IFF e VPAAPS realizam o 1º Congresso de Condições Crônicas Pediátricas

O 1º Congresso de Condições Crônicas Pediátricas do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) em parceria com a Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz) aconteceu, de 23 a 26/9, e teve como tema Condições Crônicas Complexas em Pediatria: Manejo Clínico e Diálogo com a Rede. A proposta do evento, que contou com mais de 250 inscritos, foi de estabelecer intercâmbios no campo pediátrico, envolvendo profissionais, serviços de referência, Ministério da Saúde (MS) e população usuária. A programação científica foi composta por nove minicursos de diferentes temas, seguidos de dois simpósios, realizados nos dias 23 e 24/9. Já no dia 25/9, a abertura do congresso contou com representantes de instituições, como Ministério da Saúde, Hospital Regional de Ceilândia, Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira (IPPMG), Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe) e Superintendência da Atenção Primária a Saúde da Secretaria do Estado do Rio de Janeiro (SES-RJ). “Convidamos profissionais de serviços de referência de outros estados e regiões do país para apresentar e debater suas estratégias com o objetivo de permitir que essas crianças, adolescentes e suas famílias não precisem passar a vida dentro do hospital”, alegou a coordenadora da Área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente do IFF/Fiocruz, Claudia Dayube.

Representando a Diretoria de Publicações da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) Joel Bressa da Cunha iniciou a mesa de abertura. “Parabenizo pelo sucesso do congresso, qualidade da programação científica e, sobretudo, pela relevância do tema. Desejo que todos os objetivos sejam atingidos plenamente”, saudou ele. A assistente social e coordenadora da Enfermaria da Pediatria do IFF/Fiocruz e do evento científico, Mariana Setúbal, falou em nome da Comissão Organizadora do evento. "O motivo da escolha do tema se traduz em dois momentos. O primeiro deles, na necessidade de revisitar constantemente o nosso cuidado em saúde na busca pelas boas práticas e as melhores evidências. O segundo, no que hoje é um dos principais desafios para quem presta esse tipo de cuidado: como estabelecer sinergia e colocar em prática a intersetorialidade com as redes de atenção à saúde e para além delas com o sistema único de assistência social, com redes de reabilitação, de educação, com órgãos que atuam na defesa de direitos, com o sistema judiciário e, no caso de um Instituto Nacional que atua como referência para o Sistema Único de Saúde (SUS), como dialogar com muitos dos 92 municípios do estado do Rio de Janeiro e eventualmente com demais estados do Brasil, de onde advém nossos pacientes e para onde eles esperam poder retornar?”, questionou ela.

A seguir, o coordenador da Área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente do IFF/Fiocruz, Antônio Flávio Vitarelli Meirelles, frisou que o SUS é a nossa realidade e, por isso, trabalhamos e formamos profissionais para melhorá-lo. “Estarmos aqui faz olharmos para um futuro que desejamos para o nosso país, que as redes de atenção básica, de alta complexidade e o cuidado em casa sejam cada vez melhores”, desejou ele. A coordenadora de Atenção à Saúde do IFF/Fiocruz, Dolores Vidal, destacou três aspectos. “Primeiro, a capacidade que a área vem desenvolvendo e se tornando uma referência na discussão das condições crônicas complexas, que se dá pelo aprimoramento do processo de trabalho de pensar uma melhoria do cuidado. Outro, é pensar como esse recorte se torna importante em um cenário de defesa do SUS, pois era um tema que estava invisível. Por último, o que é fundamental para isso acontecer é o trabalho em equipe, sendo possível devido ao entendimento que a área tem de que não fazemos saúde só com uma categoria e devemos considerar o usuário em sua totalidade, isso é a integralidade do cuidado e da atenção”, afirmou ela.

Dando continuidade, a coordenadora de Desenvolvimento Institucional do IFF/Fiocruz, Maria Auxiliadora Mendes Gomes, disse estar se sentindo honrada em pautar a questão de como o modelo de atenção a crianças nas suas várias interfaces também precisa ter visibilidade. “A partir da vivência clínica estamos olhando para experiências nacionais de como cuidamos melhor das crianças e suas famílias. É uma honra partilhar essa luta em prol de um SUS que se fortaleça cada vez mais e que cuide melhor das crianças e adolescentes”, declarou ela. O diretor do IFF/Fiocruz, Fábio Russomano, valorizou a continuidade da iniciativa, que começou como uma jornada em 2016, a dedicação da área ao reconhecimento dessas condições e de sua potência em contribuir para a formulação de práticas de cuidado e políticas. “A temática mostra que esse evento transcende o Instituto, pois importa a todos que se deparam com crianças com condições crônicas complexas. É uma área que tivemos oportunidade de aprofundar conhecimentos, atitudes e práticas, que nos diferencia de outras instituições e nos coloca grandes desafios”, avaliou ele.

