Câmara Técnica de Atenção à Saúde da VPAAPS é realizada no IFF/Fiocruz

A Vice-presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz) realizou, em 26/6, a Câmara Técnica de Atenção à Saúde no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). O evento promove um espaço coletivo de discussão, que tem o objetivo de estabelecer uma relação direta com os trabalhadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Durante a abertura, o diretor do IFF/Fiocruz, Fábio Russomano, registrou o prazer em receber, pela primeira vez, a reunião no Instituto. “Nos sentimos reconhecidos e honrados, principalmente pela temática ter tudo a ver com a nossa unidade, que é a maior da Fiocruz dedicada à atenção da saúde”, frisou ele.

Com a palavra, o vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPAAPS/Fiocruz), Marco Menezes, completou. “É muito justo fazermos esse encontro no IFF/Fiocruz porque falamos de atenção e assistência, e aqui é um Instituto Nacional. Ter esse espaço de diálogo com a comunidade de uma forma ampla é muito importante para revigorar a instituição e atualizar o nosso debate”, disse ele. Em sua fala, Marco mencionou a definição das dez prioridades de saúde para 2019 feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS). “O contexto mundial de crises traz grandes desafios e precisamos pensar uma assistência de forma integrada”, afirmou ele.


Mesa de abertura (da esquerda para a direita): Fábio Russomano e Marco Menezes (Foto: Everton Lima)

Sobre o cenário socioeconômico e ambiental, Marco alegou que a Fiocruz tem apresentado propostas concretas a partir de documentos institucionais, com o seu papel de contribuição para a ciência, trazendo discussão científica e fortalecendo o Sistema Único de Saúde (SUS), através de ações integradas com o Ministério da Saúde (MS). “Temos contribuído para evidenciar a realidade nacional frente à grande desigualdade”, comentou ele, que motivou os espaços coletivos a trazerem discussões sobre os 120 anos da Fiocruz, que serão completados ano que vem, com a finalidade de preservar as características, a história e a tradição da instituição, e pensar no futuro.

Para finalizar, Marco abordou a 16ª Conferência Nacional de Saúde (8ª+8), evento que será realizado de 4 a 7 de agosto, em Brasília, para defender os princípios básicos do SUS, a saúde pública como direito de todos e a democracia brasileira como as principais manifestações. "A Fiocruz tem participado com seus profissionais em vários fóruns e, inclusive, é uma das pautas dessa Câmara Técnica, pois faremos contribuições para agregar à 16ª Conferência", encerrou ele. Em seguida, a assessora de Atenção à Saúde da VPAAPS/Fiocruz Patrícia Canto explicou sobre a escolha dos temas Desospitalização e Qualidade na Assistência dos Serviços de Saúde para o debate. “Nos municípios, a Fiocruz tem um protagonismo em políticas nacionais, portanto, a mesa foi pensada na perspectiva do trabalho cada vez mais integrado às unidades de saúde”, declarou ela.

A analista técnica de políticas sociais do MS Débora Spalding Verdi foi convidada para falar sobre o Serviço de Atenção Domiciliar (SAD) na integração entre Atenção Primária e especializada. “É uma grande alegria participar dessa agenda, o IFF/Fiocruz tem sido um grande parceiro, realizando capacitações com vários serviços do Rio de Janeiro”, agradeceu ela. Débora informou que o SAD ou Programa Melhor em Casa é uma modalidade de atenção à saúde caracterizada por um conjunto de ações de prevenção e tratamento de doenças, reabilitação, paliação e promoção à saúde prestadas em domicílio, garantindo continuidade de cuidados e integrada às Redes de Atenção à Saúde (RAS). “Uma discussão recente é sobre ampliar o conceito da necessidade de atenção domiciliar não só para pessoas acamadas ou restritas ao domicílio, e sim como uma modalidade de cuidado que pode ser mais oportuna para muitas situações, como por uma questão de vulnerabilidade social”, pontuou ela.

Em agosto de 2011, Débora contou que foi criado o Programa Melhor em Casa, a partir de experiências já existentes no país. O programa conta, atualmente, com cerca de 1100 equipes, realizando uma média de mais de 2 milhões e 400 mil atendimentos por ano. Para uma melhor organização da rede, foi proposta uma divisão da Atenção Domiciliar em modalidades para facilitar a compreensão do perfil de atendimento prevalente, organizando entre os usuários que devem ser atendidos pela Atenção Primária e os que devem ser atendidos por Serviços de Atenção Domiciliar. “A determinação de modalidade está atrelada às necessidades de cuidado peculiares a cada caso, em relação à periodicidade indicada das visitas, à intensidade do cuidado multiprofissional e ao uso de equipamentos”, esclareceu ela.

