Jornada de Enfermagem em Saúde das Mulheres do IFF/Fiocruz evoca representatividade

A 12ª Jornada de Enfermagem em Saúde das Mulheres do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), organizada pela coordenadora da Unidade de Proteção do Ambulatório de Pré-Natal, Rozânia Xavier, e pelo coordenador do Núcleo Interno de Regulação do Instituto, Paulo São Bento, foi aberta na manhã da quarta-feira (21/8), no Anfiteatro A do Centro de Estudos Olinto de Oliveira (CEOO), sob o tema Mulheres negras, violências, acesso, ludicidade e perspectivas para o campo e a enfermagem.

Com a proposta de qualificar os profissionais de saúde para atender as mulheres em sua diversidade, Rozânia e São Bento saudaram os estudantes e profissionais de saúde que chegavam ao Instituto. Eles comemoraram os 12 anos do evento, que vem abordando temas transversais que perpassam a atenção e o cuidado à saúde da mulher, trazendo este ano um cunho político-social. “Não que o evento não tenha falado sobre raça, etnia e questões de violência anteriormente, mas este ano a proposta é valorizar este tema não só no que for apresentado e discutido, mas também nas pessoas convidadas para falar”, explicaram.


A coordenadora da Unidade de Proteção do Ambulatório de Pré-Natal, Rozânia Xavier, e o coordenador do Núcleo Interno de Regulação do Instituto, Paulo São Bento, organizadores da jornada

Sobre a interseção do tema da jornada deste ano com os serviços prestados pelo IFF/Fiocruz, o coordenador de Atenção à Saúde do Instituto, Antonio Albernaz, presente à mesa de abertura representando a Direção, comentou que o Instituto tem se esforçado em reconhecer e atuar, de acordo com as orientações que vêm do próprio corpo clínico, na mitigação de quaisquer formas de violência. “Temos uma formação de residência multiprofissional que reproduz para a rede do SUS as questões que têm sido aqui evidenciadas”, comentou.

A inclusão da enfermagem com mais protagonismo na equipe multidisciplinar representa, para Albernaz, um avanço na atenção ao parto, principalmente o de risco habitual. A iniciativa Aprimoramento e Inovação no Cuidado e Ensino em Obstetrícia e Neonatologia (Apice On), incentivada pelo Ministério da Saúde, é um exemplo de melhoria na qualificação das práticas de humanização da atenção à gestante. “Contribui, sem dúvida, no enfrentamento da questão da violência obstétrica e no reconhecimento da autonomia da mulher sobre as opções em relação ao próprio corpo", finalizou ele.


O coordenador de Atenção à Saúde do IFF/Fiocruz, Antonio Albernaz, destacou o projeto Apice On, uma iniciativa do Ministério da Saúde

Coordenadora de Ensino do IFF/Fiocruz, Martha Moreira falou da importância de se pensar a questão racial no interior do ensino e da formação de profissionais de saúde no Instituto. “O módulo oferecido pela professora Roseli Rocha na residência multidisciplinar trata das dimensões dos marcadores sociais da diferença, incluindo raça, cor e violências, pensando as produções de desigualdades em saúde. Na pós-graduação stricto sensu, há algumas dissertações e teses que já têm incorporado essa discussão. A questão das cotas raciais e étnicas já faz parte da maioria dos nossos editais”, resumiu.

Coordenadora da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Gestante do IFF/Fiocruz, Luciana Fillies ressaltou que a área de obstetrícia tem visto a ocorrência de casos mais graves relacionados à hipertensão na gestação de mulheres negras. “Estamos com grupos de trabalho, como o de violência sexual, revendo alguns fluxos de atendimento e de aborto legal a mulheres que já estão grávidas em decorrência de estupro. Também estamos trabalhando para diminuir o índice de mortalidade de mulheres por hemorragia”, comentou acerca das ações desenvolvidas sob sua coordenação.

Coordenadora da Área de Atenção Cirúrgica à Criança e ao Adolescente do Instituto, Patrícia Marques citou a contribuição da gestão colegiada na diminuição de vieses de desigualdade, a partir do momento em que grupos de trabalhadores discutem processos e fluxos de trabalho junto aos usuários dos serviços de saúde, que passam a fazer parte do processo de cuidado.

Para a gestora do Ambulatório de Ginecologia da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Mulher da unidade, Socorro Pinho, um exemplo de ação não-violenta na ginecologia seria a disponibilização de métodos contraceptivos, inclusive a laqueadura, um direito da mulher com 25 anos de idade ou dois filhos vivos. “Aqui no Instituto, a gente tem isso muito bem concreto e trabalhado, de que é direito dela e do casal. A gente não fica na insistência de que ela não faça aquele processo que ela quer. Isso é trabalhado bastante aqui na equipe”.

Cerimônia da Lâmpada e pôster premiado

Uma cerimônia que tem muita importância para a enfermagem foi conduzida logo após a mesa de abertura. A residente do IFF/Fiocruz na modalidade Enfermagem Obstétrica Ana Luiza de Farias, premiada nesta jornada em 1º lugar na categoria trabalho interno com o pôster “Conhecimento de gestantes dos manejos no aleitamento materno: uma leitura quantitativa”, foi escolhida para acender a lâmpada, que remete à enfermeira inglesa Florence Nightingale. “Florence é um marco para os profissionais da área. Foi uma enfermeira que se destacou pela sua participação na Guerra da Crimeia, quando a enfermagem ainda não era valorizada. Essa cerimônia nos desperta muitos sentimentos, lembra do nosso início e da modernização da profissão. Foi muito emocionante participar, foi inesperado”, contou.


Ana Luiza de Farias acende a lâmpada da enfermagem durante cerimônia conduzida pela coordenadora da Área de Atenção Clínico-cirúrgica à Gestante do IFF/Fiocruz, Luciana Fillies

Ana Luiza ingressou no Instituto ainda na graduação, e seu interesse de pesquisa sempre esteve em torno do aleitamento materno em suas diversas perspectivas. Esta é a temática que a residente continua a pesquisar durante a residência. “Participo da jornada desde 2015. Já vim como ouvinte e como monitora na época que eu era graduanda. Minha pesquisa foi desenvolvida em 2018, com 90 gestantes, no Banco de Leite Humano da instituição. Trouxe para a jornada deste ano dois pôsteres sobre a influência da educação pré-natal no aleitamento materno e no puerpério”, concluiu.


A enfermeira e residente do IFF/Fiocruz Ana Luiza de Farias com o pôster premiado

O tecnologista em saúde pública do IFF/Fiocruz Carlos Eduardo Boller, que fez parte da comissão científica que selecionou os 26 pôsteres desta edição da jornada, dez dos quais de autores externos, sem vínculo com o Instituto, considerou o acervo apresentado este ano rico em sua intersetorialidade. Além de trabalhos sobre gestação e amamentação, ele contou que recebeu muitas pesquisas cujos problemas perpassavam questões sociais. “A gente buscou uma seleção em torno de temas em voga na discussão com a mulher, tanto na busca de literatura, quanto nas pesquisas de campo. O principal fator de corte foi a não submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa”, esclareceu. 

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