Com a palavra, o vice-presidente da VPAAPS/Fiocruz, Marco Antonio Menezes, ressaltou que a discussão fortalece muito o papel da Fiocruz como uma instituição pública e estratégica de Estado, além de interagir com várias agendas institucionais importantes. “É uma proposta que articula a formação, pesquisa, atenção e assistência, e essa ação integrada é muito importante para a sustentação do SUS e para o desenvolvimento do nosso país”, esclareceu ele. Para encerrar a mesa de abertura, a presidente da Fiocruz, Nísia Trindade Lima, mencionou o aprendizado que a relação com o Instituto traz para a Fiocruz como um todo. “O IFF/Fiocruz vem contribuindo em inovações que já se estendem para o sistema e também para uma agenda internacional. O grande papel da Fiocruz é trabalhar em rede, precisamos desenvolver cada vez mais essa competência. Pensando dessa forma, é muito importante olharmos para uma perspectiva integrada para todos os níveis da atenção e do cuidado, atenção básica e de alta complexidade, encarando os desafios da desospitalização. Esse congresso é a continuidade de uma jornada de conquistas, trabalhos, orgulhos, alegrias, lutas e propostas que vão continuar”, concluiu ela.


Mesa de abertura (da esquerda para a direita): Mariana Setúbal, Joel Bressa da Cunha,
Dolores Vidal, Marco Antonio Menezes, Nísia Trindade Lima, Fábio Russomano,
Maria Auxiliadora Mendes Gomes e Antônio Flávio Vitarelli Meirelles

Na sequência, o consultor de saúde pública Eugênio Vilaça Mendes apresentou a Conferência Magna, com o tema Modelo de atenção às condições crônicas (MACC) para o SUS e perspectivas de integralidade nas redes de atenção à saúde. Logo no início, fez uma observação sobre o nome do congresso. “Há um problema de comunicação, a gente fala em condição crônica e as pessoas entendem como doença crônica, isso leva a um brutal equívoco, então é muito importante usar o conceito adequadamente, assim como no nome do congresso”, alertou ele. Sobre o diálogo com a rede, pontuou. “Nós só vamos enfrentar o desafio das condições crônicas em geral e das doenças crônicas em particular se superarmos a fragmentação do sistema, e que uma rede é composta por três componentes: população, modelo de atenção e um modelo operacional, e se não mudarmos o modelo de atenção também não vamos ter sucesso em condição crônica”, comentou ele.

O consultor mostrou a transição demográfica no Brasil que, de acordo com pesquisa realizada em 2018 pela Gerência de Estudos e Análises da Dinâmica Demográfica do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população de pessoas idosas em 2019 é de 14% do total, em 2030 será de 17,3%, em 2040 de 21,2% e em 2050 de 25,8%. “A medida que a população envelhece, aumenta significativamente as condições crônicas, especialmente as doenças crônicas”, informou ele, que também abordou sobre a transição epidemiológica no Brasil. “É também como a transição demográfica, muito profunda e rápida, e mostra uma situação epidemiológica de 59,6% em 1990 de doenças crônicas, e em 2018 de 75,8%”, completou.

A respeito da transição dos sistemas de atenção à saúde, Eugênio enfatizou que devemos mudar a forma como organizamos o sistema, saindo do sistema fragmentado para uma rede de atenção à saúde. “Para trabalharmos com rede teremos que fazer uma limpeza na nossa cabeça, pois somos acostumados com o sistema fragmentado. Vamos ter que aprender a pensar em rede e isso é muito complexo, porque significa assumir um pensamento sistêmico, como por exemplo, os problemas só serão solucionados se houver colaboração e interdependência entre todos os atores envolvidos”, garantiu ele. O consultor ainda citou exemplos de condições crônicas: as doenças crônicas, doenças transmissíveis de curso longo, condições maternas e perinatais, os distúrbios mentais de longo prazo, as deficiências físicas e estruturais contínuas, como as amputações e deficiências motoras persistentes, entre outras. “Precisamos conhecer a população para ter sucesso no manejo de condição crônica”, orientou ele.

Para finalizar a conferência magna, Eugênio analisou como necessária a inserção dos hospitais nas redes de atenção à saúde para, assim, migrar de um enfoque intraorganizacional para uma perspectiva sistêmica; trabalhar mais proximamente com parceiros locais, especialmente com a atenção primária à saúde e com os serviços de assistência social; operar com integração vertical com outros equipamentos de saúde compondo redes de atenção à saúde e rompendo os limites organizacionais; e prover serviços por meio de redes horizontais que integrem outros hospitais de agudos e outros equipamentos não hospitalares.


O consultor de saúde pública Eugênio Vilaça Mendes

A programação do dia 25/9 ainda contou com a realização de duas mesas-redondas: Quem somos? Perfil de crianças com condições crônicas complexas em serviços de alta complexidade no RJ e Como preparamos a desospitalização? A experiência do IFF/Fiocruz.

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