Quando a arte ressignifica a vida

Há vinte anos, a médica pediatra do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) Roberta Tanabe vem se dedicando ao cuidado de crianças que vivem longamente internadas devido à gravidade de suas condições crônicas de saúde. O livro Mosaico – vidas em reinvenção, a ser lançado na próxima quarta-feira (30/10) pela Editora Texto Território, traduz em palavras essa experiência inquietante e potencialmente transformadora. Dividida em três partes, cada uma delas correspondendo a uma das vozes que compõem a cena – crianças, famílias e profissionais de saúde -, a obra tem como proposta apresentar uma perspectiva caleidoscópica do cuidado, possibilitando o deslocamento entre essas diferentes posições e a própria ressignificação da vida.


Médica acredita que literatura a fez enxergar o mundo de modo mais atento e sensível (Foto: Divulgação)

Quando começou a escrever histórias, feitas a partir de pequenos fragmentos transformados do cotidiano, Roberta não tinha a intenção de publicá-las. Ao apresentar alguns dos textos a amigos, no entanto, ela se deu conta de que seus escritos poderiam alcançar outros leitores por meio da partilha da sensibilidade, território comum ao humano. “O espaço para a arte é importante porque dialoga com a vida. Como médica, comecei a enxergar o mundo de um jeito mais atento e sensível. Acho que a expressão literária é uma forma que acionei para valorizar as pessoas e suas histórias, que, ao serem transformadas em letras, permanecem vivas”, acredita a autora. Na entrevista a seguir, ela nos conta um pouco do processo de construção da sua escrita e da expectativa com relação ao livro que, em breve, ganhará o mundo.

Como se deu a escolha do título?

O dilema dos títulos é sempre o mesmo, eles vão mudando ao longo do processo de escrita. Mas nenhum nos pareceu tão preciso quanto o que escolhemos. Mosaico é uma metáfora apropriada para a vida, pois, na instabilidade provocada pela experiência de dor, há a ideia de se desfazer em pedaços, perdendo a conformação original. O todo passa a ser construído a partir de novos arranjos dos fragmentos, e assim é a experiência de crianças, famílias e profissionais que se veem confrontados com os limites impostos pelas doenças e outras circunstâncias adversas. Suas vidas estão em constante reinvenção, deixando para trás algum pedaço para incorporar outros, recriando novos desenhos e possibilidades.

Como aconteceu sua incursão na literatura?

Comecei a escrever em 2016, logo após ter ingressado no doutorado no IFF/Fiocruz, por sugestão da professora Claudia Bonan. Conversando sobre o desejo de mudar meu projeto a partir de inquietações da cena clínica, fui incentivada por ela a colocar no papel as histórias que tinham me marcado na experiência do cuidado às crianças na terapia intensiva. Assim nasceu a primeira crônica, seguida por inúmeras outras. Escrever, mais do que um hobby, tornou-se um caminho de expressão. Junto comigo e acompanhando o nascimento de cada texto, estava a professora Martha Moreira, amiga e orientadora, que, com muita sensibilidade, acolheu a produção literária como parte do projeto de tese que estava se delineando, e a produção técnica e a literária puderam se encontrar de forma harmônica. Em 2017, participei da Oficina Literária do Instituto, organizada pelos professores Marcos Nascimento e Cynthia Magluta como atividade do Projeto Fiocruz Saudável, e foi onde conheci os escritores e professores Oswaldo Martins e Alexandre Faria, sócios da Editora Texto Território. Como resultado dessa iniciativa, em 2018 foi publicado o livro Artesania de textos: invenção de parentalidades, uma obra coletiva com textos de 12 autores, que representou a minha estreia como autora.


Mosaico é a primeira incursão solo de Roberta na literatura (Foto: Divulgação)

Por que a escolha da crônica, como gênero, para falar da experiência do cuidado?

A crônica é um gênero que me interessa por ser breve em dizer e onde não cabe o desperdício de palavras. Com a vida tão corrida de todos nós, muitas vezes não temos tempo de ler uma obra mais longa. A crônica é generosa, nesse sentido, porque contempla a todos, mesmo os que têm o tempo curto. Além disso, ela combina bem com esse olhar atento para o cotidiano, para os fatos que nos visitam todos os dias e que acabam por parecer banais. O exercício de concisão que ela convoca remete à simplicidade, que tanto prezo.

Quem você espera que leia o livro e por quê?

Espero que todos possam ler o livro, afinal ele trata do cuidado, uma experiência que concerne a todas as pessoas. O homem é um ser gregário, a interdependência dos seres humanos é um fato. E o cuidado nos conecta: todos fomos, somos ou seremos um dia cuidadores e objeto de cuidados. Como autora, o desejo sempre é de que o livro possa ser lido pelo maior número de pessoas. Aquelas que já estão afeitas ao universo da experiência de situações graves de saúde, acredito que, talvez, possam se identificar com algum ponto ou perspectiva apresentado. No entanto, as que desconhecem sobre o quê e de quem falo podem se surpreender ao descobrir uma realidade que é invisível para o grande público.

Você acredita que profissionais de saúde podem se beneficiar da leitura da obra?

Acredito no poder da literatura para conseguir dizer o que, por vezes, parece intraduzível e incomunicável. Sinceramente, não sei se minhas histórias conseguirão esse intento. Quando as escrevi, fiz para dar vazão ao que não cabia em mim. Se, porventura, as histórias puderem beneficiar alguém, ficarei muito feliz por ter sido útil. Na correria do dia a dia, às vezes nosso olhar está capturado por coisas que nos parecem muito urgentes e importantes. A ficção propicia o exercício de experimentar ocupar outros lugares, o que me fez perceber os fatos de forma diferente. Se os leitores, sejam profissionais de saúde ou não, permitirem-se o deslocamento de onde estão pela imaginação, poderão se beneficiar, no mínimo, do exercício da criatividade e do descondicionamento do olhar. Se essas reflexões produzirem melhorias para todos os envolvidos no cuidado, melhor ainda.

Serviço

O quê: Lançamento do livro Mosaico – vidas em reinvenção
Quando: 30/10/2019, às 18h30
Onde: Da Silva – Rua Professor Alfredo Gomes 14 - Botafogo
Preço: R$ 40,00 (Vendas pelo site www.textoterritorio.com.br )

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