Dando continuidade, o pediatra e gestor dos ambulatórios da área de Atenção Clínica à Criança e ao Adolescente do IFF/Fiocruz, José Augusto de Britto, falou sobre o projeto Estratégias de cuidado compartilhado entre Ambulatório de Pediatria, unidades de internação do IFF e a Atenção Primária de Saúde do município do Rio de Janeiro para crianças com condições crônicas e complexas de saúde, que visa identificar quem são essas crianças,  suas necessidades dentro da complexidade de sua doença e assim planejar uma linha de cuidados que estabeleça  vínculo com a  Atenção Primária de Saúde (APS). Nesse contexto, o pediatra citou a parceria com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que permite conhecer os serviços de ambas as instituições, além de estreitar o relacionamento entre as equipes. "A nossa ideia é capacitar equipes das áreas programáticas para possibilitar o entendimento do que seja aquela doença e os cuidados necessários para evitar o estranhamento e o sentimento de impossibilidade de atender a uma criança com doença crônica e complexa fora de um hospital", comentou ele.

A pediatra do Ambulatório de Pediatria do IFF/Fiocruz Alessandra Pala apresentou também o projeto de Transferência de Cuidado, iniciativa que começou como uma ação de intervenção em janeiro de 2014 e que tinha a finalidade de apoiar o paciente que não possuía o perfil de criança crônica complexa e que teria condições de ser acompanhada em uma unidade de atenção básica, como todas as crianças devem ser. Desta forma, criavam-se vagas para novos pacientes que precisavam do serviço. “O paciente era encaminhado para a atenção básica e em torno de até 60 dias após, um profissional do Serviço Social do Ambulatório de Pediatria entrava em contato com o responsável pela criança para confirmar a inclusão naquele serviço. O motivo da transferência de cuidado era explicado para o responsável e informado para a atenção básica e qualquer problema com a vinculação, o Instituto dava suporte para a concretização da transferência”, informou ela.

Em relação à desospitalização, uma das dificuldades relatadas pela pediatra era a insegurança dos pacientes, que possuíam o imaginário folclórico do valor do hospital e tinham receio de serem transferidos para uma unidade básica, onde não existe a tecnologia hospitalar. Em 2015, o projeto de Transferência de Cuidado recebeu uma moção honrosa no Prêmio Inovação na Gestão Fiocruz, e no ano seguinte, passou a ser um projeto de pesquisa e a integrar o programa de Políticas Públicas e Modelos de Atenção à Saúde (PMA) da Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas (VPPCB/Fiocruz). Desde o final de 2018, a fase de estudo foi concluída e hoje, o projeto faz parte da rotina no Ambulatório de Pediatria e já possui quase 500 crianças transferidas.

Ainda sobre a temática da desospitalização no Instituto, a pediatra e gestora da Enfermaria de Pediatria do IFF/Fiocruz, Lívia Menezes, ressaltou a importância do debate. “As crianças com condições crônicas complexas precisam ser pauta na saúde pública como um segmento específico e não isoladamente, porque demandam cuidados específicos e altos investimentos em saúde. São crianças que permanecem mais tempo internadas, reinternam com muita frequência e são, muitas vezes, dependentes de tecnologia”, relatou ela, que expôs como um ponto crucial o entendimento de que o processo de desospitalização já deve ser iniciado durante a internação hospitalar.

Devido à dificuldade para desospitalizar essas crianças, em 2014, a Enfermaria de Pediatria do IFF/Fiocruz tinha uma taxa de ocupação elevada, em torno de 89%, um tempo médio de permanência prolongado, cerca de 17 dias, e uma baixa rotatividade de leitos. “Em 2015, começamos o projeto de ações internas e externas voltadas para a desospitalização, e em dois anos e meio conseguimos reduzir a taxa de ocupação da unidade para em torno de 70% e o tempo médio de permanência hospitalar para oito dias. O mais surpreendente foi a quantidade de vagas para internações novas que conseguimos ofertar ao longo dos anos, saindo de um número de 190, em 2015, para 370 internações por ano, em 2018. Essas ações precisam de um continuum e de interligação entre os diversos setores do hospital e os componentes extra-hospitalares”, informou a pediatra.

