IFF/Fiocruz realiza a 8º Jornada de Estomaterapia Neonatal e Pediátrica

Com o objetivo de fazer uma atualização sobre os temas relacionados ao cuidado especializado de crianças e neonatos com estomia digestiva, o Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz) reuniu, no dia 17/10, enfermeiros, técnicos e acadêmicos de enfermagem, para a realização da 8º Jornada de Estomaterapia Neonatal e Pediátrica do Rio de Janeiro. Durante a mesa de abertura do encontro, organizado pelas profissionais do Instituto Andréa Rodrigues, Noélia Leite, Munique Andrade, Kátia Maria Viana e Irani Martins, a assistente social e membro da Coordenação de Atenção à Saúde do IFF/Fiocruz Dolores Vidal comemorou o sucesso da jornada, que chegou em sua 8ª edição com o Centro de Estudos Olinto de Oliveira lotado. “O ambulatório de Estomaterapia apresenta uma inovação e o mérito é todo da equipe, que vem se aprimorando e traz para o debate questões que vão melhorar a atuação dos profissionais e a qualidade de vida das crianças que são beneficiadas com a Estomaterapia”, afirmou ela.

A enfermeira estomaterapeuta do IFF/Fiocruz e uma das coordenadoras do evento Noélia Leite relembrou o início do trabalho no Instituto em 2001 e a oportunidade de acompanhar o seu crescimento. “Nesses 17 anos, conseguimos ampliar muito o olhar para as crianças com estomias e entendemos que os espaços de cuidado devem ser multidisciplinares, pois é a melhor forma para atender os pacientes”, comentou ela.

Um dos debates realizados foi sobre o Atendimento multidisciplinar às crianças estomizadas no Rio de Janeiro. A primeira palestrante foi a assistente social da cirurgia pediátrica do IFF/Fiocruz Aline Rodrigues Almeida que contou que a estomia passou a ser considerada uma deficiência física em 2004, através do Decreto 5.296. A assistente social explicou que antes do decreto as políticas públicas eram restritas a benefícios básicos, mas que com ele, direitos como vida e saúde, convivência familiar e comunitária, profissionalização e proteção ao trabalho, educação, cultura, esporte e lazer, passaram a ser entendidos como fundamentais para a vida das crianças e adolescentes com deficiência. “Hoje, não dá para pensar em cuidar do paciente sem olhar todos esses determinantes, é tudo inter-relacionado, todos precisam estar em harmonia”, observou ela.

Aline apontou também, as fragilidades que os estomizados enfrentam e em como o Serviço Social está sempre buscando criar mecanismos para facilitar e orientar os recursos que agreguem todas as questões dos pacientes, além do fornecimento de informações sobre os benefícios. “No campo de Serviço Social, mais especificamente nos serviços de saúde, o profissional trabalha na identificação dos aspectos sociais e privilegia a garantia da plena informação e a discussão sobre direitos. Sendo assim, consegue através do atendimento aos usuários e familiares, deixar claro suas necessidades e interesses”, sinalizou ela.


Benefícios Assistenciais

Em seguida, a nutricionista do Ambulatório de Nutrição Pediátrica do IFF/Fiocruz Ana Lucia Pereira da Cunha informou que, devido as especialidades do Instituto, os pacientes pediátricos com gastrostomia encaminhados para tratamento, normalmente, possuem doenças genéticas, microcefalia (exposição ao Zika vírus), estenose de esôfago ou fibrose cística. Ana Lucia esclareceu que na avaliação nutricional, são realizados procedimentos e exames nos pacientes, sendo um deles o exame físico, utilizado para detectar sinais clínicos de deficiências nutricionais, através da pele, cabelo, face, olhos, unhas, lábios e língua, e falou da importância da Anamnese. “A Anamnese é um outro passo e precisa ser muito detalhada, pois precisamos saber os horários, quantidades e tipos de alimentos administrados, a real condição socioeconômica da família, as dificuldades para aquisição dos alimentos prescritos e as condições do domicílio em relação à higiene - presença de energia elétrica e eletrodomésticos necessários para manipulação da dieta”, salientou ela.

