Seminário aborda cuidado compartilhado nos vários níveis do SUS

O Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) promoveu, durante a manhã da última terça-feira (22/10), no Anfiteatro A do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO), o seminário Transferência de Cuidados de um Ambulatório de Referência para a Atenção Básica. O evento é um dos produtos gerados pelo projeto de mesmo nome, liderado pela assistente social e coordenadora de Atenção à Saúde do Instituto, Dolores Vidal, e desenvolvido com recursos do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas, Modelos de Atenção e Gestão em Saúde (PMA) da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fiocruz.


Mesa de abertura enfatizou importância do tema para fortalecimento do SUS (Foto: Irene Kalil)

Além da coordenadora do projeto, estiveram presentes à mesa de abertura a coordenadora da Unidade de Produção Ambulatórios do IFF/Fiocruz, Lilian Cagliari; a coordenadora da Área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente, Cláudia Dayube; o presidente do CEOO, Antonio Meirelles; a representante da Coordenação do PMA Rosane de Souza; e o diretor do Instituto, Fábio Russomano. Todos destacaram a importância do aprimoramento da transferência de cuidados e da troca de experiências exitosas entre instituições para a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS) no sentido de assegurar a atenção contínua e integral aos usuários.

Dolores frisou que a ideia norteadora foi melhorar o processo de transferência do cuidado, o que, no cotidiano do SUS, é conhecido como contrarreferência. “Identificamos que estávamos com dificuldade de viabilizar o retorno dos nossos usuários para a Atenção Básica, que é de onde eles vêm. E isso impacta diretamente na criação de vagas na atenção terciária e na colocação do usuário no seu ponto adequado do cuidado dentro da rede de saúde. Então, desenvolvemos essa estratégia, que chamamos de ‘transferir o cuidado com cuidado’. E é impossível pensar a transferência do cuidado para a Atenção Básica sem dialogar com ela”, declarou. Russomano, por sua vez, ratificou a fala da coordenadora de Atenção à Saúde, ressaltando que o SUS pressupõe uma rede horizontal organizada em vários níveis. “E todos esses níveis, incluindo unidades de atenção terciária, como o Instituto, têm igual importância no cuidado”. 


Coordenadora de Atenção ressaltou importância do diálogo com a Atenção Básica (Foto: Irene Kalil)

A professora assistente e preceptora do Programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Thaís Yamamoto ministrou a palestra Atenção Básica - Potencialidades e Desafios. Como especificidades do cuidado prestado pelo médico de família e comunidade, ela destacou a proximidade com os usuários, a continuidade do acompanhamento, o olhar integral para a saúde dos indivíduos e a competência cultural, que o torna capaz, entre outras coisas, de traduzir a linguagem médica para a linguagem popular e de entender que existe uma série de fatores, para além do componente biológico, que atuam nos processos de saúde e doença. Thaís ressaltou, ainda, a necessidade de fortalecer as famílias e cuidadores das crianças com condições crônicas complexas, atuando no cuidado a sua saúde física e psicológica e na prevenção do abandono e de maus tratos com essas crianças e adolescentes.

Entre os principais problemas enfrentados na Atenção Básica relacionadas à transferência do cuidado, ela relatou o despreparo de parte dos profissionais que atuam nesse nível do sistema, mas não possuem a formação em medicina de família e comunidade. “Muitos permanecem atrelados ao paradigma biomédico e não estão capacitados para lidar com gente, ouvir gente, tocar em gente. A Política Nacional de Atenção Básica, aprovada em 2017, também concorreu para uma maior precarização das equipes e rompeu a prioridade da Estratégia de Saúde da Família como modelo estruturante do cuidado em nível primário”, completou.


Papel da Atenção Básica como centro coordenador do cuidado foi destaque na fala de Thaís Yamamoto (Foto: Irene Kalil)

A Transferência de Cuidados no Ambulatório de Crianças e Adolescentes do IFF/Fiocruz foi o título da fala da pediatra do Ambulatório de Crianças e Adolescentes do IFF/Fiocruz Alessandra Marins Pala. Ela contou que o projeto surgiu de uma dificuldade real enfrentada pelo Ambulatório de Pediatria do IFF/Fiocruz. “Tínhamos muitas crianças saudáveis sendo atendidas aqui e, ao mesmo tempo, falta de vagas para aquelas que, realmente, precisavam de atenção especializada”. Em uma dissertação de mestrado, defendida em 2010 pelo pediatra Amaro Filho, chegou-se ao número: mais de 50% das crianças acompanhadas não tinham qualquer patologia crônica. “Então, tivemos de enfrentar a questão da transferência do cuidados dos usuários sem condições complexas para unidades da Atenção Básica, além de lidar com o compartilhamento do cuidado das crianças que transitam por ambos os níveis de atenção, e, ainda, com o processo de transição desse cuidado, garantindo que não houvesse descontinuidade da atenção prestada”, afirmou a médica.


Alessandra Pallas apresentou resultados da estratégia para transferência do cuidado com cuidado (Foto: Irene Kalil)

Os impactos dessa estratégia, de acordo com Alessandra, foram significativos, principalmente na qualificação do atendimento realizado pelo Ambulatório de Pediatria, sem desperdício de esforços com aqueles usuários que poderiam ser acompanhados em unidades de atenção primária, e na abertura de novas vagas para crianças e adolescentes com condições crônicas complexas. “Além disso, é fundamental entender qual é o papel de cada ponto da rede para que cada um faça bem a sua parte, apoiando os demais elos do sistema e favorecendo o fortalecimento do SUS”, concluiu ela.

O projeto Transferência de Cuidados de um Ambulatório de Referência para a Atenção Básica, contemplado no edital de 2015 do Programa de Pesquisa em Políticas Públicas, Modelos de Atenção e Gestão em Saúde (PMA) da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas da Fiocruz, teve como participantes, além da assistente social Dolores Vidal, as também assistentes sociais Aline Santos e Daise Moura, os médicos Antonio Albernaz e Alessandra Marins Pala e as enfermeiras Cleide Marques e Ana Paula Saboia.

• Acesse a cartilha Transferência do Cuidado entre os Níveis da Atenção à Saúde

• Assista ao vídeo Transferência de cuidados de um ambulatório de referência para a atenção básica 

Informações Adicionais