A importância da estimulação precoce em crianças com sequelas neurológicas

Juliana Xavier

Os casos de malformação neurológica aumentaram no Brasil por conta do surto do vírus Zika. Diante desse cenário, assim que nascem, essas crianças iniciam uma rotina de exames para determinar que tipo de malformação elas têm, qual o nível de comprometimento do cérebro, da visão, da audição, entre outros. Além disso, os bebês diagnosticados ou com suspeita de microcefalia são submetidos desde os primeiros meses de vida a intervenções de várias áreas, como fisioterapia, fonoaudiologia, otorrinolaringologia e oftalmologia. Com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dessas crianças, especialistas avaliam que a estimulação precoce na janela de até três anos de idade é importante para reduzir o nível de comprometimento causado pela malformação.

“Estimulação precoce é um termo que abrange uma variedade de estímulos para auxiliar o desenvolvimento motor e cognitivo de lactentes e crianças e pode ser definido como um programa de acompanhamento e tratamento multiprofissional para recém-nascidos de risco ou com alguma deficiência. A maior parte dos programas de estimulação precoce objetiva o atendimento de crianças de zero a três anos de idade, envolvendo tipicamente terapias tradicionais como fisioterapia, terapia ocupacional e fonoaudiologia”, explicou a coordenadora técnica da Fisioterapia Motora do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz), Carla Trevisan.

Para a fisioterapeuta, a criança com disfunção neurológica apresenta restrições de impacto inicialmente desconhecidas, tanto musculoesqueléticas quanto neurais, para aquisição das habilidades motoras. “Desta forma, o início precoce de um plano de tratamento é fundamental, visto que as interações com o meio ambiente e as interações entre os segmentos corporais afetam o desenvolvimento. A estimulação precoce tem o objetivo de estimular e facilitar posturas e movimentos que favoreçam a aquisição sensório-motora, potencializando o desenvolvimento neuropsicomotor”, esclareceu.

A pediatra e pesquisadora do IFF Maria Elisabeth Moreira ratifica a importância do estímulo precoce nessas crianças, afim de minimizar os problemas, melhorando a qualidade de vida e garantindo o desenvolvimento neurológico delas. "Temos uma janela de oportunidade para fazer alguma coisa por essas crianças, durante o primeiro ano de vida, que é quando o cérebro ainda está em desenvolvimento, é neste momento, que uma área afetada pode ser substituída pelo crescimento de uma área normal por conta na neuroplasticidade", afirmou Maria Elisabeth.

É importante frisar que os programas de estimulação precoce podem ser benéficos para qualquer recém-nascido de risco que apresente condições ou agravos de saúde que interfiram no seu desenvolvimento neuropsicomotor, como a prematuridade, a paralisia cerebral, doenças congênitas, entre outras. “Para lactentes e crianças com microcefalia, a estimulação precoce deve ser iniciada logo após a constatação da mesma, buscando otimizar o desenvolvimento e prevenir ou minimizar sequelas e deformidades”, disse Carla Trevisan.

No início de 2016, o governo federal divulgou uma cartilha com orientações de atendimento especial a crianças de zero a três anos com microcefalia causada pelo vírus Zika. O documento tem orientações sobre desenvolvimento neuropsicomotor da criança, como a avaliação do desenvolvimento auditivo, visual, motor, cognitivo e da linguagem, a estimulação precoce e enfatiza a importância da participação da família na estimulação precoce. “A família tem papel primordial neste processo, uma vez que a estimulação deve ser continuada em casa. Desta forma, sempre sugerimos que os pais ou responsáveis devam assistir as sessões de atendimento para receberem orientações sobre posturas e estímulos que devem ser realizados em casa. É importante lembrar que as orientações devem ser individualizadas e fornecidas pelo profissional especializado que está atendendo esta criança, a partir das necessidades da mesma”, esclareceu a fisioterapeuta.

De acordo com a publicação, diversas técnicas fisioterapêuticas podem ser usadas para a estimulação precoce, sendo o tratamento neuroevolutivo o mais utilizado no meio terapêutico. “O objetivo é direcionar a facilitação das atividades motoras apropriada para cada criança, baseado na idade cronológica, através de manuseios e facilitações de postura e movimento. Esta abordagem tem por objetivo final a potencialização das atividades funcionais da criança, de maneira que, apesar de algum eventual dano ao sistema nervoso, a criança possa desenvolver suas habilidades e competências funcionais no máximo de suas possibilidades”, finalizou Carla Trevisan.

Para ter acesso a “Cartilha Diretrizes de Estimulação Precoce – Crianças de zero a 3 anos com Atraso no Desenvolvimento Neuropsicomotor Decorrente de Microcefalia” clique aqui.




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