeito do cuidado à saúde mental das pessoas soropositivas, da importância do treinamento das equipes que lidam com o teste rápido na atenção básica e o impacto da alta rotatividade dos profissionais de saúde, e da laicidade do sistema público. “Nenhum modelo vai funcionar bem na crise”, lembrou Rubem Mattos, do IMS/UERJ”, que lamentou as demissões recentes de profissionais das equipes de Saúde da Família e o congelamento de verbas direcionadas às políticas públicas que impactam a Saúde em sua totalidade a partir da Emenda Constitucional 95.

“Cuidado e tratamento não são a mesma coisa”, apontou Veriano Terto Jr., da Abia, que falou do acolhimento da dimensão da dor e da dificuldade de adesão ao tratamento quando o paciente não tem suas necessidades específicas ouvidas. “A pessoa só escuta que tem que tomar o medicamento, de maneira repetida e automática. Há um silenciamento da dimensão da dor”, observou.

O evento foi organizado pela Fundação Casa de Rui Barbosa, pelo Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) e pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz).

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