A nutricionista ressaltou que é essencial o registro da conduta nutricional no prontuário para contribuir com as próximas consultas e conhecimento de outros profissionais envolvidos no cuidado. Já em relação aos desafios do atendimento nutricional, Ana Lucia mencionou lidar com a difícil aceitação dos familiares sobre a indicação da gastrostomia do paciente e o olhar atento aos aspectos emocionais do paciente, cuidadores e demais familiares.

Na sequência, a fonoaudióloga do IFF/Fiocruz Maria Carolina Muzzio Salazar explicou que a alimentação é o conjunto de hábitos que o homem usa, não só em relação às suas funções vitais, mas também como um elemento cultural e para manter ou melhorar a sua saúde. “A alimentação nos pacientes com gastrostomia é mais delicada, pois eles necessitam de uma via alternativa. Isso causa um impacto na família e devemos trabalhar essa aceitação”, frisou ela.

Outro ponto abordado por Carolina, é que a fonoaudiologia na equipe multiprofissional realiza um Planejamento Terapêutico Singular do paciente, com determinantes de saúde, correlacionando faixa etária e desenvolvimento, definição do risco de aspiração, estabelecendo critérios para a reintrodução da dieta via oral, indicação adequada da dieta ofertada de acordo com o caso clínico, gerenciando a deglutição funcional e as indicações de via alternativa de alimentação e/ou retirada.

Dando continuidade, a médica da cirurgia pediátrica do IFF/Fiocruz Rachel Fernandes de Souza alertou que os pacientes com estomia são dependentes de tecnologia, de um cuidado e assistência específica, por tempos prolongados. “Por isso, é fundamental o atendimento multidisciplinar, que está de acordo com o conceito de integralidade do Sistema Único de Saúde (SUS), em que as ações de promoção, proteção e recuperação da saúde não podem ser fragmentadas”, destacou ela.

Como mensagem, Rachel disse que a equipe deve focar na promoção da saúde. “A rede de suporte e de sustentação deve ser tecida em fios concretos, constituídos por profissionais estratégicos, de cunho solidário e imbuídos de responsabilidade, atuando em conjunto na busca de um atendimento ético capaz de contemplar as múltiplas dimensões do cuidado de uma criança com estomia”, finalizou ela.

Para encerrar a primeira mesa-redonda, a enfermeira estomaterapeuta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e membro da Comissão Científica da Associação Brasileira de Estomaterapia (Sobest) Déborah Machado ressaltou que os pacientes devem ser atendidos em sua singularidade do cuidado, mas que ao observar outros municípios, percebe a precariedade do atendimento e dos materiais adequados, como a dispensação de bolsas, equipamentos e sonda. “Em atendimentos, as mães relatam que em uma saída acidental, ligam para a farmácia, compram o cateter button e elas mesmas inserem, por conta do desespero, da falta de informação e suporte”, lamentou ela.

Dois pontos relevantes que Déborah realçou foi que é preciso desmistificar o “mito” da estomia desde o primeiro atendimento, tirando as inúmeras dúvidas trazidas pelos cuidadores, e a influência do profissional empoderado. “Em meio às dificuldades, notamos que o profissional empoderado do seu conhecimento acerca do cuidado transmite esse empoderamento para os cuidadores. Então, cuidem com excelência, com amor e se aprofundem!”, concluiu ela.

Com cerca de 80 participantes, a jornada abordou também os temas: Laparotomia, Videolaparoscopia, Endoscopia e Cuidados de Enfermagem - Prevenção de complicações relacionadas à gastrostomia.


Destaque para a equipe multidisciplinar representada pela presença da médica Rachel Fernandes, a nutricionista Ana Lúcia Pereira, a fonoaudióloga Ana Carolina Muzzio, as enfermeiras Noélia Leite e Andréa Rodrigues, a assistente social Aline Almeida e a enfermeira Déborah Machado: organizadoras e palestrantes felizes com o resultado do evento

 Saiba Mais:

- Portal Ostomizados: 
- SUS lei 8.080:

 
Direito a vida e a Saúde: Art 2º e 3º;
Assistência e dispensação de insumos: Art 19.

Informações Adicionais