Violência institucional, racismo e morte materna são destaques na Agenda Laranja do IFF

Na segunda-feira (4/6), aconteceu, no Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), mais uma sessão da Agenda Laranja, iniciativa que teve início em 2016 e busca incentivar a construção de uma cultura institucional voltada ao enfrentamento às várias formas de violência contra mulheres e meninas. Nas edições do evento, são propostos temas importantes em prol da equidade de gênero e, este último encontro foi sobre violência institucional, racismo e morte materna.

A discussão ocorreu a partir da apresentação pela defensora pública do Rio de Janeiro Arlanza Rebello do caso de uma adolescente de 15 anos, negra, moradora da Zona Oeste do Rio de Janeiro, que, no momento do parto, após uma série de ações não planejadas e sem concordância, teve duas paradas cardíacas, culminando em sua morte. A despeito de ter realizado as consultas necessárias de pré-natal e participado de grupo educativo de gestantes, a jovem teve complicações, que, segundo análise de documentos e depoimentos foram consideradas evitáveis. Buscando justiça, a mãe da adolescente procurou a Defensoria Pública do Rio de Janeiro, que, desde 2015, acompanha o caso. “O racismo institucional expõe de maneira aguda mulheres negras a mortes escandalosamente reconhecidas como evitáveis e contra as quais pouco tem sido feito”, afirmou Arlanza.

Na sequência, a pesquisadora e coordenadora da disciplina de epidemiologia do IFF/Fiocruz, Katia Silveira da Silva, informou que o Comitê Municipal de Prevenção e Controle da Mortalidade Materna do Rio de Janeiro foi fundado no início da década de 90 e, ao longo dos anos, a assistência foi ampliada, mas ainda existem falhas primárias. Para ela, todos os profissionais, não só os envolvidos nesse episódio, deveriam verificar os erros para reverter o quadro e evitar que novos casos aconteçam. “Um equívoco foi pensar que o pré-natal era suficiente para evitar óbito materno, então nós ficamos muito tempo investindo nisso, quando todas essas outras questões de negligência com a mulher, especialmente negra, continuam se reproduzindo na assistência hospitalar”, ressaltou a professora.

Dando continuidade ao debate, a assistente social e coordenadora executiva do Comitê Técnico Municipal de Saúde da População Negra do Rio de Janeiro, Louise Silva, destacou a importância de discutir a mortalidade materna, principalmente sob a ótica das mulheres negras, devido ao racismo. Ela pontuou que, a temática deveria ganhar foco para diminuir o número de mortes maternas, que só cresce. Ainda em relação ao racismo, Louise explicou que ele é a base das relações cotidianas, é uma ideologia que, para ser desconstruída, é necessário que as pessoas queiram se rever, olhar para o outro com respeito, pois a invisibilidade adoece e mata, inclusive no ambiente de trabalho. “O racismo institucional é a incapacidade corporativa de dar conta das necessidades de um determinado grupo populacional, étnico/racial. Devemos sempre analisar nossas próprias atitudes, dentro e fora da organização, pois precisamos assumir que somos uma sociedade racista e contribuir com a causa”, alertou ela.

Complementando a opinião de Louise, a psicóloga especialista em saúde da mulher e ativista em relações raciais Marta de Oliveira disse que é desproporcional e estrutural a desigualdade entre as populações branca e negra brasileiras, estando esta última concentrada nas piores posições do ponto de vista econômico e social. “O racismo age de forma ampla e complexa e deve ser reconhecido como um sistema, e não um ato isolado, que opera estabelecendo uma separação que é feita a partir da cor da pele, na qual os mais claros terão mais privilégios. Precisamos reverter essas amarras que são barreiras construídas socialmente e palpáveis na desgraça”, comentou a psicóloga.

Último integrante da mesa de debate, o professor do Serviço de Obstetrícia da Uerj Alexandre Trajano foi enfático ao apontar a alta taxa de mortalidade materna no Brasil, não só comparada aos países desenvolvidos, mas também com os países vizinhos, como Uruguai e Argentina. “Disputamos com os pobres países africanos esse indicador perverso que mostra que a qualidade de assistência obstétrica no Brasil é ruim no pré-natal e no ambiente hospitalar”, alegou ele.

Para finalizar o encontro, a moderadora, Katia Silveira da Silva, ressaltou que articulações estratégicas são capazes de gerar mudança, como fazer movimentos em cada lugar que morresse uma mulher na hora do parto para dar visibilidade ao tema e aos casos, além de gerar sensibilização e fazer novos treinamentos. “Os profissionais devem ser reciclados, incluindo os gestores, para administrarem melhor sua equipe. Não podemos fazer mais do mesmo, precisamos nos reinventar”, concluiu ela.


Organizadores do evento e integrantes da mesa de debate compartilharam a relevância de seguir dando voz aos assuntos abordados

Informações Adicionais