Na oportunidade, Livia listou alguns desafios do Instituto para a desospitalização: assegurar, em uma era importante de cortes, os direitos e os benefícios dessas crianças e suas famílias, bem como a realização rotineira do projeto terapêutico singular, que deve ser individualizado, além de destacar a necessidade de cuidar dos cuidadores. “Os cuidadores devem ser incluídos e acompanhados, uma vez que o adoecimento familiar deve ser valorizado, especialmente, nas internações prolongadas, nas quais, diversas vezes, torna-se o grande empecilho para a alta hospitalar”, disse ela, que pontuou ainda como desafios externos o aprimoramento da relação com a atenção primária, incluindo a atenção domiciliar. “Em 2016 e 2017, o Padi do IFF/Fiocruz fez cursos de capacitação da rede, alcançando 85% dos programas de Melhor em Casa do Estado do Rio de Janeiro. Porém, a dificuldade que enfrentamos é o desmonte frequente dessas equipes, comprometendo a continuidade do cuidado e o vínculo com os profissionais que já estavam encorajados a receberem um paciente com complexidade”, lamentou ela.

Na sequência, a assistente social e gestora da Enfermaria de Pediatria do IFF/Fiocruz, Mariana Setúbal, mencionou que a desospitalização é um trabalho absolutamente artesanal e difícil. “Nas condições muito complexas e com dependência tecnológica não basta apenas capacitar as equipes de atenção básica e atenção domiciliar dos territórios, os profissionais de saúde do território precisam conhecer bem o caso, a família e a rede. Isso é o que se denomina como gestão do caso, nos termos de Eugênio Vilaça Mendes. Por isso, é necessário pensar em uma agenda permanente com o município, estado e com as coordenações da atenção básica e dos programas de Melhor em Casa. Se não for dessa forma, nós não conseguiremos fazer uma desospitalização efetiva e segura”, explicou ela.

Antes de finalizar, Mariana contou três ações que acontecerão ainda este ano, fruto do trabalho do Programa Desospitalização: a primeira será o lançamento de um aplicativo em parceria com a VPAAPS e a Coordenação das Ações de Prospecção da Fiocruz, destinado às famílias, com foco em estratégias de contato entre as equipes que prestam cuidado aos usuários. A segunda será o lançamento do livro Desospitalização de crianças com condições crônicas complexas: perspectivas e desafios, que será lançado na terceira ação, o I Congresso de Condições Crônicas Pediátricas do IFF/VPAAPS/Fiocruz, que terá como tema o Manejo clínico e diálogo com a rede. “O livro é a síntese do trabalho do grupo envolvido nesse projeto de desospitalização, e não será vendido, e sim distribuído para as equipes de atenção domiciliar, atenção básica e hospitais de referência do Brasil”, declarou ela. “O que construímos desde a primeira etapa do Projeto Desospitalização foi o suporte imprescindível para pautar ações sistemáticas que garantam que cada vez mais crianças e adolescentes com condições crônicas complexas  possam ter o direito ao convívio da família e da comunidade, e isso só é possível porque é fruto de uma construção coletiva da equipe multiprofissional da Área Pediátrica, que atua em conjunto com as demais áreas assistenciais do IFF/Fiocruz através da Equipe Sentinela da Desospitalização”, concluiu.


Profissionais debatem sobre a desospitalização (da esquerda para a direita):
Mariana Setúbal, Lívia Menezes, Débora Spalding Verdi, Alessandra Pala e José Augusto de Britto
(Foto: Everton Lima)

Outro tema debatido foi a Qualidade na Assistência dos Serviços de Saúde, que teve contribuições do auditor do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE/RJ) Marcos Paulo Nascimento, do gerente da qualidade da Unidade de Tratamento Nefrológico (UTN), Thiago Lopes, assessora de Atenção à Saúde da VPAAPS/Fiocruz Patrícia Canto, da coordenadora da Gestão da Qualidade da Fiocruz, Renata Almeida, e da farmacêutica, analista de gestão e gestora do Núcleo de Qualidade, Gestão de Risco e Segurança do Paciente (Qualiseris) do IFF/Fiocruz, Maria Beatriz Andrade Fontoura de Carvalho.

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